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Terça-feira, Novembro 03, 2009

É Outono e afinal tu não estás (mentiste-me). E eu fujo da felicidade dos outros como o diabo da cruz. Casais passeiam-se pelas ruas, enroscam-se nos sofás a ver filmes alugados, tocam-se os dedos dos pés nas suas camas mornas. Mulheres completas pespegam a intimidade online para que os outros a saibam, os mimos trocados e as viagens feitas, num desfio de memórias que passam a ser do universo inteiro. Todos me parecem contentes, satisfeitos com as caras-metade, os rebentos, as compras, os fins-de-semana; e eu roída de uma inveja soturna e febril, a querer rever-me a cada confissão pirosa, a cada vulgar escapadela. É Outono e tu não estás. Serás porventura uma dessas pessoas, mais feliz do que eu, devidamente acompanhada, a cumprir um destino comum, a partilhar uma manta à lareira, a receber um beijo ensonado a meio da noite, um abraço dolente ou uma mão entalada e esquecida entre as pernas. Uma dessas, que alardeiam a sorte que têm, abençoadas, que sonham sem pesadelos, que choram pouco ou quase nada, cujas refeições são sempre gourmet, cujas férias são sempre à beira-mar, que se vêm sempre que fodidas. Devidamente curado e cicatrizado, as feridas lambidas à exaustão, terás renascido, reavivado chamas cúmplices e despertado para o altruísmo do amor. É Outono. E nada daquilo que imaginei um dia aconteceu entretanto. As noites continuam enormes e os dias, imperfeitos como um poema inacabado, e só o frio me poderá agora consolar ao me dar um motivo válido para a recolha entre paredes e o excesso de música antiga. Vou ao arrepio dos humores da cidade volátil e egoísta, esta cidade que me fere com o cheiro doce das castanhas e me enterra no corpo a vontade afiada de polegares farruscados de cinza e de letras de jornal. É Outono e afinal tu não estás (mentiste-me).



(sweet november)

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho), queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção que distribuis pelos outros em rateio ao longo do dia. Tenho ciúmes da mulher com que te cruzas na rua pela manhã, que passa apressada e sombria sem te atentar no perfume. Tenho ciúmes da vizinha que partilha contigo o metro quadrado do elevador, respirando ambos o mesmo ar; da tua secretária, que chega por trás e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha, para te mostrar um documento qualquer; e da empregada do restaurante, que recebe o teu pedido, sugerindo-te as especialidades do dia, e a quem sorris alheio enquanto encomendas o melhor vinho da lista para impressionares quem se senta ao teu lado. Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado e usufrui de toda a tua atenção; e da loura que vai no trânsito, a quem dás prioridade e deixas passar à frente com um aceno de cabeça e um olhar de raspão, desfocado mas atrevido. Tenho ciúmes da rapariga da bomba onde enches o depósito, a quem pedes um maço de cigarros e por quem aguardas enquanto conta os trocos com dificuldade; da hospedeira que te serve o bloody mary mal o avião levanta vôo, e das que olham para ti na rua e te prescrutam o dedo anelar, tentando perceber se és casado, se estás disponível ou se ambas as coisas. Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar de rompante num bar e te beijam na boca como se fosses delas (e por momentos até és), te arrastam para um quarto, te viram do avesso e te deixam; das vendedeiras da praça que te tratam por menino com impudência desabrida; e da doutora da farmácia onde avias as receitas, do tempo que demoras ao balcão, fazendo conversa, conferindo dosagens, pedindo recibos. Tenho ciúmes da velhota da pastelaria que te conhece há anos e que te tremelica uns bons dias com familiaridade deslocada; e da advogada canina com quem te reunes amiúde, convencido de que a Lei te vai resolver toda essa vida sem mim. Tenho ciúmes da tua mulher, da indiferença que lhe votas quando chegas a casa, das conversas geladas sobre domesticidades (qualquer coisa me servia agora); e tenho ciúmes da tua empregada, que espaneja e arruma os restos de ti que sobram pela casa quando não estás, recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros e essa tristeza que deixas depositados nos cantos. Tenho ciúmes, nem imaginas (os ciúmes que tenho).



(othello)

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Faço-te uma espera, juro, um dia destes. Apanho-te desprevenido, ao saíres de casa, ao chegares ao trabalho, no momento em que soltas a mão das crianças para que entrem na escola ou no exacto instântaneo em que largas um beijo frio no perfil seráfico da tua mulher. Sim eu estarei lá, de tocaia, escondida atrás de uma peça gasta de mobiliário urbano, camuflada e a confundir-me com a paisagem adjacente. Pânico. Estarei em pânico, doente, a finar-me, a passar-me, mortalmente envergonhada, desenquadrada do ambiente, sem saber se vá se fique, se te confronte e te aprisione de imediato o olhar ou se te apareça por trás, desavisada e sorridente. Juro, um dia destes, faço-te uma espera. De manhã ou de tarde, vestir-me-ei a rigor, para a noite e o pecado como uma puta esmerada, o melhor vestido e o melhor perfume, botas altas, o costume, armada em boa, toda eu rimel e confiança, fé não que não é preciso, a bater os saltos na calçada e a furar com determinação a brisa cerúlea que me emplastra o passo. Bloqueio-te a passagem, frustro-te a fuga e bombardeio-te com a evidência de estar para sempre no teu caminho, empecilhando-te o tédio e alterando inesperadamente a química do teu organismo. A princípio, fingirás que não me conheces, sim, que não me conheces, e eu rir-me-ei na tua cara porque ainda assim vais tentar fintar o destino (o que fazes sempre, excepto quando te perdes dentro de ti e me devoras inteira, cedendo à fome e ao instinto). Um dia destes, juro. Não imagino o que te direi, não cheguei a essa parte, pouco interessa aliás; não tens de me sustentar o olhar, de me cumprimentar ou retorquir, podes até fechar os olhos e fingir que não estou ali, remetendo-me para a lembrança que tens das fotografias. Fecha os olhos, isso, fecha os olhos (vou deixar-te fechar os olhos, como fazem as crianças quando o pensamento lhes foge). Não careço de que me vejas, o meu fito é unilateral, o meu interesse é científico: só preciso de descobrir a que temperatura ferves.



(fatal attraction)

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Fica sabendo que não tenho medo. Que não tenho pudor nem moral e que não é a religião que me salva. Mais do que agnóstica, sou ateia, pernóstica, sou copérnica: circundo-te heliocêntrica, e que se lixem os outros. As outras. A outra. Aquela com quem estás agora. Doemos o seu corpo à ciência, abandonemo-la à sua sorte. Sou imatura e irresponsável, não vou à missa, mostro as pernas (abro-te as pernas) e faço beicinho para que sejas meu. Para de ti dispôr como quiser, vens ou ficas, vais ou vens-te. Mortifica-te, estás à vontade, o remorso a jorrar de ti madrugada fora, porque o que é teu está irremediavelmente em mim e se calhar vice-versa, nem mil duches te salvam, nem esfregado a pedra pomes, a pele numa chaga viva. Fica sabendo que não hesito; que espezinho e que comando; que faço fitas e abandono, e que não sou de fiar. És-me tão difícil quanto inesperado; és a incoerência, a incongruência, a vida vista de baixo para cima. És o dueto entre a raiva e a meiguice, entre o medo que tens do medo e a investida cega do herói solitário. Às vezes de noite quando finjo que sossego, amo-te. Também te amo em certos momentos do dia e chega a haver alturas em que te adoro, isso nos intervalos em que te esqueço. Quero apoderar-me de ti e falar com esse sotaque que enfiarás sem querer na minha boca, empurrando-o com a tua língua. Terás um dilema moral por resolver, que coisa despir-lhe primeiro?, e eu o diabo no corpo, toma lá que é para aprenderes. Quero-te perto, nas imediações, não me interessa se agora não dá, faz a trouxa e vem de malas aviadas que a estada pode prolongar-se. Sou egoísta, esporádica, imódica, e às vezes até asmática. Falta-me o ar quando me ignoras, arremelgo os olhos e arquejo, não tenho culpa, é uma doença, uma condição que me definha, tragam-me a bomba por favor. Morro se me viras as costas, se não me telefonas, se não me envias bonecos tontos que se rebolam a rir quando a ocasião pediria apenas um breve sorriso contido. Morro e olha, eu não brinco com estas coisas, vou parar-me já o coração. Escuta, ainda bate, o parvo, o teimoso: já te disse que às vezes te adoro?



(a place in the sun)

Domingo, Setembro 20, 2009



(obrigada, Pedro)

Sábado, Setembro 19, 2009

Queria dar-te colo, embalar-te no meu regaço e dizer-te baixinho que tudo está bem quando acaba bem. Queria adormecer essa tua inquietação, dar conta de todos os teus medos, decepar a loucura que desliza dentro de ti como uma enguia sem tino, com tamanha violência que quando sibila se ouve cá fora em redor, escoando-se pelos orifícios da tua pele. Queria garantir-te que, comigo por perto, nada ninguém nunca poderá fazer-te mal, que podes fechar os olhos, descontrair os músculos, deitar para o lixo todos os químicos que agora te permitem a posição vertical e fingires para os outros que és tu. Queria dizer-te que sei que estás algures dentro de ti e que esse invólucro que apresentas é apenas uma pele seca que mais cedo ou mais tarde largarás pelo caminho, quando me souberes lá à frente à tua esfera. Queria que percebesses que há entre nós um laço, mais do que um laço, um nó górdio, um amor complexo e irremediável, cheio de voltas e contravoltas, que ninguém poderá cortar com a sua espada, mesmo que especialmente desembainhada para o efeito. Sei que hoje nada sentes, ocupado que estás com a aritmética simples da sobrevivência, que estas palavras pouco te dizem, que tudo te parece um pesadelo e que não acreditas em mim no fim da linha, acho que a questão nem sequer te interessa. Mas um dia olharemos para trás e leremos os dois este texto premonitório, palavra por palavra, promessa por promessa, juro. E será exactamente como te disse, os dois rodeados de crianças e de bichos e de pólenes de primavera que o vento nos trará em contornando as montanhas. E então serás tu a embalar-me com o cinzento dos teus olhos e a tapares-me com o cobertor até cima, afugentando os meus fantasmas com a mão, vigorosamente, como se fossem apenas insectos incómodos e não esta bola de fogo que me empecilha a garganta e me faz acordar a meio da noite, a vomitar pela cama o medo de te perder para sempre na espuma dos terrores que inventas para ti mesmo.



(the notebook)

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Sigo o teu nome por estradas velhas, persigo-te assim, por caminhos antigos e traiçoeiros, saltando-te pedra a pedra, a querer aparecer-te à porta, ao portão, a esperar-te escondida com o azedume do assédio a fervilhar dentro de mim. Quero agarrar-te a cara com as mãos, à tua saída, e fixar-te as feições espantadas, o olhar surpreso, o maxilar rígido e desconfiado. Sigo-te à tua morada, entreteço em mim tudo o que de ti sei, corro atrás de ti com a curiosidade de uma criança com o seu franzir de sobrolho, indagante, sempre a virar as esquinas atrás de balões e de seres etéreos. Guardo de ti tão pouco: um amor que não conheço arrastado pelo chão da minha casa, sabedorias incompletas e uma ternura brevemente derramada numa madrugada qualquer, soprada como um segredo. Sinto-te, que queres?, como se me respirasses aqui e agora para o ouvido e isto são coisas que a ciência não explica. Mas sigo-te sem fé, aos ressaltos e renitente, como esse gaguejo subtil que te trai quando te preparas para me dizer a verdade e que eu ao princípio confundia com um defeito da ligação, que parecia prolongar-te as sílabas no ar. Tens qualquer coisa de sino de igreja que avisa, que insiste e não perdoa, mas que ao mesmo tempo redime. E uma violência feroz que às vezes te escorrega pelas palavras, sem dares conta, porque o que mais queres é ser meigo. E eu, olha, eu a dar o teu nome a este documento de texto e a pôr em baixo a tua fotografia, se a tivesse. E então ninguém te poderia confundir com um filme, com um argumento inventado por outros. Tu és um caminho; um caminho por onde vago à toa, acossada pela posse e pelo vazio, sem final feliz à espreita. Mas também és uma espécie de verdade, uma verdade não comprovada que me rasa a pele e me amarga os sonhos, e por isso hoje não finjo que esta estória não nos pertence.

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Pensei, sinceramente pensei, que fosses tu. Que os teus tolos desmandos aniquilassem a inconsciente superficialidade dos meus; que a tua loucura subjugasse a minha e eu conseguisse por fim dormir à noite com a cabeça no teu colo, ou num colo qualquer, desde que num arremedo de paz. Pensei que fosses tu, o princípe encantado por mim, prestes a enfrentar os meus dragões, que entrasse de espada em punho pelas masmorras onde me escondo e definho, desde sempre à tua espera, (sei-o agora, perante a inevitabilidade dos teus olhos em fogo, doentes de determinação). Que me resgatasses do cansaço que é não pertencer a lado nenhum. Pensei-te por momentos uma espécie de lar, um porto de abrigo, o regresso, a volta a casa. Que apenas me olhasses e que exigisses perante os teus pares amares-me contra todas as expectativas, todos os mapas astrais e as cartas do tarot que adivinham tragédias. Pensei que chegasses, que não perdesses tempo com rodeios nem mal entendidos e que nos mareássemos no rodopio inebriante da descoberta do amor: aquele amor salvífico que nos devolve o fogo de artifício e que nos abre os poros. Por momentos foste tu, a passar no crivo solitário das minhas noites e senti medo, frio na barriga e as pernas bambas; porque eu a saber-te lobo a quereres-me comer e a temperar-me a jeito para te saber melhor. Mas não foste mais do que a promessa de uma promessa, o beijo que não me queimou a boca, as mãos que não me empurraram contra a parede; foste só uma voz do outro lado da cidade, do mundo, que se atabalhoava na linguagem confusa e desconfortável que o amor às vezes escolhe para nos comunicar que não pode ser, que temos pena mas não é chegado o momento e que, como nas escondidas da nossa infância e quando quem está no coito chega lá primeiro, ninguém salva ninguém. Por momentos pensei, mas na verdade, ninguém salva ninguém .



(the crying game)

Sábado, Julho 25, 2009

Hoje (lembrei-me), estávamos outra vez no quarto emprestado. Eu chegava primeiro como de costume e achava graça, ao modo apressado como entravas sem me olhares a direito, pousavas a mochila no chão e remexias no seu interior, como um vendedor porta-a-porta com urgência em me impingir um aspirador mágico ou um evangelizador imberbe prestes a sacar da bíblia para me tentar convertar. Era neste momento que eu gozava o meu poder, o poder de te atrair para ali e de te fazer esquecer o resto; o poder que sabia que perderia assim que me pusesses as mãos em cima. Olhava-te de pé encostada à parede, a esconder o nervoso na bainha do vestido que ia alisando com os dedos, de casaco posto, se preciso fosse de cachecol ainda ferozmente enrolado ao pescoço. Queria que passasses por todas as etapas do acto de me despires e que cada peça de roupa fosse um degrau a mais na escalada ignominiosa da traição que estavas prestes a cometer. Mas tu nunca fazias nada como eu queria: levantavas-me o vestido, enfiavas-me a mão sem cerimónia, avaliavas-me a humidade, viravas-me de costas, punhas-me de quatro e depois de um rápido vai-vem só para aquecer, deitavas-te de costas na cama à espera que eu fizesse o resto, designadamente, que me livrasse da roupa sozinha e te desse toda a atenção do mundo. E eu despia-me (desastrada, os pés pelas mãos) e dava-ta, enquanto tu olhavas o tecto como se este fosse mais importante do que as minhas curvas nuas e os meus espaços abertos ansiosos pela tua prospecção. O mais estranho é que gostava assim; criara a ilusão de que ambos ganhávamos e perdíamos à vez naquele cenário depurado de coreografias românticas e assente apenas na crueza materialista da posse. Mas na verdade eu quase só perdia; muito mais do que as duas ou três horas de deveres incumpridos, eram résteas de amor-próprio que aos poucos iam ficando misturadas nas fibras dos lençóis, como vestígios seminais. Um dia, hás-de querer-me nua e eu de mãos atadas, tapada com um rigor de freira, a boca cerrada num fio, absurdamente fixa em qualquer coisa que não tu, a alma feita num nó, mas os lençóis (garanto-te) um brinco.



(damage)

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Acredito nos fins irreversíveis. Acredito na impossibilidade real do encontro, no poder afirmativo da ausência, no esbatimento das lembranças, hoje inteiras amanhã pela metade como frescos por restaurar, pedaços de asas de anjo em tectos abobadados, bocados de tinta e estuque que se soltam de nós com o passar oxidante do tempo. Acredito no dedo que se contrai antes do send, no delete antes do envio, no move to draft, nas palavras em suspenso no nada. Acredito no SMS não enviado, no telefonema que não chega a ser feito, no nome que fica na lista, perdido entre os contactos profissionais. Acredito no dito que nunca será dado pelo não dito, na vida que continua a esgalgar-se à nossa frente, nos homens e nas mulheres que nos apagam e apagarão de vez um do outro. Acredito nos teus e nos meus amores maiores, nas opções certas e na determinação da escolha. Acredito que se pode jogar e ganhar, mesmo quando se pensa que se perde, e também creio no inverso: que às vezes se perde mas se está convencido de que se ganhou. No entanto, não acredito numa única palavra do que me disseste para além daquilo que é a verdade. Vais sentir-me em ti durante algum tempo, a revolver-te os órgãos internos e a retirá-los aos bocadinhos com uma colher nalgumas das noites em que ficares acordado, a enfiar-te agulhas nas plantas dos pés quando estiveres em casa ao domingo porque está a chover, e a aparecer-te no espelho retrovisor quando olhares por cima do ombro a ver se podes ultrapassar. Exagero? Talvez. Afinal, podes já ter esquecido muito entretanto, atropelado pela realidade, mas aposto que ainda te lembras da minha tendência para o drama quando aqui chego. E as saudades (essas) são reais e não são só minhas. As saudades têm a forma de mesas de esplanada, reflectem-se num copo alto com gelo derretido dentro, num carro velho impregnado de vestígios do crime, num café esquecido que arrefeceu na chávena e no prato do dia partilhado numa tasca. As saudades têm número de porta e nome de rua. E contra isso não podes fazer nada.




(P.S. I love you)

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Queria dizer-te da importância de certos gestos nossos para a conservação da natureza, como a obediência dos teus pêlos aos avanços da minha língua quando esta te varre a pele, alisando-a contra o sentido do vento. Queria dizer-te que são fundamentais, para o equilíbrio do universo, para o alinhamento dos chakras e para o perfeito feng shui das divisões de todas as casas, os teus mergulhos por entre as minhas pernas e o tempo em apneia que por lá demoras, o suficiente para que a paz no mundo e a harmonia entre os povos não sejam meras utopias. Queria dizer-te que é quando me sulcas por dentro com movimentos desencontrados e espavoridos como o bater das asas de uma borboleta, que o caos se organiza e que factos importantes acontecem no lado oposto do mundo; que do entrelaço das minhas pernas nas tuas depende a preservação das espécies e que a sincronia das nossas respirações anelantes diminui sensivelmente o buraco do ozono e todos os malefícios conexos. Queria dizer-te que é absolutamente indispensável para o fim da fome e das guerras, que me dobres e me vires, que me avesses e me endireites e me faças gritar o teu nome; e que quanto mais vingar a distância que existe entre nós, maior o degelo nos glaciares e o perigo de extinção dos ursos, por ali à deriva sem poiso. Queria dizer-te da extrema necessidade de os dois sermos às vezes um só, pois da fusão nuclear que resulta da fricção do Amor dependem avanços energéticos em prol da sustentabilidade do planeta. E que o facto de me exigires e de me quereres de certas maneiras, conduz à reflorestação de zonas áridas e à protecção de zonas húmidas e do respectivo habitat, o que faz com que o mundo respire melhor, devidamente oxigenado.



(contact)

Terça-feira, Maio 12, 2009

Sou diferente, quando não estou contigo: argumentativa, influente, persuasiva, convincente. Sou a que arrasta multidões, a que quando fala os outros baixam as orelhas, a que tem histórias para contar, teses para defender e pontos de vista para demonstrar, catedrática e exegética. Mas olho-te a boca e fico assim, meio gaga e cacofónica, trapalhona e concordante, onomatopeica e monossilábica, tímida e desconchavada, acometida de dislexia verbal, a querer tomar-te o hálito e desapertar-te as calças, como se nisso residisse toda a minha erudição. Sou palavras que se trocam, raciocínios descabidos, piadas sem graça nenhuma e pernas sem poiso certo que me vão sobrando por debaixo da mesa. À vista dos teus olhos, que se cerram devagar enquanto me engolem inteira, vão-se num ápice, a extremosa educação de colégio, os pudores e o civismo, a contenção e a compostura, e eu intuo mais do que entendo e farejo mais do que penso. Porque há qualquer coisa em ti que quase me priva de humanidade, que faz de mim um bicho, uma fêmea no cio reduzida à urgência do instinto animal, a querer obrigar a tua cabeça ao desfiladeiro entre as minhas pernas. E isto porque os teus olhos e a tua boca, porque ainda e sempre a tua boca, eloquente, concisa e segura, como se isso importasse alguma coisa. A tua boca, em nome da qual apetece erguer altares, queimar incensos, acender velas, fundar uma religião, recortes e ex votos colados à cabeceira da cama, preces diárias, promessas. Sou diferente, quando não estou contigo, sou razão pura e não esta fé pagã; sou cidade, prédios e prumos, e não um punhado de terra molhada, fecunda e seminal. Sou o perímetro exterior de mim própria e não o âmago de tudo o que afinal me compõe.



(jungle fever)

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Não me apetece escrever, de tanto que o meu corpo te exige, com propósitos feudais. Que se lixe o romance e a poesia, só quero que me estafes e que rompas o teu silêncio estraçalhando-me os tabus, para depois poder adornar o meu cansaço nas tuas costas e que fiquemos assim, comprometidos com o momento e confinados a um espaço emprestado, os ruídos dos outros a circularem nas paredes como veneno. Não quero partilhar com ninguém os teus cabelos curtos por entre os meus dedos, a barba indolente que roças nos meus recantos cavos, nem o desenho da tua boca a sugar-me o antebraço. Não quero que saibam desta alquimia em que absorvo o teu cheiro através da minha pele, num processo simbiótico que podia fazer escola, nem destes desejos de cama e mesa, ilusões pequeno-burguesas de declarações conjuntas, passeios mão na mão e louças na máquina. Se pudesse, gastaria os meus dedos noutras práticas, como chegar ao teu epicentro atalhando-te pelo períneo, esfregando-me em ti como um bicho na casca de uma árvore e marcando-te meu território, enquanto o sol da tarde, insinuando que há vida lá fora, se atreveria a medo por entre as persianas estragadas.



(como agua para chocolate)

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Reduzo-me a pormenores que fixo na retina ou aguento nas entranhas, incapaz de abarcar o desígnio maior disto tudo. Vogam por aqui insensatas esperanças e fazem-se contas de cabeça, embora eu cale o que queria de facto dizer-te, de alguma forma ainda presa a ti: a tanto me leva o paradoxo da saudade. É o teu sabor na minha boca, mesmo quando não estás, e é o teu andar desengonçado a arrastar a minha sombra, até quando vou sozinha. Começo a não saber onde residem os intervalos, se nos momentos em que estou contigo, se quando o resto da minha existência segue para bingo. Mas se hoje é assim, amanhã fico indiferente, a achar a urgência que me consome um disparate sem cabimento nesta minha vida cronometrada por terceiros. Dizem que é isto a bipolaridade do amor: num dia, a razão desvaloriza-o em nome da sobrevivência da espécie, no outro, induz práticas irreflectidas que roçam o indecoro e o mau gosto, como linguados que excedem o prazo permitido e cópulas quase públicas. Queria entrelaçar as minhas pernas nas tuas em remates intrincados, num exagero de nós de escota e de lais de guia, e a seguir fechar os olhos. No fundo, queria apenas o que milhões de outros homens e mulheres sempre quiseram uns dos outros: acordarem de manhã lado a lado, brevemente completos, embalados por impressões difusas de felicidade.



(little children)

Segunda-feira, Março 23, 2009

A cada dia, a tua imagem se me torna mais familiar: eras uma vez um estranho, mas agora sorrio em reconhecimento de área, feita parva, quando te aproximas. Vejo-te ao longe e o meu coração fora do sítio, às tabelas contra as paredes do corpo, num prenúncio de guerra e paz. Já sei de alguns recantos e curvas, de coisas tuas que tentaste guardar mas não deu, de pequenos sinais que vou assinalando com cruzes (para não me esquecer) sob a forma de beijos molhados. Gosto de descobrir-te os becos sem saída, para mais com essa coisa de não teres sinais proibidos e de seres sempre todo em todas as direcções (sabes como é). E depois, eu a agarrar-te e a apossar-me de ti, coisa de fêmea que lambe as crias para as lavar dos males do mundo, dá-me a tua pele, deixa-me catar-te. Mas só naquele espaço fechado em que inventamos os minutos que não temos e brincamos aos casais, embalados por gritos que morrem na minha garganta, abafados pela tua mão. É quando entras em mim que as palavras cruas que me cospes ao ouvido se tornam perceptíveis, a clarividência do meu desejo a traduzir-te em simultâneo e o sentido da vida escarrapachado ali, nos vidros embaciados da nossa transpiração. Os silêncios semibreves só me exasperam quando estou longe: discirno pouco e mal, à distância (as saudades empecilham-me). Às tantas, chega a parecer por segundos que todas as outras foram meros ensaios para que agora saibas ao certo como me fazeres feliz sem precisares de ponto, mas afinal é porque me estou quase a vir e às vezes uma pessoa delira. Ao contrário de mim, tens essa coisa de saberes o caminho sem precisares de mapa e de me acertares em cheio de olhos fechados, e é se calhar por isso que me anda a dar para confundir as coisas e para ver lampejos de eternidade feliz na sordidez clandestina da madrugada suburbana.



(la peau douce)

Sexta-feira, Março 20, 2009

Este blogue fez três anos, ninguém diria, parece que foi ontem. Começou com uma pessoa e para uma pessoa, mas depois outras se lhe seguiram, de tal forma que tudo isto deixou de ser meu, nosso. Dizem que o tempo apaga tudo, mas não é verdade: pessoas apagam outras pessoas, e isto apenas se nós deixarmos. E nós, geralmente, deixamos, porque achamos que assim seguimos em frente. Por aqui, os personagens, reais e fictícios, foram-se misturando com as pessoas de carne e osso, sobrepondo-se. O Amor em camadas geológicas, frases e gestos mortos e enterrados, relembrados pela força anímica das palavras, mesmo que simplórias, repetidas e de gosto duvidoso. Há quem diga que isto é pior do que o Pedro Paixão e eu, na maior parte dos dias, também acho. Depois, há um ou dois textos que me saem das entranhas e a coisa fica demasiado chata e verdadeira e não é boa nem má: é apenas eu. Escrevi posts aldrabões; uns para chatear, outros só para seduzir, para provocar uma reacção em alguém particular, porque sim. Escrevi posts por encomenda e outros dedicados a casais amigos, a descrever como acho que eles acham que eu os vejo. Escrevi alguns de facto baseados nas histórias dos filmes, sem um pingo de verdade minha, nossa. Escrevi uma ou duas declarações de Amor, com pedras atravessadas na garganta. Entretanto acabou, reabriu, perdeu o sentido, reencontrou-o. Hoje, por força de muitas circunstâncias, sou uma pessoa diferente da que escreveu o primeiro post; sei mais sobre o Amor e também sobre a falta dele, mas continuo a guiar-me por aquele que foi o leitmotiv disto durante muito tempo e que constava do cabeçalho inicial, a belíssima frase de Adélia Prado, “Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento”. Continuarei a escrever porque ainda não encontrei nada. Por uns tempos, os comentários são livres e ficam abertos: é uma forma de comemorar como outra qualquer.

Domingo, Março 08, 2009

Queria que me levasses para uma pensão rasca com águas quentes e frias, daquelas com nome de enlevo patriótico a lembrar o império português, só com escadas, que subiríamos ao ritmo descompassado do coração para um quarto esconso ao fundo de um terceiro andar com vista sobre a cidade, nas tintas para o cliché. Queria que ninguém soubesse e que quem soubesse não se importasse, que um indiano seboso se escondesse atrás de um pebêxis antigo e nos desse a chave sem sequer nos olhar, sem termos de dar nomes ou moradas. Nem me importava que me achassem puta e a ti, cliente, quando nos vissem correr urgentes pelo tabuado velho do corredor estreito, o cheiro a batata doce de alguém a cozinhar cachupa no quarto a colar-se às paredes húmidas onde os meus dedos nervosos tacteantes evitariam os fios descarnados, nós tontos de desequilíbrio com o desejo a nadar-nos entre as pernas, qual é a merda da porta. Queria que me amasses com a calma de todas as coisas no bafio escuro de uma cama suspeita de não ter sido lavada, a luz de Lisboa a entrar e a refractar-se nos bocados partidos dos azulejos pombalinos rematados com cimento, os inteiros entretanto vendidos na ladra para irem pagando aos poucos os remendos da canalização, águas quentes e frias. Queria que o ruído dos vícios privados dos outros fosse a banda sonora de um filme só nosso, ao mesmo tempo sórdido e inocente como afinal somos um com o outro: gráficos, excessivos e desbocados, mas também ingénuos e sem qualquer noção do devir, insistindo teimosamente na inconsequência da nossa irresponsabilidade, como as crianças. Queria que me despisses, que me olhasses nua, que te demorasses na contemplação, que percorresses com a língua tudo o que em mim estivesse a mais e fora do lugar e que o tempo entretanto parasse para eu poder dizer-te pausadamente, entre soluços de prazer, o que sinto, o que me és e o que nunca me poderás ser, águas quentes e frias.



(lust, caution)

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela. Devolve-me a clarividência do riso das crianças, a doçura dos domingos embalados na modorra familiar, as receitas experimentais no caos da minha cozinha minúscula e o gozo de afagar os cães com as suas línguas caídas e alegres. Devolve-me a futilidade das tardes roubadas ao trabalho e passadas entre amigas, o entrar e sair dos provadores, um número abaixo, um número acima, esta saia fica-me mal, essas calças ficam-te bem, o cobiçar das botas na montra e o aconchego da noite, que sempre tratei por tu e que agora é uma estrada escura que atravesso a pé e a medo até ao limiar do dia. Devolve-me as músicas que me faziam feliz, a voz redonda e cheia com que as cantava pela janela do carro, o prazer das manhãs debaixo de um céu sem nuvens, a vontade de ler um livro, um livro a sério. Devolve-me a capacidade de atentar nos detalhes, no traço incerto de uns dedos pequenos e gorduchos numa folha branca, na pontaria instintiva de uma piada privada atirada ao ar; devolve-me a sede de saber do mundo no escrutínio de um jornal diário, devolve-me o sócrates e o obama, as respostas que te não dei, mais a luta que te não ofereci e os argumentos a que me escusei quando me lancei à tua boca e as palavras foram só empecilhos. Devolve-me as noites pacificadas no enrosco de um abraço, a ignorância que tinha de ti, a incisão na pele de um raio de sol de inverno e o gozo de ver um bom filme. Devolve-me o prazer do silêncio e do telemóvel desligado. Devolve-me, que as pessoas já falam e comentam e reparam no invólucro de mim que sobrevive rasteiro, e toma (leva contigo), esta abrasão no peito, a dispersão e o medo, a indiferença e o tédio, o insosso das refeições, a vontade de crer nas tuas rimas e a cefaleia constante que me provocam os ladrares, as canções, as conversas, os risos dos meus amores e todos os sons, do campo e da cidade, nos quais não te materializas de imediato. Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela.



(carne tremula)

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda. Guardo segredos só por ti desvendados e sorrio aos passantes, atirando-lhes à cara a arrogância de quem possui algo de único e de reservado, de exclusivo e de impraticável, como uma estância de luxo ubicada nas águas turquesa de outro continente qualquer. Trago-te em estado líquido, tanto de ti que te queixas entre as minhas pernas quando ando, com medo de caíres estatelando-te no passeio, e eu às vezes a alargar o passo só para provocar o teu medo e sentir que te agarras com força às minhas virilhas molhadas. Algures, um oráculo ecoa na decrepitude dos prédios e ordena-me que corra para longe, sob pena de as vísceras dos animais anunciarem derrotas e outras desgraças. Vejo o teu sexo nos pilares e nas cornijas, em evocações fálicas que me divertem e acendem, alheia que estou à mediocridade das analogias, embora o enunciado de tragédia que leio nas nuvens que dealbam o céu me devesse acautelar o riso e a desvergonha. A tua língua, o voo nervoso daquele pássaro, uma arvéola que hesita entre um beirado derruído e a estátua suja de um pedagogo. Quando finalmente me escorreres pelas pernas e, caído no passeio, eu seguir sem olhar-te, voltarei a sentir pequenos espasmos de alegria com a nova temporada da minha série favorita e retornarei ao cronometrar seguro de todos os momentos do meu dia, sentindo-me velha esmarrida mas em casa, de novo em casa. Apressar-me-ei a limpar as janelas por dentro e por fora com o detergente adequado e aposto que consigo até lavar a roupa na máquina sem a deixar toda da mesma cor. Em breve, quando me cansar das traições, das indecências e do teu pulsar dentro de mim, deixarei de ser a puta vernacular em que me transformaste para regressar ao mundo das horas contadas, das cortesias sem sentido, dos contarelos familiares e dos frescos no hipermercado.



(il diavolo in corpo)

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Repara, eu não sou neófita, nisto do amor. Posso vaga-lume pela noite fora à espera de um sinal teu, que no dia seguinte aplano, escolho o meu melhor vestido, calço os sapatos mais altos e bato com a porta à saída. Não é que me estejas a dar alguma espécie de novidade: são imensas e variadas as hipóteses de me dar mal, de sofrer que nem um cão, de acabar mendiga na sopa dos pobres, a roer uma côdea rala e a sorrir os dentes podres enquanto repito o teu nome aos transeuntes que nem olham. Pode ser. Sou tu cá tu lá com o desejo que me consome, entre nós não existem segredos, ele sabe que já o topei e se não me atiro agora mesmo para debaixo de um comboio, de preferência de mercadorias porque são os mais pesados, é porque tenho hora no cabeleireiro e ainda se aproveita qualquer coisa no refugo dos saldos de inverno. Não há nada no teu silêncio, súbito como uma cãibra, que remotamente me surpreenda: os silêncios vêm em bandos e é época das migrações. Posso até mortificar-me em frente à televisão, a roer uma série macabra onde o herói patologista disseca com poesia uma artéria femural, mas os silêncios (em especial os súbitos) como-os eu ao pequeno-almoço. Tudo o que possas não fazer agora, já eu o não fiz antes; conheço bem os meandros de se estar quieto à espera que passe e a necessidade de marcarmos uma posição quando não podemos marcar um território (ou a carne com um ferro). Nada leio de especial naquilo que não me dizes, nem descortino entrelinhas no acto de te manteres à margem; o espaço que existe entre nós não é mais do que matéria e por muito que o alargues, tu nos antípodas e eu insone à espreita, será sempre a mesma matéria, vou lá contradizer a ciência. Repara, eu não sou neófita, nisto do amor: tenho vindo a acumular pontos, guardo cupões de desconto e aproveito as promoções. E sei que não é por assobiares as palavras para o lado e por me negares as noites, que despes a minha pele e a deixas pelo caminho.



(um homme amoureux)

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Quando nada me dizes, acho que morro. Fico como que jogada aos bichos, órfã de sentido e de razão, arrimada para os cantos da vida, o corpo doente em fase terminal. Quando nada me dizes, não como, não durmo, e forma-se-me cá dentro um rolo de gritos calados, nos pulmões, na garganta e contra as paredes do estômago, quimo e quilo, quimo e quilo, num centrifugar desesperado. Quando nada me dizes, procuro abrigo e fico quieta, muito quieta, no silêncio infernal do olho de um furacão, na angústia iminente do cataclismo nuclear, parada e espelhada, como o rosto do oceano que anuncia a tempestade. Vou sem rumo e sem norte, por ruas que não sei o nome, sem reparar nos carros, nos outros, nas montras, não sei se nos saldos se já colecções de verão, não sei se tudo mais caro, se a crise, se a inflação. Quando nada me dizes, compro o jornal mas não quero saber de nada no mundo, só leio o horóscopo para descobrir se além dos cuidados com as finanças e com a alimentação, a semana me será especialmente favorável aos desígnios do amor, do meu amor. Quando nada me dizes, entro num modo vegetativo de estar, há um piloto automático que me guia o coração levando-o a lado nenhum, mas que me mexe os braços e as pernas, me articula os sons e as palavras e me forma sorrisos na cara, para que os outros não percebam que por dentro me resta apenas um sopro de vida, uma fímbria de alento e uma bola calada de gritos enrolados.



(anna karenina)

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Perguntas-me se quero boleia e convidas-me a entrar. Sento-me ao teu lado e vem-me um cheiro a pinho e ao teu peito agitado e húmido (como sempre quando me antecipas). Cerro as pernas e cruzo piamente as mãos antes que se me escapem para a tua braguilha de ganga engelhada, a roçar no volante a cada vez que o viras. Inclinas-te para o meio e para mim, escolhes um posto de rádio, não há nada de jeito, e é cada vez menos o cheiro do pinho brise natureza eficaz por seis semanas e cada vez mais o cheiro do teu peito que escorre abarbelado pelo desejo, eficaz a vida inteira, não precisa de recargas. Chegamos à minha rua e insinuas-te, é só um copo de água. Exulto, mas faço que me resigno. Sigo à frente e meto a chave à porta, querendo inclinar-me logo ali e agarrar com as mãos nervosas o degrau sujo da entrada para que me comas de quatro, enquanto os vizinhos espreitam de coração acelerado por detrás dos vidros duplos. Entro em casa direita e digna, como se também eu não escorresse toda, como se o rio oleoso do desejo não ameaçasse encharcar-me a compostura, tenho de ir à casa de banho. Tu manténs-te cá fora, limpando os pés no tapete puído, falando alto com deliberação e parecendo quase lídima, a tua presença ali. O gato recebe-nos satisfeito, mas recolhe-se desagradado ao perceber que comigo vem um estranho, não o dono. Na sombra, os penates agitam-se. Tiras devagar o casaco e pendura-lo no cabide indonésio grosseiramente carvado, num ritual provocatório. Olho para o lado enquanto o despes, resistindo a rasgar-to do corpo com a fúria das górgonas e corro para a cozinha. Vens logo atrás. Dou-te à pressa o copo de água, acabaste de chegar do deserto e estás com pressa de voltar, mas nem lhe tocas; antes, encurralas-me contra a mesa posta para o pequeno-almoço, as duas chávenas coloridas no centro dos dois individuais e no meio os frascos com o doce de gila e a compota de maçã, a favorita dele. À sua lembrança, consigo até sorrir-te como se não estivesse a morrer e tento encaminhar-te para a saída com a firmeza gentil de um cão-guia, mas tu agarras-me pelos ombros e deitas-me na mesa sem fazeres qualquer esforço, embora pareça que sim. Entramos então em guerra, numa pegadilha de bocas e pernas, de mãos e línguas e unhas. Demoras-te de modo insuportável antes de entrares em mim, queres que suplique embora saibas que isso nunca acontece: não preciso. Abres o frasco que rola pelo bordo da mesa e espalhas com dois dos teus dedos a compota favorita dele na minha barriga. Lambes-me o umbigo com gula e eu penso que nunca houveramos feito nada de tão cruel - nem nos seminários inventados, nem nos motéis suburbanos a meio da tarde. Abafo um grito quando me entras e esbracejo – não sei se de pânico se de gozo - e as chávenas caem por fim, espalhando pedaços coloridos de porcelana barata no mosaico preto. A velha do andar de baixo, que está cega mas não é surda, pensa que foi o gato, que às vezes a espreita do beirado, e sorri. Entretanto, eu recuso-te, enquanto me abro e palpito: sou uma flor carnívora em olímpica amplitude. Venho-me de olhos fechados, a gritar não e a afastar-te do meu corpo, prefiro abraçar uma mesa. Sempre assim, é sempre assim: tu a demorares-te na entrada e a demorares-te a entrar em mim, a fazeres com que eu grite e com que os vizinhos nos ouçam, as partires as minhas chávenas e a estilhaçares-me o quotidiano. E eu a fingir que não quero, que és tu que me obrigas, que ele prefere o doce de gila e que o barulho foi o gato.



(the postman always rings twice)

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

És fácil, muito fácil de amar, e sabe-lo. E perigoso, porque não tentas sequer, porque não aparentas qualquer esforço; no entanto, és gostável naturalmente, como o mar ao pôr-do-sol ou um dia calmo em que não se faz nada. Carregas o amor dos outros como plumas, nota-se. Há em ti uma quase ausência de intenção e, no entanto, atrais-me com desmesura, gravitacionalmente falando. Apetece-me dar-te várias voltas, conhecer-te de todos os ângulos, descobrir-te e explorar-te como se fosse a primeira a fazê-lo, como uma daquelas expedições pioneiras ao árctico em que no fim morre tudo, numa catarse impossível de ser resgatada. Tens um modo único de seduzir, que é o modo de quem não o tenta fazer e não pensa sequer no assunto, fatalmente certeiro. Imagino que balances o teu sorriso por aí, projectando-o pela estratoesfera e deixando que o resto do mundo se esgatanhe a ver quem o consegue apanhar primeiro. E eu, tenho a estranha sensação de que facilmente te adoraria se os astros, devidamente alinhados, a tanto mo aconselhassem, mas que, depois de a minha pele te provar seria um ver se te avias. Porque, quando um dia deixasses de me querer, eu ficaria com fome e à deriva, a abraçar-me às paredes, a arrastar-me pelas ruas e a tropeçar nas esquinas. E teria seguramente comichões e ataques de nervos, e a minha pele criarias bolhas e eczemas, sintomas certos da doença incurável de nunca mais te ter. Deixar-me-ias sem critério, e haveria dias em que qualquer um me serviria para te emular: o trolha da obra no fim da rua que oferece os braços nus à geada da manhã, o rapaz vesgo que me traz os sacos do supermercado a casa, o farmacêutico de esgar macilento cujos folículos capilares pousam na bata branca como flocos de neve, enquanto me avia os placebos. E depois a irmã loucura, confortavelmente instalada, abraçar-me-ia num aconchego fraterno. Aposto que facilmente te tornas preciso, como o antídoto de um veneno ou a última refeição de um condenado, e eu confesso-to: desde há uns tempos a esta parte que me vem uma vontade danada de desatar a correr para a rua, se calhar descalça e sem sequer dar voltas à chave, só para descobrir onde moras (e onde posso por fim começar a perder-me).



(secretary)

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

o Amor volta em Janeiro.




(it´s a wonderful life)

Sábado, Dezembro 06, 2008

Queria dizer que te amo como quem escreve uma notícia. Que. Te. Amo. Concisa e telegraficamente, como um óbito de pé de página, uma errata que pedisse desculpa, onde se lê deve ler-se, ou os resultados do totoloto. Queria contar a nossa história em duas linhas ou três, sem descrições polissilábicas ou excessos adverbiais; sem modo, lugar nem quando (até porque o nós somos só eu, sempre sem sair do lugar). Umas vírgulas, um ponto final e nada de exclamações, pois nunca o meu amor alguma vez te surpreendeu. Queria despachar-nos em três penadas, nuns rabiscos, num rascunho, com o traço grosso e grosseiro e, com o mínimo indispensável, subentender-te o sujeito, sem complementos nem predicados. Queria dizer que te amo sob a forma de uma ressalva, uma nota de rodapé, uma remissão para o índice ou uma nota do tradutor. E centrifugar as palavras, que são as muletas linguísticas que me amparam o sentimento, espremendo-lhes a adjectivação, os floreados e as figuras de estilo. Queria dizer que te amo e fazer, a propósito e quanto muito, analogias simples com elementos campestres, belos e unívocos, aligeirando assim o peso lexical que carrego e que disfarça o facto de a dor não carecer de outra explicação que o não te poder tocar. A dor traduz-se em poucas palavras e às vezes em nenhuma: quando se basta com um suspiro, com uns olhos que vagueiam por cima das coisas, mareando, ou com um nó górdio à boca do estômago. Mas a minha, como um herói do futebol moderno ou uma cantora pimba, é fiteira, chorona e queixinhas, enfeita-se com brilhos de mau gosto, gosta de dar nas vistas e faz-se pagar cara.



(love is news)

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Nunca te vi, não te conheço e, no entanto, a tua voz derrapa cá dentro sem me encontrar um fim, como o momento interminável que precede o acidente, aquele em que adivinhamos que nada será o mesmo depois de. Sei-te um embate inevitável, sei-te o estrondo metálico que antecipo na estrada antes de me entregar nas mãos escorregadias do destino (digo eu) ou de deus (dizes tu), embora não saiba em concreto que verdade existe no razoável interesse que demonstras pela minha pessoa neste espaço estranho que não nos aquece nem nos pertence. Não te conheço e, no entanto, é como se nos telefonássemos todos os dias e eu te consolasse as mágoas e te desculpasse as falhas, que expusesses como feridas. Entendemo-nos de um modo desabrido e com o à vontade dos amigos de infância, aqueles com quem nos masturbámos enquanto crescíamos e a quem nos abraçámos nos chãos das casas de banho públicas, a exorcizar a incompreensão dos adultos, o acne na cara e as cervejas a mais. Nunca te vi, nem disso tenho ganas, não especialmente, não agora, mas há algo que nos une desde sempre: uma amargura de superfície que nos desqualifica para muitas coisas e um hiato profundo para onde nos foge a alegria, um buraco negro no qual cabe tudo aquilo para que não arranjamos espaço no estertor violento dos dias. Não te conheço, mas todas as noites te despedes de mim com um beijo de língua, essa língua que trabalha à jorna e me cava a boca com desassombro e empenho, garanto-to. Nunca te vi, mas és profícuo, produzes-me coisas cá dentro e às tantas o sangue flui, consolado, porque sei de fonte segura que, separados embora por becos e avenidas, trauteamos as mesmas canções, sarabandas fora de moda que mais ninguém quer ouvir. Mas por agora escrevo-te de longe e sem te verbalizar o suficiente para que possamos partilhar mais do que a certeza desta convergência ácida desoxirribonucleica que nos sorri de frente. Nunca te vi, não te conheço, mas não estou à espera que me passes depressa, como uma febre qualquer (não estou à espera que me passes, sequer).




(love letters)

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Desde o dia em que me deixaste que me fazes mal, um mal danado. Quando de noite me chegas à pele, a reboque do silêncio que rasteja pela calçada e trepa pelos muros, sabes-me a azedo, a coisa estragada, (quis escrever travo amargo, mas tu não te ficas pela minha boca como um refluxo qualquer; antes, espalhas-te pelo meu corpo, subitamente acometido de uma paralisia de bondade e de luz). Mesmo assim, deixo sempre que te enterres em mim como um prego enferrujado e que me magoes aqui de lado quando ando e respiro ou tento saltar. Desde o dia em que me olhaste através e não me viste, que trazes contigo aquele sobressalto desagradável de quando se tropeça no passeio e se dá um passo em falso, um mergulho no vazio, o coração colado às costas. Tenho-te ainda à boca do estômago, mal digerido, uma pontada, uma dor de burro, uma dormência nos dedos, razão pela qual fecho os olhos e respiro fundo a tentar expulsar-te para longe. És-me incómodo, desaprazível, molesto. És o vizinho barulhento, o cobrador que bate à porta; és a criança que chora, o cão que ladra, a torneira que pinga, a janela que não veda num dia frio de Inverno. Tenho alturas em que rondas o desastre e o infortúnio mas depois passa, com a lenga-lenga reconfortante dos refrãos matinais dentro de portas. No entanto, nada evita que sinta o espírito corcunda e encurvado, esmagado pelo peso de tanto sempre tu, independentemente das estações do ano, do índice da bolsa, da fome no mundo ou de estares a milhas. Nem que eu seja absolutamente consciente da tua pessoa, ao ponto de nos acotovelarmos no espaço onde estou e de quase jurar que me empurras (como sempre fizeste, afinal). Fazes-me mal, um mal danado, desde o dia em que nos desentranhámos e dividimos em dois: dois seres estranhos sem nada mais em comum do que o facto de nenhum de nós poder viver sem o teu corpo.




(rebecca)

Terça-feira, Novembro 04, 2008

Dantes era mais giro, quando o teu Amor me vinha por telepatia, por intuição, por sinais de fumo ou por código morse; dantes, quando eras o excesso que se continha na parcimónia do gesto e o vértice da esquina de uma promessa; quando eras um estado de espírito, uma fragrância e um eflúvio, uma maneira de me deitar e outra de acordar. Agora dividimos as despesas, compramos pacotes de férias, declaramos juntos os impostos, eu chego a casa e tu estás lá. Agora já sei, como te irritam os arrumadores, onde guardas o corta-unhas e qual o montante exacto da gorjeta que deixas na mesa do café; e sei do cansaço impaciente de quando te deitas, virado de costas para mim na urgência sôfrega do sono. Dantes era mais giro, quando deixávamos um lastro sujo pelos quartos emprestados, empestados de nós; agora queres tudo limpo, que os lençóis não se amarfanhem e que os guardanapos, nem uma nódoa (às vezes, quando ressonas e sibilas agarrado às fronhas alvas, é como se me perseguisse uma matilha de cães selvagens). Dantes era mais giro, quando tinha a certeza de que me farias um filho, um menino jesus, um indigo, um sobredotado, um milagre: o corolário inevitável da temperança do Amor. Hoje é o pânico, se me esqueço da pílula, se faço mal as contas ou se não interrompemos a tempo a sensaboria morna de um coito esporádico. Dantes era mais giro, quando me eras proibido e eu te imaginava despido nas minhas mãos, afrouxando-te com os dedos o elástico dos calções de seda; agora, apanho-tos do chão junto com as meias e as termotebes, enquanto salmodias à minha volta sobre as traições no emprego e o cabrão do aníbal que te roubou o projecto. Agora, eu vejo a novela e tu despejas o lixo, eu perco a paciência e tu a vontade, eu no computador a trocar galhardetes com urbanos desconhecidos e tu a fumares cigarrilhas na varanda, inclinando-te na balaustrada de ferro forjado, descascando distraidamente o primário com a ponta dos dedos enquanto imaginas corpos nus de mulheres a irromperem como espirais de fumo pelos telhados embreados que sustentam a noite da cidade velha.




(sommaren med monika)

Domingo, Outubro 19, 2008

Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Que farias?, se eu apenas o bê a bá no presente do indicativo, sem um futuro do subjuntivo ou um pretérito mais que perfeito? Que farias do meu corpo, se eu só fome e cio e sede, despojada de lirismos, de interjeições e figuras de estilo, sem o abrigo nuclear das coordenadas copulativas? Que farias?, se eu só cabelos e pele e pêlos, sem qualquer erudição? Que farias do meu corpo, das varizes que despontam, das sardas e dos sinais, da celulite escondida? Sim, que farias?, se eu quase analfabeta, ignorante e simplória, se a minha escolaridade pouco mais que a obrigatória? Se a linguagem, de carroceiro e as frases, às três pancadas; se eu nada de aforismos, silogismos ou significados? Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Se eu nua à tua frente, despojada, oferecida, toda instinto animal, toda líquidos que escorressem, músculos que te apertassem, sons cavos que mal se ouvissem? Que farias com o meu cheiro?, demasiado acre, demasiado doce?, e com a violência obscena da minha presença física a ocupar-te a largura da cama e a tua visão periférica? Que farias, se esse ecrã não mediasse com diplomacia as negociações entre nós?, e se eu e tu frente-a-frente acordássemos por fim fronteiras ou a transposição delas? Se eu sem dedos nem jeito, muda, disléxica, desarticulada, nada escrevesse, nada dissesse? Que farias do meu corpo, se soubesses que esta não sou eu e que tu és tu só por acaso, pois quando não minto, roubo, e que aquilo a que atribuis tanta beleza é a cópia da cópia de um copiraite? Que farias do meu corpo se as palavras não fossem minhas mas tuas, apenas? Encaixar-te-ias nele como te encaixas nas entrelinhas do que escrevo? Servir-te-ia eu também como uma luva?



(henry and june)

Terça-feira, Setembro 30, 2008

Continuas por cá, a fazer o quê não sei. Mais fácil assim, não é? Aqui não gritas e eu não choro. É um descanso regalado: vais sabendo do que me falta e do que me sobra, sem que o mesmo te falte ou sobre a ti. Existe algo de doce e de confortável, não achas?, no compromisso unilateral do que escreve e na saciedade daquele que religiosamente o lê. Uma espécie de regresso a casa sem teres que explicar a ninguém como correu o dia. Remendas-te com bocadinhos meus, satisfeito porque quando me lês me tens despreocupadamente, sem mexeres uma palha. Sabes que quando falo nos outros te minto, que é manobra de diversão, poeira para os olhos, embora à primeira leitura um ligeiro sobressalto, será que. Não que te faça mossa, até de mim nos outros tu gostas de saber. Acho, aliás, que me preferes nos outros: é seguro e indolor. E que alívio!, eu não saber do exagero de tempo que perdes comigo, a fingir que vens pela excelência da escrita, coitada da escrita, uma prosa rarefeita que não justifica o trabalho. Convém-te, pois claro!, que eu à mão entre um café e um cigarro, enquanto desapertas descontraído a gravata. Eu a jeito, pronta a usar, de uma vez ou às prestações, sem dores nem ralações, sem corpo nem textura e ainda menos o odor pegajoso de algum desejo que aflorasse só com o estar perto. Que sorte!, poderes convencer-te que gostas do que escrevo e não de mim, e que queres lá saber, pois os filhos e a mulher em casa, o jantar pronto na mesa, a colega lá do escritório, que é gira e boa e se mete contigo, a loura no descapotável que até comias se não desse sarilho. Ah, que descanso!, livre da urgência e da marcação serrada, dos telefonemas a desoras e do querer sempre mais, pois só um almoço não chega, porque não um jantar, porque não agora, porque não mais vezes, quero mais de ti, quero mais e mais e mais. E que bom para mim também!, repara: não te fartas nem me desiludes, não me fodes nem me abandonas, não me enganas nem me aldrabas, não me baralhas, não me desconcertas, não chegas tarde e a más horas, não te vens em três minutos, não me deixas a arder na cama nem me juras que a vais deixar.




(match point)

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

De nada me valeram, os que vieram depois do que entre nós não houve. Por tua causa perdi o olfacto e o paladar e todos os homens me sabem ao mesmo. Procurei-os nos antípodas de ti e cuidei de escolher formatos e feitios que não os teus, numa fuga em frente, como se. Nuns casos, diverti-me; noutros, arrependi-me, mas sempre a porcaria do coração aos solavancos, a malbaratar-me em entusiasmos pré-fabricados, que cansaço. Quiseram-me muito e tratam-me bem, mas vai dar ao mesmo porque não tenho escolha: passados dias, e a minha carne rejeita-os como se o transplante falhado de um órgão estranho. Por tua causa tornei-me puta, se não me queres é porque não presto. Abro-lhes as pernas e o sorriso, finjo que gosto de sushi, que prefiro as rendas ao cardado do algodão e que os saltos altos não me magoam quando ando. Mas ponho-os a todos com dono antes de o sol nascer: deixo-me escorregar, encostada à porta da rua que acabei de lhes fechar na cara, a odiar o rasto que deixaram no meu corredor. Não há nada de transcendente no prazer que me dão: come-se quando se tem fome. Quanto ao resto, amo-te sem o menor indício de desespero; apenas deixo que a tristeza me faça cócegas numa ou outra lua nova, e é se me distraio. Não tenho qualquer esperança de que tu um dia qualquer coisa, pois foges de mim como o diabo da cruz e é assim que deve ser. Quem sabe só me interessas enquanto obstáculo intransponível contra o qual gostaria de chocar, esparvoada, algures ainda neste tempo de vida. És um empata, o meu empecilho de estimação, um chove não molha que me embaraça e me troca as voltas, mas eu já não saberia viver de outra maneira. Tenho cá dentro a persistência devota de uma mulher de província, enganada pela lábia de um caixeiro-viajante, que gasta as horas num desvelo obsessivo para com o filho ranhoso que é a cara do pai.



(elmer gantry)

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

Manhã cedo, a porta abre-se. Entro de cabeça baixa, como sempre, com medo de que o estremunho me distraia e o chão me falte. Encaixo-me entre corpos a cheirar a fresco e é então que te vejo. Primeiro andar. Estás mais bonito do que nunca: umas rugas subtis, finas como nervuras de folhas, enfeitam-te os olhos risonhos, que obviamente se divertem ao repararem em mim. Segundo, terceiro. Percorrem-me as curvas recentes e as saliências antigas; trepam-me, como se dois miúdos à solta num campo em busca de flores e de insectos ou apenas de coisas que os distraiam, enquanto eu estática, parada, avariada. Ofendida. Quarto andar. Com um agrado tão displicente que mais parece fortuito, dás-me um abraço fraterno e mostras-te contente, como quem há muito não visse um amigo querido de quem já pouco se lembrasse. Quinto. Só que eu não te quero contente, nem que estejas sinceramente agradado por me veres, ora essa. Sim, sei que estou óptima, não preciso que mo digas. Sexto. Quem pensas que és para me olhares assim bem disposto e te congratulares com a minha presença? Quem?, para eu te ser tão indiferente ao ponto de te mostrares genuinamente simpático comigo, atirando-me com o sorriso encantador que dispensas habitualmente aos passantes, aos meros conhecidos, aos amigos distantes? Sétimo andar. Quero-te compungido, ao menos incomodado; quero que me olhes com a expressão aflita que fazem os que dão de caras com a sua maior perda mas tentam disfarçar. Podes até cobiçar-me um bocadinho ou reconheceres o meu perfume dos tempos em que mo lambias do pescoço. Oitavo. Apresentares-te um tudo nada perturbado, ou apenas nostálgico, pronto. Engole um suspiro, reprime um soluço. Nono, décimo andar. Mas não fiques contente por me veres, isso não, santa paciência. E muito menos te mostres indiferente ao nos despedirmos, sem qualquer resquício de desespero. Décimo primeiro, é aqui que eu saio. Atreve-te a não vires atrás de mim e a ficares aí, a acenares-me com ligeireza, beijinhos até um dia. Mostra ao menos uma certa pena, faz um gesto para me alcançares, um arremedo de lamento. Gagueja, mete os pés pelas mãos, transpira demais, embacia o riso dos teus olhos com a névoa de uma certa tristeza. Não? E um amuo ou um beicinho antes de a porta se fechar?



(grey´s anatomy)

Quarta-feira, Agosto 20, 2008


(o Amor volta no início de Setembro)

Domingo, Agosto 03, 2008


Beijar-te, eu? Não sejas tolo. Só entorto o meu pescoço na direcção da tua cara porque me deu um torcicolo, foi enquanto dormia e não, não sonhava contigo, era dura a almofada, uma questão de posição, não consigo endireitar-me e já não tenho vinte anos. Que os meus olhos (dizes) fixos na tua boca? Ora essa, impressão tua, fiquei vesga subitamente, até fui ao oftalmologista, receitou-me um colírio que arde, acredita que vejo a dobrar, nem percebo quem me rodeia: em que lado estás tu, afinal? Que a minha mão faz tudo (afirmas) para agarrar a tua mão? É só uma cãibra súbita, que me impele os músculos dos dedos, hirtos e desobedientes, na direcção dos teus; foi um espasmo aleatório, uma mera casualidade, coincidência espacial. Que a minha perna esquerda (insistes), encostada sem grandes pudores à tua perna direita? Tropecei há dias na escada, estou dorida e fraca do joelho, até um bocadinho coxa, por isso me apoio em ti não vá eu cair outra vez. Que o meu nariz (parece-te), fareja abertamente os recantos da tua nuca? É que trazes um cheiro diferente que não consigo definir, terás mudado de perfume?, o meu interesse nas intersecções do teu corpo é meramente científico, acredita. Que a minha boca, entreaberta (inventas), à porta da tua boca? Está apenas de passagem, vai a caminho do teu ouvido, quero dizer-te um segredo, uma confidência importante, deixa-me pensar o que poderá ser. Que o meu peito (desconfias), se arremessa contra o teu como quem não quer a coisa? Uma tontura, um quase desmaio, é do calor, da falta de açúcar, se beber uma bica isto passa. Que o meu cabelo se eriça (teimas) e se agarra à tua pele? Electricidade estática, como sabes, um fenómeno muito comum. Este suspiro profundo, em que parece que espalho a alma toda pelo ar? Dificuldade em respirar, culpa do tempo seco, do calor, das alergias. Não é (nem por sombras, não é), o desabafo feliz de quem disse ao tempo que parasse, que tudo assim só mais um bocadinho (e a quem o tempo obedeceu). Beijar-te, eu?! Não sejas tolo.



(atonement)

Quinta-feira, Julho 24, 2008

Amei-te antes, muito antes, de te conhecer. Quando te vi pela primeira vez, limitei-me a constatar um facto e a reconhecer a evidência do teu corpo, obviamente concebido para encaixar no meu até ao ponto de nada verter entre ambos. Tive tonturas e náuseas, coisa de que não estava à espera, mas que agora até entendo: pode ser desmesurada, a emoção de chegar a casa, e revelar-se somaticamente. Nada aprendi que então não soubesse: antes de nós, andáramos a perder tempo. Achei-te tão inevitável como primeiro ser dia e depois noite, e quase feio, embora de imediato me tenha apetecido lamber-te a pele branca, muito mais branca do que na fotografia que me enviaras, como se fosses água fresca e eu cheia de sede. Ainda sem nada termos dito e já as palavras obsoletas e extemporâneos, os preliminares. Tive vontade de uivar, arfar e copular - não necessariamente por esta ordem - logo ali em cima da mesa, com aquela ausência de moral que assiste aos repentes animais, em especial aos que urge satisfazer com barulho e sem qualquer outra razão que não a do formigueiro que nos tortura as camadas subcutâneas. Amei-te, muito antes de saber o que era, o sermos o cônjuge de alguém, o precisarem de nós para a comida na mesa, para o entretém; o sermos de tanta gente ao mesmo tempo que acabamos desmembrados e espalhados aos bocados pelos outros, até não sobrar resto de nós para nos podermos dar à única pessoa que não nos reclama. Pode ler-se a olho nu o meu destino nas linhas da tua mão, pelo que de nada te adianta fechá-la, que queres?, vivo com esta convicção, a de que acabaremos junto e velhinhos, aflitos com dores nas costas, esquecidos dos nossos nomes e enterrados para sempre nas imperfeições do outro. Tu, a amparares-me amorosamente a papada e eu, a massajar-te os ossos esboroados e a aliviar-te o reumático, numa suave recriminação mútua por não nos termos encontrado antes, como competiria a quaisquer almas que se reclamam gémeas, ambos sabendo que só o meio da vida é pouco, muito pouco, e que já fomos tarde, muito tarde.



(the bridges of madison county)

Terça-feira, Julho 22, 2008

"Um gesto lépido, um encolher de ombros, uma frase. A ela, basta-lhe uma frase, em especial se sincera. Não porque o pretenda ser ou faça por isso, mas porque a verdade circula nos meandros que a compõem. Então ela recolhe-se, como se um corpo estranho. Uma frase simples, que traduza a reacção adequada à provocação sem sentido. Que, de tão normal, mediana (gaussiana), a faz sentir-se diferente, avariada, sem remédio. Que lhe cala as palavras dentro ainda antes que se formem: letras avulsas passarão a correr nela como linfa. A loucura e o desgoverno alimentam-se do excesso que criam; a normalidade é autofágica. Ela preferiria que a razão lhe permitisse ser fugaz (a razão, esse conceito que lhe é longe como um recorte de cordilheiras). Ela quereria não ver a vida na progressão geométrica do desespero. Às vezes, acorda e estremunha, mas nem por isso mais lúcida, apenas mais cansada. Só não é uma criatura sombria porque não se leva a sério. Precisa de fazer nada, para sustentar o delírio. Esconde o desvario nas palavras que não escreverá e encaixa num recanto de si a frase normal, como se esta lhe fizesse cócegas para sempre." *




(where danger lives)


* Outubro de 2007, post dedicado.

Quinta-feira, Julho 17, 2008

Quanto mais o tempo passa, melhor te lembro. Coisas a que nem ligava, a forma galgaz como andas, atirado para a frente e a quereres chegar sempre primeiro, e o repetir do encolher de ombros quando duvidas e não queres saber, estão agora desenhadas em mim a traço carregado. Hoje, adivinho a exacta fracção de metro que percorres a cada passo largo e a medida desses dedos cambeiros que costumavam iluminar-me a pele, da falange à falangeta; calculo quantos graus mede o ângulo que se forma entre o teu queixo e o pescoço, e de que modo a curva das tuas sobrancelhas se abate sobre o septo nasal quando desatas a pensar. Nisto não existe qualquer paradoxo: a recorrência da memória, que passa todos os dias pelos mesmos lugares, permitiu-me chegar à precisão das tuas medidas e formas, e à certeza quanto à rigorosa coreografia dos teus gestos. Quanto mais o tempo insistiu para que te arrumasse e esquecesse, mais eu me entretive numa cirurgia reconstrutiva, em viagens rápidas de ida e volta, compondo-te de cheiros e de palavras, e descartando-me do que antes me exasperava e me impedia de nos inventar um passado credível e tridimensional. Hoje, sei-te muito mais do que ontem, embora não imagine para quê me serve, o ter-te inventariado pela noite fora enquanto me espalhava ao comprido na cama. Para uma coisa, talvez: feitas as contas, sei de cor o espaço certo que ocuparias na minha cama de corpo e meio e o quanto eu teria de me encolher para te deixar dormir, ou o quão pouco teria de percorrer, em modo de deslizamento rápido e em termos de centímetros de lençol cem por cento algodão, para te abarcar todo, assim resolvendo de vez a complexa equação que traduz a volumetria do Amor.




(2046)

Terça-feira, Julho 01, 2008

Gostava de ti como és, assertoado e bem vestido, composto e melhor nascido, menino de coro e de igreja. Eu, febril e escarolada, que gargalho e que praguejo, que bebo panachês e cerveja enquanto tu vinho tinto, gostava de ti como és. Eu, o top que não diz com a saia, a borbulha no meio do nariz, a puta da ovulação, os berloques falsos nos pulsos, os brincos de filigrana. Eu, que quase não corto o cabelo e roo as unhas até ao sabugo pelos nervos de te encontrar, que me sento e as pernas soltas, descalça debaixo da mesa. Que te afagava as virilhas com as pontas dos pés nus, como vi fazer num filme e tu, com o sorriso chique e um embaraço polido, a disfarçares o prazer que te rebentava nas calças, vincadas na perfeição pela criada da família; e a abanares a cabeça, resignado e divertido, quando te sugeria impossíveis e te propunha impraticáveis. Gostava de ti como és, eu com os tornozelos imperfeitos, os pêlos que escapam à gilete romba, o verniz das unhas lascado. Tu, deus pátria e família e eu a abalar-te a fé, a pisar a bandeira nacional e a arrastar-te os parentes pela lama. Tu, a pose de exilado real a banhos no estoril e eu, a plebeia de um só nome e do apelido comum, aos milhares nas páginas amarelas. Gostava de ti como és, a camisa de algodão às riscas, o relógio antigo do avô que te calhou em partilhas, as botas de montar ensebadas, os sapatos de vela no verão, o perfume italiano e eu, o desodorizante hipoalergénico e o creme nívea nos ombros, as chanatas enfiadas nos dedos, os lenços de seda ao pescoço, a filha de um deus menor enfeitada na loja chinesa. Tu, reaccionário, conservador, culto e irascível, e eu, um nadinha hipócrita e sobranceira, os pobres e o continente africano, a enfraquecer-te as convicções só porque me achavas estranha e me querias levar para a cama. Eu, a interromper-te com descaro a consoada na quinta do douro, as tias emproadas a tombarem os ouvidos moucos para o telefone velho da sala, a sondarem o teu rubor súbito e a chamarem-te menino. Eu, lunática e aluada, ontem como hoje, a acreditar que foste tu o leitor das dezoito e trinta que aqui andou por mais de uma hora. E que, enquanto me leste, não perdeste a postura nobre nem o vinco perfeito das calças (que as tuas mãos, não obstante, terão feito por amarrotar, enquanto me procuravas na pele e o sangue azul te fervia).




(the way we were)

Quarta-feira, Maio 07, 2008

Aprende-se a viver com isto. Como um defeito de nascença, uma doença crónica, uma carência vitamínica ou um incómodo sazonal (um pé boto, um lábio leporino, uma febre dos fenos). Aprende-se, como uma erupção cutânea, a vista cansada ou um ataque de asma. Ou como a minha avó, que um dia me disse ter vivido grande parte da vida com o fantasma mudo de um frade franciscano no seu metro quadrado: ela andava, ele andava. E como isto lhe fazia impressão quando estava com o meu avô, não pelo meu avô mas pelo frade, que nessas alturas lhe parecia aflito, sem sítio para onde fugir nem parede para a qual se virar, obrigado aos roçares pudentes das flanelas vestidas, na cama dona maria. Aprende-se a viver com isto, e a desvalorizar os encontros, as coincidências (nas datas, nos sítios, nos nomes) e os sinais premonitórios, como a forma de algumas nuvens no céu e certos desenhos que surgem do trilho deixado pelo voo tardio das aves. Aprende-se a relevar, o amor que imaginámos na rapidez de um olhar, o embaraço que pressentimos num modo de andar ou o constrangimento que quiséramos por conta de um desejo violento. E a achar normal e previsível que o telefone não toque, as notícias não cheguem e que a vida continue apesar de. Aprende-se a viver com isto, com o teu ectoplasma quase colado à minha pele, sem teres para onde fugir nem parede para a qual te virares, quando dispo as minhas flanelas e entro na noite de rompão, fingindo que não é para ti que fico nua no escuro.




(brief encounter)

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Por fim, dormimos em casas separadas mas, afinal, não se me multiplicou o espaço nem o ar que respiro: apenas se nos complicou a logística. Queria tanto para mim, este tempo todo, tendido como massa fresca na mesa da sala alugada, este livro. Mas tu insistes em aparecer por entre as letras, numa dança triste, e eu distraio-me. Sinto falta de quando sorvia parágrafos onde calhasse, num prazer clandestino, antes que alguém desse conta. Queria talvez telefonar-te e ouvir a tua voz, não porque te tenha saudades, mas só para te saber real e não apenas um projecto falhado. Costumava ansiar por uma refeição em paz, que pudesse atravessar num ruminar mudo, mas agora que ninguém me interrompe, levanto-me, sento-me, vou à janela, e o jantar congelado seca nas bordas do prato. Preciso de procurar o silêncio com a urgência de alguém que perdeu as chaves e está atrasado, e não de dar com ele, assim, em cada esquina. Não durmo, porque me falta o embalo ruidoso do teu septo nasal desviado; e esta música, francamente, nem me apetece, porque não abafa as vozes nem os gritos, porque não me aliena de ti. Havia um certo conforto em te saber ali postado, sempre pronto: era como enroscar-me num sofá velho que tem o meu cheiro de tanto uso, só porque não há mais nada. A tua falta é como estar sentada num banco de pregos a meio de um campo e gozar de uma liberdade dolorosa. Na verdade, ainda não senti o alívio que imaginei: em vez de expirar profundamente à espera de uma ressureição qualquer, dou por mim a arfar baixinho como um cão, a oxigenar-me com cuidado e à superfície, a ver se me aguento nas canetas. Aqui chegada, e não me encontro disponível, o que me soa a desperdício ou, então, a grande ironia. Às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha nova condição de amputada; outras, em especial quando a noite cai demasiado depressa, cedo ao pânico, como se num elevador parado entre andares. Nessas alturas, enrosco-me como um feto e só quero agarrar-me à barriga das tuas pernas e pedir-te que seja ainda a semana passada, quando chegavas a casa calado e o pior que acontecia era o tédio correr-nos nas veias. Há momentos em que dava tudo para que os teus pés frios, que sempre me desagradaram, arrefecessem este medo que me tolhe.



(domicile conjugal)

Terça-feira, Abril 22, 2008

Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). É certo que andávamos a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio, como polvos assustados, mas foi ela e não tu, com as suas saias curtas, os trejeitos ordinários e aquelas raízes escuras que fogem ao descolorante barato, blonde claire número oito (que eu sei). Pois se até nem estávamos mal, tu à larga na cama vazia, eu à vontade no sofá da sala; pois se até te sentias mais livre, instalado no meu desinteresse pelas tuas passeatas tardias; e se eu, aliviada, por já nem dares pela gula do Carlos debruçada no meu decote quando cá vinha ver a bola. Foi ela, que te tirou do sério e te virou do avesso, que quase renegas os teus filhos. Tu que nunca lhes faltaste com nada, embora de dia fosse o trabalho e à noite, o computador; embora aos sábados de manhã, o ginásio, à tarde, os beberetes, e aos domingos, o futebol. E agora, o tribunal, os descontos no vencimento, a nossa casa em nome dela, que eu sei (foi ela). Que te viciou no seu sexo tépido perfumado de temperos exóticos, coitado, que não tens culpa, do prazer a que ela te obriga, do gozo que à força te impõe. Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.



(the witches of eastwick)

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Ligas-me, e eu não acredito, deve ser engano, as linhas que se trocaram, o teu dedo que escorregou para o meu contacto já esquecido. Ligas-me, e eu penso que não, que não vou atender, que devo estar a ver mal, que só podes estar a brincar, que é primeiro de abril, dia das bruxas, a sentir-me tola, idiota paralisada, emparedada no tom de toque, à espera que desistas, que percebas o erro e que o telefone se cale. Ligas-me, e eu a olhar para o nada, pasmada, transida, está nos apanhados. Ligas-me, e eu a cismar no que poderás crer: um livro teu que ficou na estante, um cedê enfiado na aparelhagem da sala, umas calças perdidas no cesto da roupa, um relógio escondido na gaveta da cómoda (uns beijos teus no meu corpo, guardados, esquecidos, vestidos de pó), uma assinatura necessária num papel oficial. Ligas-me, dever-te-ei dinheiro?, dever-me-ás desculpas?; se calhar vais casar, ter um filho (vais ter gémeos); quem sabe um acidente, alguém que morreu, um escândalo, uma revolução, um cataclismo atómico à escala mundial. Ligas-me, e eu a pensar que apostaste com um amigo que eu atenderia logo, que assim empatas o tédio, que sorris com maldade para outra, deitada ao teu lado, enquanto enches o peito fútil à espera que eu atenda e fale, a parva, vais ver. Ligas-me, e eu por segundos imagino a conversa e treino a compostura, recolho um soluço que me empata o ar, carrego um canino sobre o lábio inferior, quase sangro nem noto, e fecho a boca para que por ela não me saia, disparado, o coração aflito. Ligas-me, e eu não atendo, poupo-te ao embaraço e ao inferno das explicações, aos olás de circunstância, deixo que toques e toques e que vás por fim parar às mensagens. Ligas-me, e eu espero, desejo e espero, que despejes para um gravador o teu erro, o teu tédio, o teu gozo, os pedidos, as desculpas, as incríveis novidades do mundo ou, quem sabe, a precisão dos beijos empoeirados que esqueceste e deixaste em mim.



(of human bondage)

Quarta-feira, Março 19, 2008

volver

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

(por agora)

FIM

Vou-me embora, mas mantêm-se os disclaimers, os direitos de autor e as condições de reprodução destes textos em casas alheias: este blogue acaba aqui, mas nem por isso é letra morta. Quem me conhece de outras paragens sabe por onde ando. Quem não sabe mas estiver interessado em saber, é favor usar o mail que eu digo. Muito obrigada a todos por me lerem e por todas as mensagens que recebi, algumas até comoventes. Fico com a sensação de que, de certa maneira, mexi com a vida de muita gente, o que é bom e, ao mesmo tempo, um bocadinho assustador. Que se gastem estas palavras de tanto serem lidas, é o que desejo (e que para alguém hão-de ser verdade).


Sofia Vieira


Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Iluminas-me. Emana de ti um calor que me cose o frio na barriga, quando te vejo ao longe e me rasgas o sorriso com uma precisão de bisturi. Então, refinam-se-me os sentidos e fico acutilante e desperta, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais, pelo brilho azulado da passadeira pintada de fresco, pelo vento aprisionado no redondo da praça e até por um milhafre perdido, que se debruça nas nuvens a tentar decifrar as copas nuas das árvores, os pespontos nos passeios, os fechos de correr das ruas. E o dia corre melhor. Gosto de te ter assim, como um sorvo rápido no intervalo dos dias ou a cigarrilha que te desaparece na boca enquanto me ouves ou finges: cabes-me na exacta medida desses poucos esplêndidos minutos. E gosto do à-vontade com que vês a minha vergonha dissolver-se lentamente no teu café. És promessa de escrita e o voo assarapantado das palavras dentro de mim, e só por isso valerias a pena. Às vezes, quando quase te pediria que ficasses, apetece-me guiar-te como se uma estrada secundária num princípio de Primavera e percorrer devagar as curvas do teu nariz que nunca cresceu. Há em ti um arremedo de tristeza que aposto se manifesta no escuro quando mais ninguém vê e que acrescenta em mim a vontade de te fazer festas e de te segredar intolerâncias ao ouvido, antes que descruzes as pernas, dobres o jornal e vás à tua vida. Iluminas, rasgas, aqueces, refinas, prometes, dissolves: um degrau lavado, uma lista branca, uma praça fechada sobre nós, a rapina de um bater de asas, uns minutos delicados, um passeio pelo teu corpo enquanto me mexes com a colher contra as paredes da tua chávena. E o dia corre melhor.



(pas sur la bouche)

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Nada mudou. Continuas a aldrabar-me: está na tua natureza; continuo a desconfiar de ti: está na minha. Nada em nós é verdadeiro, excepto o facto de dormirmos costas com costas e de, mesmo assim, eu afinar o ouvido na tua direcção à espera de uma evidência que me leve a odiar-te legitimamente. À noite, descortino as sílabas de outros nomes nos silvos do teu ressonar; de dia, penso de quem será a mensagem que recebeste e porque razão não me atendes às três da tarde, quando o resto da cidade fervilha de disponibilidade e trabalho. Os nossos fins-de-semana estendem-se para além da vista como uma paisagem deserta e até o fosso da labuta diária é melhor do que as línguas de silêncio que nos lambuzam os domingos. Em cada gesto teu antevejo fuga e memórias protegidas por palavras passe de muitos dígitos e caracteres, nas quais te enrolas e reconfortas. Compenso a humilhação que é espreitar-te o fuso dos dias com o orgulho de não deixar que me toques, que sequer te aproximes: serás de outra, não sendo meu. Invento que esta altivez é o teu castigo, mas desconfio que seja antes o teu alívio. Continuo a ver, nas manifestações do teu corpo, provas irrefutáveis de desamor e de desconforto, como se a tua falta de apetite fosse mais do que o simples marinar de uma gripe, ou o teu balbuciar engasgado, quando acordas de repente, não resultasse da sinusite que te entope a cada inverno. Persistes em achar que o amor nada tem a ver com sexo e eu, que o facto de assim pensares mata o amor, fazendo-me recusar-te o sexo. É tamanho o vazio, que a mais breve discussão insufla o nosso quarto de uma espécie de paixão, de reconhecimento mútuo, de vivacidade inesperada, como se a sinergia súbita entre dois seres que habitualmente se ignoram pudesse delinear entre ambos um carreiro de afectos. Somos dois egos letárgicos que se acomodaram ao convívio mútuo: tu, com os meus cremes e desconfianças espalhados pelo lavatório; eu, com as tuas toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão. Nada mudou.




(5x2)

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Contigo, tenho dias. Dias, em que a habitual indiferença quanto às andanças do teu destino dá lugar a uma precisão urgente, como uma sede de náufrago ou um desejo de grávida. Tenho dias, contigo. Em que és o Sexo e a Palavra, o sítio onde trabalho, a casa onde vivo, o ar que respiro. Em que és o ronronar abafado da máquina do café, o correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, reflectida no macadame. Pequenas coisas te despoletam, pode ser o cheiro de outro homem, a declinação de um som ou o teu nome abreviado nos contactos do telemóvel. Pequenas coisas, mas nem por isso aprendi ainda a identificar os sinais: quando me chegas, já vou tarde. E então fico quieta, à espera, enquanto passas por mim, ocioso, como um domingo, um passeio dos tristes, uma ida às queijadas ou ao hipermercado. Contigo, tenho dias.




(coeurs)

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

As passas engelhadas no côncavo da minha mão, e todos os desejos se concentram na tua ausência, tridimensional e luminosa como um cristo dos chineses. Percebo o chocalho alegre dos que mais amo, alheia, enquanto tu me acotovelas o coração, ultrapassando-os à má fila e sem vergonha, um esfomeado na fila para o pão. Amontoo os frutos secos num recanto vago da boca, do qual afasto a língua, levemente enjoada. O primeiro desejo é o de que baixes a guarda, para que eu te faça meu prisioneiro de guerra, após o que te obrigarei a derrubares todas as pontes entre nós, como naquele filme do assobio. O outro, o terceiro ou quarto, nem sei (como se não fossem todos o mesmo) é o de que não me esqueças, não me esqueças, e também, sim, pois claro, que eu tenha muita saúde e boa forma, para te amar num corrupio atlético noite dentro, quando o momento chegar. E dinheiro, também, para comprar rejuvenescimentos, penteados, sapatos que me ponham alta e roupa reduzida que te fará derrapar quando travares a fundo nos meus decotes (porque há sempre uma esquina onde nos poderemos cruzar, quem sabe, sexto, sétimo desejo). Com uma bochecha de esquilo guloso, esgotados os abraços, o recanto da boca, o delírio e o espumante no copo, fecho os olhos e peço noção, meu deus!, um bocadinho de noção do decoro, de bom-senso, do real. Porque esta estranheza que sinto por ti me tornou fútil, levitante, vácua e inconsequente. Previsível. E sem um outro objectivo que não o de chamar a tua atenção onde calha: aqui, ali; esperando-te à saída do trabalho, domando a boca para que não se me abra sobre as tuas rugas cansadas; ou rasando de manhã a casa onde vives, como uma gaivota fugida ao mau tempo; ou então fotossintética, alimentando-me do fio de luz que escorre pela frincha da janela do teu quarto, por onde te vigio com o desvelo das noivas nuas na cama.





(la bonne année)

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Ficas com eles na consoada. Que não abusem dos doces, nem da vontade de ti, nem dos mimos dos outros. Atenta-te neles e agasalha-os bem. Cuidado com o frio, com as esquinas dos móveis, o açúcar nos dentes e as saudades de mim (que sei que vão ter). Aconchega-os na cama e deixa-lhes acesa uma luz de presença como se fora eu, vítrea rosa, analgésica, a iluminar-lhes o caminho alteroso dos sonhos e a aplacar-lhes as dores que às vezes se encaracolam nos seus corações em repouso. Porque a noite tem garras e toma amiúde formas de assombro, e eles bem conhecem os caminhos da decepção. Enquanto o tempo fizer que passa, irei ao meus pais. Dar-lhes um beijo, provar a secura do peru que a minha mãe assou para mim e que repousará inteiro na mesa no dia seguinte, como um cadáver frio: os restos mortais de nós. Depois, um comprimido e uns copos, um brinde sozinho ao nada em nenhures e esqueço-me da vida até de manhã, quando eles chegarem. Traz-mos cedo, lavados e penteados. A ele, desenha-lhe o risco com jeitinho, baldeado para a esquerda; a ela, prende-lhe os totós ao de leve e deixa-lhe o elástico largo, como se uma mão de mãe lhe sustivesse no ar os cabelos de fada. Na mala, o boletim de saúde e uns benurons, que isto nunca se sabe, andam vírus à solta. Ai de ti se me ficam doentes: serás sempre o culpado, o culpado de tudo (do peru, tão seco; da noite deles, tão escura; da minha sombra, tão frágil; da curvatura triste dos meus pais, até). E não te atrevas a conquistá-los com a última consola ou a maravilhosa boneca robótica: o amor extemporâneo não recolhe frutos. E se os vires felizes, nem por isso acredites: não será certamente do aconchego da lareira ou do carinho empenhado dos avós; nem, muito menos, do teu abraço grande, redentor e ampliforme. Fui eu que os eduquei, sabes?, para o exercício da benevolência subtil e da polidez agradecida, que todos devemos aos estranhos que nos são de repente agradáveis.



(the squid and the whale)

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

É Natal, e tu não estás. Dos cânticos que ecoam pelas ruas engalanadas, desprende-se uma melancolia que me embala e aconchega os passos. Aperto melhor o cachecol e agasalho-te contra mim. Rasando as montras, imagino os presentes que te compraria se aqui estivesses: esta caneta, para que assinasses o sim, quero, ou aquele relógio, para que nunca te atrasasses quando viesses ao meu encontro. Entro numa papelaria e pego num cartão de boas festas, daqueles pirosos e estridentes, com azevinhos garridos e os votos escritos em relevo, numa letra encaracolada de copista, fina e pretensiosa. Imagino-me a desejar-te mundos e fundos e tu, a afugentares o fantasma dos natais futuros com um sorriso de agraciado, quando o lesses. Prevejo como, de seguida, me agarrarias a nuca e a cintura por detrás, debruçando-me sobre o tampo por estrear da mesa marmoreada, levantando-me o avental e baixando tudo o resto. E de como o açúcar ao lume se agarraria para sempre às paredes do tacho, inutilizando-o, as minhas mãos espalmando-se de gozo contra o azulejo recém-colocado, o ainda cheiro a betume nas nossas narinas coladas. Uma falha na calçada faz-me frente súbita e um velho de trinta anos, sem dentes nem alma à vista, espreita-me de relance o voo, absorto na contagem de algumas moedas pretas. Componho os ossos em sobressalto e largo-lhe na mão suja o troco do cartão piroso, que inclui um envelope de fímbria dourada, olha que sorte. Do outro lado da cidade, na cozinha renovada, repousam silenciosos os utensílios do Amor. É Natal, e tu não estás.



(could mountain)

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Parece que este blogue,
deu um programa de rádio.




(radio days)
Sabes que é só quereres. Que, entre os silêncios e as palavras meias, basta uma destas, calibrada para a rendição e o assentimento. Que é mais do que suficiente, o exagerares o riso ou o alargares o passo na minha direcção. Uma carta à maneira antiga empertigada num selo; um telefonema, uma mensagem abreviada em que os polegares se te fugiram e foste longe de mais. Sabes que me chega e sobra, um abraço que evites apertado ou um beijo na cara a resvalar para a boca, embalando-me os sentidos atentos com promessas cumpríveis. É só quereres, e eu caio-te nos braços com amplitude teatral, deixando que me dissolvas a pele com a língua e que a tua vontade impere por fim em mim numa fúria totalitária, mas doce. Sabes que uma palavra, apenas, me serve, ainda que desgarrada, truncada, encriptada e incorrecta; ou mesmo fugitiva e vagabunda, solta num grito de alforria. Espero um dia ser um alegre capricho teu e o objecto da tua preferência irresponsável, sujeita a critérios desmedidos. O meu desejo é circular e redundante: acaba sempre por voltar a casa e tem saudades, como um soldado ferido. É só quereres, e deixarei que me confundas com o rebentar das ondas e que contabilizes e anotes, com astúcia de merceeiro e intuitos de salva-vidas, os rodopios do meu corpo em despejo sobre o teu. Eu, vinda e ida na sétima, às vezes na quadragésima, encharcando-te, desprevenido. É só quereres (sabes). E eu quero que tu o queiras (sabê-lo-ás?).




(eros, the hand)

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Não, não acabou. Gostava que tivesse acabado; gostava de ter lavado de ti as minhas mãos e ponto final parágrafo, mas dou por mim aqui, neste sítio contigo dissimulado dentro, como uma arma com disfarce regateada na feira, das que nem parece que magoam. Pestanejo e cá estou, jazente e escondida, no único lugar onde sei que te tenho; onde já te amei tantas vezes que enjoei o salitre do teu corpo; e onde exorcizo a minha banal existência, exagerando-te e ampliando-nos. É por isto que preciso de continuar a querer-te com a desmesura com que se quer nos filmes mudos, e a escrever o arrebate das tragédias a preto e branco, com grandes planos que são grandes demais e gestos de amor abruptos, como saltos de insecto ou cortes inesperados na fita. É aqui que te esqueço e repudio e me apaixono por ti uma e outra vez, e onde às vezes mais não és do que uma lembrança antiga, desbotada como um linho de avó, que me inspira ao tacto. Aqui, prometo-te a eternidade adiada, enquanto fazemos amor e as contas do IRS, enquanto conferimos os dedos um do outro, as brancas no cabelo e a lista do supermercado. Aqui, deixamos o telefone tocar e a porta bater, e eu engulo todos os sons que não sejam o das nossas respirações em dueto. E esqueço-me de quem sou, querendo-te para o resto da vida e mais um dia, e dizendo-to avidamente à sombra da prateleira dos enlatados. Por isso, não, não acabou: estarei condenada, parece, a voltar aqui, a voltar a ti. Tal como tu, condenado a leres-me, a leres-me sempre, num impulso alcoviteiro e a uma distância sem remédio.




(the marrying man)

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Sábado, Novembro 10, 2007

Olá. Tenho saudades. Hoje lembrei-me de ti, não tenho feito outra coisa imagino porquê. Que tal almoçarmos agora um dia destes? Apetece-me corromper-te com beijos conversar contigo. Lanchar, se te der mais jeito e desvirginar o teu silêncio com a minha língua ouvir-te falar. Preciso de saber que ainda me queres o que tens andado a ler. Já nem sei o que te costumava dizer, mas ainda soletro de cor as palavras com que me vestiste que não seja por isso: o exercício do amor da amizade é como andar de bicicleta. Sei que tens muito trabalho quero lá saber e que mal te lembras de mim atreve-te a esquecer-me. Mas, para um amor amigo, arranjamos sempre um bocadinho. Uma vida hora, é só o que te peço. Naquele hotel da baixa, o que tem o quarto a esplanada de frente para o rio, lembras-te? Em não podendo ser, morro deixa estar. Talvez para a próxima reencarnação. Fica mal e apodrece sem mim bem. Um beijinho à estúpida da tua mulher e outro aos teus fedelhos miúdos. O meu resiliente marido manda-te à merda cumprimentos e pergunta quando sais de vez da nossa cama aparecem. A ver se combinamos um churrasco de domingo com todos eles de preferência bem longe noutra mesa. Até jádeus.



(el otro lado de la cama)

Sábado, Novembro 03, 2007


Amei-te, mas nunca te amei, e este desconhecimento bíblico enredou-me numa linha invisível que me emaranha o futuro, penhorado nesta vontade incumprida que, volta e meia, me atiça os sentidos. Precisava que a realidade do teu corpo nu, em toda a sua incompetente fragilidade, me tivesse esmorecido estes desasados quebrantos românticos e a ideia peregrina de que dois podem ser um só, enquanto pássaros de cetins no bico atravessam corações rosa suspensos no ar. Precisava de ter constatado que o que te excita, me enoja e entedia. Que te tivesses atrapalhado no acto, mostrado incapaz de malabarismos e desajeitado nas cambalhotas; que tivesses confundido as coordenadas, traçado mal o azimute e acertado ao lado. Precisava de ter reparado, desagradada, nos pêlos do teu nariz, na barriga saída, nos cotovelos gretados, no dente cariado. Era fundamental, que te tivesses satisfeito sozinho e à missionário e eu, a imaginar como sair rapidamente de debaixo de ti. E que a culpa se tivesse sobreposto a qualquer lamiré de gozo, de modo a que eu tivesse tido vontade de recuperar o juízo e as cuecas do meio da nossa roupa, seguramente lançada para o chão com a urgência dos deuses. Precisava de não ter gostado de ti e de ter constatado, sem sombra para dúvidas, que não prestas por aí além, para poder largar de vez a ideia de que um dia terei de o confirmar, empiricamente e por escrito. Quando as coisas não acontecem, o vazio torna-se o espaço mais ocupado da sala onde estamos, trazendo consigo os prenúncios de uma implosão anunciada.




(cyrano)

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Tinhas de arranjar maneira. De me fazeres começar o dia baldeando-me de novo para os teus lados. Maneira, de me pores a espreitar pelo retrovisor, a vasculhar as ruas, a medir o perfil de quem pára ao meu lado no sinal. De me fazeres faroleira, a apontar para o mar de carros que engole a cidade a cada manhã embaciada, vasculhando marcas, modelos, matrículas, sinais de alerta. Tinhas, de me levares a controlar este, o outro, quem sabe aquele ali que dobra apressado os cantos da esquina e rasa a velhota que, pendurada num saco de xadrez por onde espreita uma couve portuguesa, se atreve à passadeira. De arranjar maneira, enquanto sorvo o galão a escaldar cuspindo vitupérios (estúpido, pedi morno), trinco a torrada do meio ou começo a ler o jornal, do fim para o princípio (nunca leio o mais importante). De seres este homem à minha frente, de ombros magros alteados pelos chumaços do casaco, como se dissesse que não sabe, que não se importa, com um traseiro triste que mal enche as calças e umas mãos de aranha que não têm lugar vago nos esconderijos do corpo, nervoso, miudinho. Tinhas de arranjar maneira, de me dares o troco na banca dos jornais, enquanto me espreitas por detrás de notícias sobre meninas desaparecidas, ditaduras que oprimem e ditadores que enlouquecem. Maneira, de seres todos e nenhum. De voltares à minha vida, arranjada, ordenada, cronologicamente serena, perfeitamente editada como um bom filme dos óscares (voltaste à minha vida). Agora, arranja maneira, diz que sonhei, que estou a inventar.



(rebecca)

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Não se pode dizer que tenhas estado sempre perto, à mão de semear, ao virar da esquina, mas finalmente encontrei-te. Não que te procurasse: foste-me tão natural como o vizinho da porta ao lado quando se cruza comigo no corredor e pigarreia, medindo-me a barriga das pernas, trémulas de subir as escadas. Atravessámo-nos um no outro com a inevitabilidade de dois troncos à deriva e represámo-nos alegremente: o entulho ficou para trás. Não me salvaste a vida, que até estava bem obrigada, mas tens essa distinta qualidade de me saberes, o que te cai na perfeição, como uma camisa de marca ou um casaco novo. Não romanceamos o presente porque nós somos o presente: partilhamos uma cama, um cigarro, um futuro e temos o pragmatismo das causas ganhas, o que, parecendo que não, alivia. Somos velhos amigos, companheiros de guerra e brincamos muito, porque temos alguma pressa: enquanto equilibramos orgasmos na ponta do nariz, fazemos a toca e construímos o ninho. Mas o mal de tanta beleza junta é que nunca nos habituamos à ausência, esse buraco no peito, de rebordos cauterizados, onde cabe um punho fechado. E, agora, o teu cheiro agarrou-se às minhas coisas como uma película fina de pó e eu não quero a empregada cá em casa, não vá ela, sei lá, sempre tão pressurosa. A melhor maneira de afastar o diabo é ir brincando à felicidade dentro destas quatro paredes, quem está livre livre está. É um facto que tudo era bem mais fácil quando apenas te adivinhava; hoje, mal reconheço os cantos à casa e, quando partires, tenho a certeza de que mudarei de côr como um polvo acossado. Folgo em saber, no entanto, que não nos somos fundamentais: afinal, toda a gente vive sem um braço, só é chato para os trocos.





(blade runner)

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

No fundo, tenho medo. Medo de te voltar a ver. Medo de que as minhas mãos voltem a ser mãos outra vez e disparem dos pulsos para te despentear o cabelo e apertar-te os nós dos dedos, entalando-te as falanges como se fosses criança a quem cuidasse de atravessar a rua. Medo de que o meu corpo se lembre da fome que te teve e se queixe ruidosamente, como um estômago vazio; de que me dês água na boca e que de deserto árido passes a fonte de trevas com neptunos sumptuosos e fundos forrados a desejos. Medo de pensar que não te vejo desde ontem e de por isso não te rever, saudosa, antes achando que nunca nos fomos e que ainda nos damos as mãos, algures por Paris. Medo de, afinal, te ter esquecido em vão e de que nos encontremos de novo a meio de inocuidades gentis, amorosamente gentis; e de que tenhamos, inesperadamente, muito cuidado com os gestos, como se contornássemos vidros partidos ou fios descarnados. Medo de dar com os teus olhos e de neles mergulhar de cabeça, de engolir pirulitos, nadar-te e por ti ficar, num boiar infinito. No fundo, tenho medo de que a mera possibilidade da tua presença me diminua a graça dos dias. Por isso me quedo.



(casablanca)

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

A noite é uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas doces e telúricas, trazendo-me o recorte da tua sombra chinesa a dançar pelas esquinas e cantos esboucelados das paredes do quarto, num bailado que se acoita nas horas mortas. A noite ronrona baixinho e compõe uma geometria perfeita de enganos, oferecendo-me mãos cheias de possibilidades enquanto eu faço que acredito e me rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, entornada de escuridão, arquejando pelo início do dia em explosões verosímeis de luz. À noite, arrepio caminho, papo léguas e devoro a distância entre nós até parecer que me tocam, os pelos que se te eriçam. É lá que às vezes morro e me transformo num fantasma de gesto lépido, seguindo-te os passos por corredores inventados. Há alturas em que me surges dos contornos da cordilheira de roupa atirada para o chão e do abandono de um sapato desemparelhado, volteado e caído qual naufrágio de um barco. Ris-te da minha volúpia de ombros tensos e virilhas molhadas e eu deixo. Porque a noite é uma mãe negligente, que tudo permite. É nela que me abro para ti como se me abandonasse ao chão sujo e desenhasse anjos na neve. E é nela que tu, com o peso de constelações inteiras, me entras certeiro, mesmo antes de a madrugada espreitar a gelosia entreaberta e começar a impor, às minhas pálpebras cerradas como uma casa devoluta, a realidade de todas as coisas.



(cat people)

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo. A tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. Encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. E cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. Acima de tudo, enterneces-me. E é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê.



(edward scissors hands)

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Achas boa ideia, encontrarmo-nos? O que te faz pensar que, quando te vir, não te sitiarei a boca como a invencível armada, nem te rodearei por todos os lados, carregando sobre ti em formação tartaruga? Serás tão ingénuo ao ponto de creres que o passar do tempo me distraiu para sempre da assimetria da tua cara risonha e da desconjunção do teu corpo, mal arrumado nesse conjunto de fato e gravata? Não caias no erro de pensar que, com toda a certeza, o reencontro será fraterno e levemente saudoso, como uma consoada de parentes distantes, e que eu não te tomarei de assalto, ávida, guerreira, amazona pentesileia, fazendo-te meu prisioneiro para que me faças filhos e me caces o jantar, numa subjugação resignada. Não te fies, que muitos dias se atropelaram e correram, e eu trago em mim reentrâncias vazias como grutas de piratas, secos orifícios e ocos recantos que se me revelam no escuro, à boca da noite, quando me dispo de todas as cautelas. Pois sim que, entretanto, cuidámos dos nossos e abrigámo-nos da dor como da chuva ácida, mas é só eu querer e quando, à minha frente, inspirares fundo o ar que eu expiro (com aquela solenidade obscena de quem pondera o fim da vida na trave de uma ponte vazia), de pouco ou nada te valerá, bateres o olhar em retirada.




(four weddings and a funeral)

Terça-feira, Julho 31, 2007

Quando saíste, deixei de escrever. Quer dizer, escrever, escrevia, mas nada que me saísse das entranhas, então quietas como um bicho à escuta. Sabia que não lhes poderia mexer, às entranhas: sair-me-iam remoinhos de dor pela boca, às golfadas. Temi que a dor se infiltrasse ainda mais nas reentrâncias da própria dor, como se se comesse por dentro. Ter o que escrever, contradiria a minha vida de então, alimentada a restos de silêncios, a detritos de lembranças mudas. Costumavas chegar-me e, com um beijo distraído, soltavas as palavras que, aprisionadas nas minudências do dia, ansiavam por tal gesto: um gesto que lhes assegurasse a pertinência do amor. Depositado o beijo, e as palavras espreguiçavam-se, cinderelas despertas; respiravam, como um vinho velho depois de aberto. Não obstante a tendência que sempre tive para as calar fundo, por defeito e por feitio, trepavam-me, contrariavam-me, salmões subindo o rio na desova, e eu escrevia. Primorosa e conscienciosamente. Feliz, inventava histórias de amor com finais tristes e condoía-me. No fim, voltava para a cama e envolvia-te o ressonar com os braços mornos, confortada com a alteridade da ficção. Mas, aos poucos, a escrita deixou de me fluir fácil, predominante, eloquente, e passou a forçada, com hora certa, demarcada da escassez notória do beijo, cada vez menos distraído e mais compenetrado da sua condição de beijo. Por essa altura, já eu não dormia e caminhava por negras veredas, meio cega, perdida: um espectro dentro de um corpo, um sopro de vida, o reconhecimento apenas da fome. As palavras, deixei de as experimentar antes de as usar; de as provar, de lhes testar a síncope, pois tanto fazia, e, por fim, arrumei-as a um canto, como limpezas de Primavera. Saíste de casa e levaste-me o léxico, o talento, a vontade de lavar o cabelo e de conversar com deus. Um dia, muito mais tarde, ao correr da pena e ao virar da esquina, choquei com elas, velhas amigas que, inesperadas, se riam para mim (ou rir-se-iam de mim?), irrompendo-me no peito como o perfume de antigas namoradas.



(the muse)

Quinta-feira, Julho 26, 2007

Tenho, dentro de mim, muita gente que se atropela. Uns, irritam-se quando mastigas, estranham-te o ressonar, deitam fora a aliança; outros, mordiscam-te os dedos, bebem-te os fluidos e acompanham-te o ritmo das flatulências. Há-os cerimoniosos, dados às vénias, aos salamaleques e às hipocrisias da corte; e há os que te invadem sem aviso prévio, te roubam a escova de dentes, dormem com a tua almofada e ocupam-te o lado do sofá. De quando em vez, irrompe em mim a brigada do ódio, com as suas fauces lisas, sedentas de guerra, que acarretam silêncios e, a espaços, um ou dois canibais, que te provam os braços e te cozinham a língua. Quase em permanência, um desfile de tristes, eufóricos, felizes e de suicidas, com as suas expressões de redil vazio. Há, ainda, o psicopata assassino, que te amarra os pulsos, te corta às postas e te assa no espeto; e amantíssimas noivas de branco despidas e teor virginal, que alternam com varas de putas gastas, que te exigem uns trocos, te fazem um broche e cospem para o lado. Mais do que o amor, a raiva, o nojo, o tédio, a sobranceria e o riso, sinto por ti pena, uma enorme pena: por nos rodeares e jamais acertares; por atirares às cegas, fazeres contas de cabeça, tacteares no escuro. Por não nos saberes nem nos adivinhares.



(when a man loves a woman)

Terça-feira, Julho 17, 2007

Quem dera, fosse tão fácil, despir-me de ti como deste vestido, quando a areia da praia me namorisca os pés; substituir o teu dedilhar virtuoso pelo escorrer do bálsamo protector e pelas estradas de sal seco que se me desenham nas omoplatas, depois de sair da água. Quem dera, desligar-te, como ao telemóvel; retirar-te a bateria para que te não estragues, te gastes em vão, atirar-te para os fundos de uma gaveta qualquer, inábil, inútil, silente. Quem dera, fosse tão fácil, trancar-te as portas como as da casa, três voltas à chave, deixar-te às escuras, de gelosias corridas e vidros abertos; quem dera, seres tu, a imperceptível aragem à qual viro costas quando saio e não volto; seres as contas acertadas, a luz desligada, o carro na garagem, a mercearia fechada e a rua vazia. Quem dera, poder descartar-te, entregar-te à vizinha para que de ti tome conta, te dê de comer; deixar-te em dia, como ao trabalho atrasado, arrumar-te numa resma ao canto da mesa com a caneta por cima, perfeitamente alinhada com os lados das folhas, à espera do pó dos dias dos outros. Fechar-te para obras, guardar-te na parte de cima e esquecer-te, como camisolas de Inverno, e não te usar porque me arranhas a pele, me apertas o pescoço, me fazes suar. Quem dera. Mas não. Carrego-te comigo, como bagagem em excesso na volta de uma viagem, três ou quatro souvenirs imprestáveis, very tipical made in china, uma dúzia de postais ilustrados sem selo, uma máquina fotográfica avariada à chegada.



(shirley valentine)

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Tenho um fraquinho por ti. Convidas-me para um café, pedes-me um conselho, que tal esta gravata, que chatice, o selo do carro, que giro o novo modelo e eu, um fraquinho por ti. Telefonas-me que não dormes, preocupado, amolgado, que porcaria de dia, o IRS, a multa, o escalão, o modelo, o formulário. Queres a bica bem cheia, o bife mal-passado e dispensas, displicente, a sobremesa cubista, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhada, atenta, vidrada. Falas-me da família, da mulher que te controla, a chata, a querida, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, pressurosa. Que te apareceu uma alergia e uma antiga namorada, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, conheces alguma oficina. E eu que sim e um fraquinho, um fraquinho por ti. Que brilhantes banalidades, que importantes frivolidades. Uma áurea que te envolve como uma mortalha inspirada, o que dizes a parecer brilhante, dramático e engraçado, tens carradas de razão. Os olhos e os pulsos, tão estreitos e tão peludos, a pose arrufiada e a madeixa desarrumada. Um lanche, uma tarde, uma conversa banal, e eu esbugalhada, à beira de te levar a sério, e sai um baile de finalistas, um tiro no porta-aviões, os cinco do euromilhões, um solstício de Verão. Largas pérolas de sabedoria que sopras na minha boca, que abre e se arrasta, do centro até às bochechas, num riso quase devoto, fugaz e brincalhão, como um daqueles duendes que desarrumam as casas. Que gostas muito, muito dela, que és doido pelas crianças, as caraíbas e a eurodisney, que este ano é que vai ser, que maravilha, que homem amável, daqueles que não há mais, que grandezas vislumbro, nesta apologia sentida do entorno familiar, nesta pública devoção. E eu, fraquinha, fraquinha (fraquinha por ti).



(my best friend´s wedding)

Terça-feira, Junho 26, 2007

Exaspera-me, a estrita incumbência dos que vão chegando. É como entrar numa sala vazia, tendo o meu eco por agasalho. Depois da explosão de vida que me foste, os outros não passam de balanço estatístico, de contabilidade organizada, de um conjunto indistinto; na melhor das hipóteses, de um qualquer nome colectivo. Não te comparo: não foste melhor nem pior, não houve tempo. Mas é como se todos os que te seguiram fossem mulheres, crianças ou estátuas. Tu foste o gesto, a absoluta coincidência da perfeição do gesto. Foste o segundo que antecede a morte, o relance do meu nascimento, o resíduo do primeiro beijo, o resquício da dor de parto. Foste uma boa ideia que dava um filme, uma coreografia arrojada, uma música em estado de graça. Depois de ti, os outros não passam de uma desculpa esfarrapada, de verbos de encher os meus dias, tempo a mais que tenho entre mãos. Amo-os por bondade, como se me tivesse tornado freira, voluntária em África ou puta altruísta. Tamanho o buraco negro que escavaste em mim.



(bleu)

Sábado, Junho 16, 2007

Podia continuar assim para sempre. A escrever sobre o que não vivi, o que não tive, o que perdi: um tratado sobre o desencontro, a incompletude, o extemporâneo. Compêndios acerca do pouco, do raso, de como de um cesto se faz um cento e das tripas, coração. De como sou boa, em espremer o tutano, em, no meu colo vazio, rosas; de como me aprumei, em dos restos fazer um festim, roupa velha de amor desfiado, a criar factos perante argumentos, desmanchar e voltar a fazer, água mole em pedra dura. Podia continuar assim, bela eterna sem senão, um pássaro na mão, coração quente, amor para sempre, a palavras de prata, difíceis como bilros, sem silêncios de ouro. A acarinhar-te a lembrança a tratos de polé, com mil cuidados e caldos de galinha, amor querido, amor batido. Podia continuar assim para sempre. Afinal, há mil maneiras de morrer.



(the others)

Terça-feira, Junho 12, 2007

Vejo-te naquela névoa baixinha que enfeita os sonhos que abrem alas ao espavento da madrugada. Trazes contigo toda a vontade do mundo, avanças sem medo, corres na minha direcção como a parte pirosa de um filme, em câmara lenta, e desaguas um sorriso longitudinal no ar quase parado. Projectas para trás o penteado fora de moda, enquanto eu vacilo, algures entre a alteridade do espectador e o envolvimento da personagem. De pé à tua espera, carente, orgulhosa parada, não sei se triste se contente, porque não me vejo, apenas me percepciono. O dia, entretanto, a fazer-me olhinhos, namoradeiro, enquanto as persianas fechadas rangem com o calor súbito da manhã e se espreguiçam, alheias. Então, como num pesadelo de criança cuja mãe lhe foge, ultrapassas-me o olhar, expectante para com o que encontras para além de mim, por cima do ombro da minha vista. Eu a chamar-te e tu agora de costas, como se me tivesses atravessado um espectro. Viro-me para trás, a tempo de ter ver desaparecer as fraldas da camisa suada na esquina. Fico pregada ao chão. Tenho cinco anos e pregada ao chão. A minha mãe, que não me ouve; o elevador que cai e nunca se despenha. O meu corpo num ângulo estranho, desafiando as leis da gravidade, e eu a torcer a garganta, a espremer um grito, um alinhavo de som. Acordo e abençôo o dia, agradecida, aliviada: não por ter entretanto acordado, mas sim por tu não teres parado.



(existenZ)

Segunda-feira, Maio 28, 2007

És um tipo vulgar (e pensar que foste um deus). Tens pouca piada, até me custa a lembrar, o quanto me fazias rir, o coração descompassado e o formigueiro entre as pernas, um humor incendiário que me apetecia rasgar e devorar, num ímpeto pré-histórico. Quando bastava uma pilhéria, uma chalaça, uma laracha. O que escreves, lê-se. É assim mesmo: lê-se. Lê-se bem, como uma receita que queremos tentar, uma notícia de jornal, um anúncio, um letreiro de dentista, um sorriso ao canto da boca, de passagem. Mas pouco mais. Tempos houve em que te achei um quase génio da escrita mundana: vivo, provocador, uma invulgar destreza no entrelaçar de sentimentos proibidos, nos finais inesperados. Afinal, era apenas eu que não te esperava, que não te sabia assim, como és: vulgar, um tudo nada pretensioso, a exibires as letras como se um cachimbo ao canto da boca, um lencinho ao pescoço, um bigodinho cuidadosamente aparado, biqueiras reluzentes, o ego inseguro à espera do afago amoroso de terceiros. Apaixonada, imaginava-te um dom, e sonhava com a fatalidade de honrares a minha existência com o resto dos teus dias de excepção. Hoje, nem por nada quereria o óbvio tédio da tua vida, na minha. Excitava-me, então, a falta de pontuação, de maiúsculas, de vírgulas, de iniciativa, de um pouco de loucura. Uma roleta russa, perigosa, o jogo matreiro no qual descobria os teus significados ao virar de cada frase. Hoje, constato que és previsivelmente simpático, normal, um bocadinho entediante, até. Lamento, não te detesto, como decerto me preferirias: para mal dos teus pecadilhos, apenas me desinteressas. A cor dos teus olhos, afinal, não contém o mar, muito menos o céu: a cor dos teus olhos, não passa de uma composição genética de fortuito bom-gosto.



(l´amour en fuite)

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Ponho-me a saia de ganga rasgada, a de que não gostas porque demasiado curta; invento-me loura natural, depilada, as unhas subitamente crescidas. Treino o olhar disponível, exagero o contorno dos olhos, repuxo as pestanas de preto e enrolo-as para fora, cor de cereja nos lábios. Espalho rubores pela cara, componho-me, numa pintura alegre e garrida. Inspiro o ar cá fora, emergindo de um longo mergulho, e percorro as ruas num passo rápido, urgente, como se o futuro estivesse ali mesmo ao virar da esquina, impaciente, à minha espera em horário útil, nem um segundo a mais; o futuro: um funcionário público com pressa de chegar a casa. Percorro as ruas com uma alegria inesperada e deixo que as gargalhadas me trepem, saguis pequenos e nervosos. Sigo o caminho a direito das domésticas, com os seus avios de supermercado, o passo errante das miúdas de liceu, com os umbigos e o riso à mostra; sigo os passos cautelosos dos velhos, com as suas hesitações e pausas para descanso, e o trilhar sonoro das empregadas de balcão, agarradas ao telemóvel, a contarem os trocos para o tabaco. Enquanto me ensaio e me descubro sem ti, sou a sombra feliz de toda a gente.



(sleeping with the enemy)

Quinta-feira, Maio 10, 2007

Que vergonha, agora, quando penso nos disparates confessados, nas juras de amor sôfregas, remoídas na solidão do quarto, as paredes a fazerem-te as vezes. Que vergonha,tantos despudor e promessas aos santinhos da minha devoção, para que te pusessem no meu caminho, para que não pudesses viver sem mim. Que tolice, tantos impropérios gritados em silêncio, as febres, a fome, o choro contido nos entremeios dos lençóis. Eu, amarrotada, como os lençóis. Que perda de tempo, a pedinchice desnecessária, a choraminguice, o beicinho inútil. A paixão é uma cegueira danada, uma solidão desmiolada, egoísta, absorta, desligada. A paixão afugenta o bom-senso, a razão e a bondade das coisas, de todas as coisas. Enquanto ilumina o outro como um vitral de igreja e o refracta para todos os lados, num bailado colorido, acinzenta e esbate as formas do que é importante. É injusta, mentirosa e supérflua. Mas, um dia, estranhamente, quando menos esperamos, o nosso eu adormecido, o capaz de amar mesmo algures alguém e muito, desperta do sono envenenado como a princesa de uma fábula; sacode dos ombros os restos do seu sonho moribundo e acorda para a vida verdadeira, para os caminhos sinuosos do Amor de Facto, aquele que sobrevive nos meandros entediantes das afecções diárias. A paixão é um rebate falso, uma promessa de nada, uma perda de tempo e de saúde, dez passos à retaguarda, cinco à caranguejo. Por isso, regozija-te: estou finalmente acesa para a vida e alegremente te digo, nunca saberás o que perdeste.



(everyone says i love you)

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Ufa, que já cá não estás. Chorei-te pelo dia fora. Saíste-me suavemente, pela ponta da língua, dos dedos, dos cabelos. Esfumaste-te. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada. Escoei-te, apenas. Vieste agarrado a umas poucas de lágrimas, apanhaste boleia nelas, como se descesses uma onda, e escorreste pela minha cara até ao chão. Eu, a fungar e a limpar o ranho, e tu, a saíres-me aos poucos: primeiro um braço, depois o outro, a seguir as pernas, os pés, o sorriso, tu inteiro. Não sei que fenómeno físico se deu, que reacção química ocorreu, para que me desintoxicasse assim de ti, finalmente frívola, finalmente fútil. Escorreu-se-me a vontade de te rever, esqueci aquilo que ainda achava ter para te dizer; esgotaram-se-me as saudades que éramos suposto, um dia destes, matar, com horas de conversa fiada e vista para o rio. Hoje, pergunto-me como foi possível, ter durado tanto tempo, aquele estranho amor invertebrado, teimoso e atrevido; ter marinado, curtido, defumado, assim, dentro de mim. Agora sou livre, constato-o, sem esforço: não mais as pernas apertadas de desejo nas curvas traiçoeiras da noite. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada, apenas deixar o tempo e a distância, obreiros do desamor, trabalharem entre nós, cavando a dissolução dos contornos do outro. Ufa, que já cá não estás. Chorei-te. Não mais.



(the eternal sunshine of the spotless mind)

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.



(meet joe black)

Domingo, Abril 22, 2007

O nosso tempo é no Inverno, não nesta promessa de estio e de cansaços estirados ao sol. Nós, é mais não nos darmos as mãos enluvadas, enquanto o calor se solta do corpo em espirais de desejo e embate como vapor na atmosfera gelada de Fevereiro. Nós, é os casacos apertados até cima, as golas levantadas e as pontas do nariz vermelhas, não sei se de frio, se de choro, se de vergonha ou pudor. O nosso tempo, não é o das praias de areia branca e águas cristalinas, nem o dos cocktails à discrição, como anuncia o folheto; muito menos o tempo em que a maresia se derrama sobre nós e o sol a pino nos invade a lassidão dos dias. É, antes, o tempo dos fios incertos de bafo quente que emanam das nossas bocas ansiosas, demasiado próximas, demasiado longe, e dos cachecóis que se enrolam no pescoço de cada um, como nos enrolávamos cerimoniosamente um no outro. Nós, é os corpos vestidos, as frieiras e bocas encieiradas, a uma generosa e conveniente distância. Por isso não a quero, à suavidade deste estio que se adianta, nem às carícias deste vento suão. Quero sustê-la, para que nunca me ultrapasse e me fuja, a lembrança dos teus olhos fechados, das tuas pálpebras caídas sobre as maçãs do meu rosto, afogueadas, dormentes de frio. Não quero esta promessa de férias: as tuas férias não são as minhas e não é tua, a minha praia. Quero ficar para sempre com a tua pele fria e arrepiada quase, quase na minha, sem teres por onde fugir. No fundo, quero apenas um truque de feira, uma magia barata, de cinco tostões, que me ajude a não te perder nunca.



(un coeur en hiver)

Domingo, Abril 08, 2007

Nunca me deixaram antes, sabes, fui eu sempre que fugi, trancas à porta, adeus que se faz tarde. Nunca me esqueceram primeiro nem nunca amei quem não me amou. Não é presunção, é questão de me fazer todo o sentido: o Amor é um encontro de vontades no espaço sideral, é um nó que flutua, solto, mas que não se desfaz enquanto as duas pontas não se desentrelaçarem em simultâneo. Como poderia amar-te se tu não me amasses de volta? Como poderia amar-te sem conhecer, compreender e aceitar os termos do teu Amor? Se apenas eu te quisesse, o meu querer seria a ponta solta de um cabo eléctrico à deriva numa poça de água, sem rumo, apenas à procura de fazer doer a alguém. Por isso acho estranho, continuar a chorar às escondidas por ti, quando, supostamente e de acordo com todas as regras do bom-senso e da boa vida, tu já nem te lembras que existo. Que sentido faria, encolher-me os joelhos como uma miúda acossada pelos mais velhos e remeter-me, triste, o rosto entre mãos, para o canto do recreio, se tu não recordasses ainda os traços que me compõem o rosto? Seguro de que não te amaria, se não viesses igualmente ao meu encontro, se não corresses algures na minha direcção. Nunca poderia ter continuado a dar-te colo, se me tivesses virado as costas, nunca poderia amar-te as costas, o teu encolher de ombros, esse gingar de ancas desacauteladas. Não entendes? Tens de estar à minha volta, a rondar-me a teimosia, para que eu ainda me lembre de ti. Tens de, por vezes (só por vezes, é o que basta), dormir comigo e de me fingires tua companhia ao almoço, para eu ainda te ter tanto carinho. Tenho de continuar presente na vontade das tuas mãos, na ponta dos teus dedos. Se eu ainda te amo é porque nos encontramos com frequência a meio caminho um do outro, sobre um lago gelado,um campo de trigo, uma estrada deserta. Ou no reflexo de uma chávena de café, no períneo da cidade morta.




(hable con ella)

Terça-feira, Abril 03, 2007

Beijos. De parabéns, de condolências, de bom trabalho, de boa viagem, de regresso a salvo e a casa. Beijos repenicados, como os da avó, melosos, como os da mãe, ou molhados, como os do primeiro namorado. Beijos apaixonados, beijos roubados, beijos de língua, à francesa, à esquimó. Beijos de missa, devotos, no pé de Jesus, beijos respeitosos, de filho, de aluno. Beijos de cinema, demorados, épicos, beijos para sempre. O beijo da mulher-aranha, o do vampiro, o de judas, o da serpente. Beijos fatais, beijos normais e beijos de adeus (de adeus e até nunca). Beijos soprados com uma mão, a outra a acenar, beijos de boas férias, beijos a fugir, que não há tempo para mais. Beijinhos de açucar, dos das mercearias, beijos amargos. Não me interessa de que tipo são, nem que nome lhes dás: quero-os, cobre-me com eles como se me cobrisses com uma capa rude de pastor no meio de uma serra fria. Nem um dedo à mostra, entendes?





(french kiss)

Segunda-feira, Março 19, 2007

Um ano. Um ano cheio de fins, em que todos os dias te esqueço. Um ano cansado de ouvidos e de dedos à escuta, na mira de um suspiro teu, de um relance foragido, de um sopro. Um ano repleto de palavras minhas e parco em palavras tuas, de memórias brumosas, como fantasmas de piratas no nevoeiro, sem rumo. Um ano de um querer solitário e a noção risível de quão patético é o amor de um lado só. Inevitável, avassalador, incumprido, no seu silêncio emparedado. Sempre a fingir que não é nada, que não foi nada. Caíram, entretanto, muitos factos sobre mim, coisas, chatices, conteúdos programáticos: encheram-me até cima, até toda eu ficar ocupada em trabalhos, até o meu último fio de cabelo ficar com a agenda preenchida. Não adiantou: um ano, dois anos, dez anos, nunca deixarei de pensar em ti, de te querer e de fazer caber um bom bocado de ti dentro de mim. Mas não to digo, nem pensar: não suportaria que me olhasses com a estranheza e a perplexidade dos indiferentes, como se olha um maluco desdentado que nos pedincha um cigarro na rua.



(oci ciornie)

Quarta-feira, Março 14, 2007

Só para que informar que este blogue está a ser descaradamente plagiado no seguinte endereço:

http://saroxmcp.blogspot.com/

Estão, obviamente, a ser tomadas as devidas medidas legais.

Sexta-feira, Março 09, 2007

Louvámos a praia até ao poente, nesse dia. O sol, passageiro clandestino, encarniçava-nos a gazeta, usurpada ao trabalho. Arranhavas-me por razões várias as pernas molhadas, fazendo com que os dedos dos meus pés se esticassem de prazer como os de uma bailarina em pontas e fossem deixando sulcos de limpa-areias ao fim do dia, na areia molhada, consoante te ias submergindo mais e mais em mim, um mapa batrimétrico entre as tuas pernas, e eu, cá dentro, uma rede de recifes de coral e grutas de uma anatomia simples, a encherem-se das tuas marés, a corroerem-se um século a cada nova enxurrada, eu, na vertical, a envelhecer debaixo de ti, um ser em camadas geológicas, corroídas pela paixão. As nossas sombras, mais estreitas a cada guinada do sol na direcção do nada, repetiam cada beijo enrolado em areia, cuspido no meu umbigo, a barriga, os braços, as virilhas, a tremerem de inveja das tuas explorações subterrâneas, tão meticulosas quanto trapalhonas. Foste tão pouco meu como o sol, na sua última curvatura roxa antes de desaparecer na linha do horizonte, uma linha que parecia desenhada por um miúdo a régua e esquadro lá longe, só para que soubéssemos que há coisas inultrapassáveis, como a pressão do oceano, as paredes de corais e os dias seguintes.



(from here to eternity)

Sábado, Fevereiro 24, 2007

Em vozes de sonho absurdo, dei por mim numa repartição vetusta que era de tudo, e também de beijos. Bati com força, de precisada que estava, mas nem um contrário de funcionário, portanto prestável e solícito, se dignou a receber-me cordialmente e a aparar–me o palato ferido. Aproveitei uma nesga e entrei, seguindo os trilhos dos casais felizes e dos desavindos, das heranças partilhadas, dos nascidos e dos morridos. Como em qualquer sonho imbecil, ninguém pareceu-me ver-me no afã daquela quimera absurda. Percorri com o olhar as centenas de tomos registrais que se alinhavam com seriedade numa prateleira de casquinha velha, esburacada pelo festim dos bichos, que faria um vistaço em qualquer cozinha moderna. Abri gavetas de onde saltaram usucapiões, cessões de quotas, aumentos do capital social, averbamentos de óbito, perfilhações. Procurei-te e aos teus beijos no meio deles, porque vos tenho importância de registo e de força pública, de tanto que foram para mim. Sempre achei que os baixos-relevos que trabalharas na minha boca teriam direito a laivos de nobreza, de heráldica amorosa, de leões, espadas, escudos e carinhos de garras afiadas. Lembrei-me de quando me vieste aos lábios, dos mordiscos passeados, dos contornos meus que a tua língua procurava, delimitando-me os lábios por dentro e por fora, dando-lhes forma como numa escultura. Foi então que percebi, com aquela presciência estranha que surge nos sonhos, que a marca dos teus beijos nos meus lábios, dos teus dedos nos meus ombros, era na verdade uma marca de água, muito leve, daquelas que mal se vêem mas impedem a cópia. Mesmo no dealbar do sonho, fiquei a saber que nada de teu em mim se repetirá.



(sweet november)

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo.Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.



(the remains of the day)

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

Nesta fotografia estamos os dois, sim, mas, se é certo que foste tu que a tiraste e que a mandaste revelar, eu escolhi a moldura, por isso não a levas. Porque é moldura da grossa, pesada, com umas rosinhas trabalhadas no pinho, muito digna de, então, nos emoldurar; uma moldura daquelas maciças que afirmam coisas, que marcam posições, não das fininhas sem espaço para as margens, que acabam logo ali, deixando os sujeitos à beira de um precipício; gosto das que deixam adivinhar mais e mais bocados de movimento, de gestos, de paisagem. Como esta. Olha-a bem. Foi tirada quando a nossa vida ainda transbordava de hipóteses e se nos abria pela frente como um quantos-queres. Está bem, já dissemos, foste tu que a tiraste, que ajustaste o zoom e o temporizador para captar a nota certa e o momento exacto algures na partitura daquele beijo agora irrepetível. Mas não (lamento) não a levas nem emprestada, não podes escaneá-la, copiá-la, nem sequer guardá-la na memória para reprodução futura. Não tens direito algum ao vórtice perfeito daquele beijo enregelado, plasmado na lombada montanhosa da rectaguarda, nem ao calor da minha mão direita, que tacteava com murmúrios de cego o interior do teu bolso traseiro. Porque são meus, e não teus, os olhos fechados de futuros entreabertos e esta boca em espera, reflectida no teu olhar atento ao momento do disparo, cuidando da posição da luz. Por acaso a máquina era tua, bem como o foi a ideia do romântico enquadramento. Mas tal só te dá o direito à penúria do sol de Inverno que na altura tentava romper os recortes pontiagudos da cordilheira de fundo, numa brincadeira de crianças, infrutífera. Nada que se compare com a seriedade que me invadiu (repara) enquanto me preparava para te abocanhar a desatenção, nem com a importância de estado da minha mão a rebuscar-te os fundilhos das calças. Podes também ficar com as figuras de fundo, as sombras de dois ou três passeantes indiferentes, a meia dúzia de abetos à esquerda da imagem e da cabana ao longe que, afinal, nunca nos abrigou de nós mesmos. Mas nunca o meu infinito abandono, na direcção da tua boca distraída por um click, adornará uma outra parede que não esta.


(the war of the roses)

Sábado, Janeiro 06, 2007

Voltaste e és o mesmo, mas também outro. Reconheço-te o valsar do sorriso rasteiro, quase as mesmas brancas, os mesmos vales obscuros onde mergulham umas olheiras azuis, e talvez uma ou outra ruga a mais. Mas és outro.Como se num filme de extra-terrestres, forças alienígenas atravessassem o teu olhar meio vazio, que pressinto dominado por outros mundos. Ou se calhar sou só eu, mais distorcida, magoada, engelhada, chocalhada, que quero cantar-te o regresso mas não consigo. Que quero anunciar-me na tua pele com pompa e circunstância mas falha-se-me o entusiasmo. Amamo-nos com os mesmos gestos gentis que nos arrebatam, é certo, e tu continuas a pôr-me o cabelo para trás da orelha quando me sento em ti, de frente, as pernas abertas, o meu rosto inseguro abandonado ao teu hálito. Mas quem és, afinal? Um estranho de três olhos, braços no lugar de pernas, cabeça nos pés, como um quadro abstracto. Uma vogal arrependida dos sons abertos que me rasgavam a carne e a apatia, em tempos. Na pior das hipóteses mudámos os dois, e hoje somos apenas estranhos que se espreguiçam no conforto de fingirem que ainda se querem. Não devemos insistir nos rituais que nos eram familiares, sabes?, nem nos gestos habituais que não reconhecemos sinceros e que acabarão por se virar contra nós. Não me importo que venhas diferente, em calhando, hoje até me amas mais e sempre me podes mostrar o que entretanto aprendeste; mas não suporto que repitas a coreografia do amor de antes, convencido de que o mimetismo do que fomos nos poderá salvar de não sermos felizes.



(sommersby)

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Uma tarde abafada no centro comercial e ali estavas tu, com um bebé ao colo, um pai a exercer os seus dons mágicos de mãe. Assestaste e apontaste o teu sorriso franco-atirador na direcção do meu espanto, enquanto eu, numa desumanidade gritante, o espreitava, esperando-o feio, mirrado, birrento, por favor que não tenha os teus olhos lacunares nem o mesmo riso pingão entre as bochechas. O ar saturado de domingueiros sem gosto nem qualquer noção de espaço contentor atirou-me ainda mais contra o beirado da irrealidade e, enquanto nos debitávamos banalidades, deu-me a vontade de que fosse meu. Meu e teu. Nada de extraordinário: sabes bem que no dia em que o concebeste estavas a amar a pessoa errada. Enquanto, à nossa volta, as crianças cobiçavam nenucos, barbies e floribellas, eu cobiçava a tua vida e imaginava-me infiltrada nela. Tu, num crescendo ansisoso, embaláva-lo desnecessariamente (porque dormia) e furavas o lá ao longe à procura da tua mulher, para que o espírito da quadra se recompusesse sem mácula e eu não passasse de uma nota dissonante na canção natalícia de fundo, como uma viagem de elevador demasiado longa. No meio de tanta frivolidade, para exortar a emoção de ver o teu futuro nas tuas mãos e eu bem atrás das tuas costas, uma coisa me chamou a atenção e me fez disparar-te um sorriso de volta, dos verdadeiros, como se fosses carne para canhão do meu ego ressabiado: tu, o rei dos conhecimentos fáceis e do à vontade com todos, não me apresentaste à tua mulher, e o embaraço pesava-te tanto como o filho que lhe passaste para os braços quando ela chegou.



(the king and i)

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

Tira-me estas noites longas da frente da vista fraca, empurrada a lentes grossas; afasta para o lado o armário dona maria onde guardo tantas memórias desfeitas nas pontas, como os macramés, as rendas desbotadas de noiva, as pretas de viúva, os naperons esburacados, as fotos desbotadas de falecidos despontando bigodes e cinturas austeras. Contrata-me uma empresa de mudanças, daquelas para transportes perigosos, que tenha grua para levar pelos ares este amor velho e desmazelado; estou tão leve, sabes, leve como uma fada, o tempo levou quase tudo o que me era físico: um rim, uma vesícula, os músculos com que te apertava contra mim; e levou-me a consistência feroz da pele, hoje quase transparente e com vontade de cair por terra, de se juntar a ela e de se unir a ti. Distribui esta impressão, que ainda tenho entre as pernas, de quando me trepavas o vão da janela do quarto de solteira com os olhos cheios de auspícios de cama, pelas mulheres da rua, para que lhes alivie a função. Sopra-me esta saudade selvagem para longe, contrata especialistas em desratização e que me fumiguem esta vontade estéril de ser tua uma e outra vez, enquanto a escalfeta me aquece os joanetes doridos por debaixo do xaile preto e a novela da noite faz por me domesticar a desatenção. Dizima-me esta praga de querer que entres em mim e me faças o primeiro filho e de querer esquecer que já tenho netos que me olham com dó, de esquecer que todos se esqueceram de que ainda sou mulher, por debaixo das artroses e do xaile preto. Porque há uma vontade de mulher que anda à solta por aqui, que se reproduz em qualquer clima, que se adapta a quaisquer circunstâncias, que faz ninho nos armários bichados da cozinha antiga e que se passeia pelo serviço esbeiçado da fábrica real, por onde bebo o teu chá favorito e te beijo os lábios.


(titanic)

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Chegaste-me à hora marcada e eu, no meu quarto, enfeitada de alegria e de rendas minúsculas, a cobrirem pouco mais do que púbicas hesitações. Ontem, foi dia da independência, do fim da monarquia, de velas aos mortos, de insurreições vitoriosas e ditaduras vencidas. Foi noite de bordel, de boudoir, de brocados vermelhos, de reposteiros pesados a esconderem a rua e de biscuits a alcovitar à sombra dos psichés. No meu quarto, onde o Amor não resistiu a se despojar das conveniências. Mapeei-me os contornos da cara com maquilhagem carregada, que tu esborrataste de forma artística, respingando o teu desejo pela ponta dos dedos, até o meu corpo se tornar abstractamente expressionista e a tua loucura se aproximar da minha. Houve cambalhotas e pinos no soalho velho e encerado, até à exaustão da Verdade. Pela manhã, fizemo-nos à Mentira como quem chegasse à ponta da prancha de um navio de piratas: o ter de ser a impôr-se à vontade das arrecuas. De repente, nos teus olhos então ainda de riso, a lembrança de um corpete riscado que eu um dia me pus e que tu desapertarias colchete a colchete até a tesão se tornar tão insuportável que esmoreceria, sendo substituída por dois bifes à trindade. Amor pago, o nosso. Mas pago com a mentira árida do dia seguinte, um dia comum, agradável e fácil de levar, com os seus carinhos fingidos e sorrisos presos entre os dentes, como restos de comida. Ontem, fiz-me de tua puta preferida e, no entanto, foi comigo que foste de graça.



(crimes of passion)

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Despacha-te, que tenho o pequeno almoço por fazer, roupa por lavar e as saudades dos outros por matar. O relógio da Câmara acabou de dar as sete e tu pesas-me no peito como uma asma súbita. Dói-me a nuca de evitar para os lados o teu hálito a semana passada, e os teus pés estão frios como os de um desconhecido na morgue, um zé ninguém, um peso morto que actuasse por reflexo sobre o meu esterno espalmado contra o colchão. Despacha-te, enquanto disfarço o bocejo dos sentidos; ainda tens que tomar banho, porque não quero o meu cheiro azedo a desprezo na tua carne, como se te pertencesse. Poupa-me ao momento em que te vens como se um cataclismo feliz te inundasse, enquanto eu disfarço um esgar de alívio e aperto as pernas e escondo o prazer que acabaria por vir à tona, tivesse eu um pingo de consideração por ti. Dispenso ouvir-te chiar de gozo aos meus ouvidos, como um rato que abocanhasse um pedaço de queijo rançoso. Hoje à noite, depois da novela em que me imagino a protagonista bem fodida em lençóis de cetim, faço-te uma tarte de limão das que tu gostas, à laia de compensação por te achar patético em não descortinares o meu tédio. Ou em não te importares, o que vai dar ao mesmo. Despacha-te que, quando saíres, o meu Amor estará pronto para entrar e perscrutar microscopicamente o meu desejo, vandalizado por ti a cada resquício de uma nova madrugada.



(american beauty)

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Traz-me o miúdo como to deixei, lavado, penteado, sem resquícios do teu cheiro ou da tua vontade; o blusão novo, que venha com a etiqueta. Traz-me o miúdo com a etiqueta, aquela de mãe amarrada ao tornozelo. O Amor da minha vida, vê bem, agora um instrumento nas nossas mãos egoístas e de dedos em riste; o nosso boneco lindo, uma motivo para nos orgulharmos do que fizemos e para nos envergonharmos do que somos. Se a alegria dele por estar contigo for desmesurada, e frouxa, a vontade de vir para mim, tu é que pagas, porque eu quero-o feliz, mas assim tanto e ainda por cima contigo, nem por isso. Se for o caso, queixo-me em tribunal, alguma coisa se arranja para te incomodar os dias, nas próximas semanas. Traz-mo às seis em ponto, deixa-o no elevador que ele sobe sozinho, sabes que ainda te quero, que te venero as pálpebras, as falanges, a curva volátil da tua maçã-de-adão, mas que não suporto nem ver-te. É que eu sou a mãe, sabes: foi a mim que ele esmagou a bexiga, pontapeou o esterno e se revirou como uma roca de fiar durante tantos sonos truncados. Não quero que te olhe, saudoso, quando lhe virares as costas. Faz como sempre fizeste: dispensa-lhe a habitual atenção cortês, dá-lhe só aquilo que tens, não te aventures no desconhecido. Traz-mo, para que eu o aninhe no meu colo-cela mesmo que ele não o queira e não esteja especialmente ansioso pelos meus afagos desconchavados de fêmea que se consola, lambuzando a cria crescida. Nada de brinquedos novos e caros, não mo compres nem o iludas porque a verdade, agora, são natais cortados ao meio com o sabre do desamor, e páscoas alternadas com sugestões de alívio pontuadas de solidão. Ele é muito mais meu, repara, sempre mais meu: não são as tuas tardes radicais duas vezes por semana que apagam tantas noites minhas em claro, mergulhada em fraldas, leites e choro; tantas noites, emparelhadas com teu ressonar pesado, suado e indiferente, a embalar-nos, como uma canção desafinada.




(kramer vs. kramer)

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

Estou mesmo ao teu lado e bem sabes que só. Salta a tua agenda e três ruas, contorna-te a cintura renitente e as rotundas de palmeiras, atravessa-te a indecisão e o viaduto, esquiva-te à culpa e aos cruzamentos, corta a direito e à tua direita e estás à minha porta, à minha ávida porta, um raminho de salsa. Sabes que estou só, vizinha hibernada neste Inverno precoce, abandonada ao meu queixo, às persianas corridas, ao cheiro a fritos do andar de baixo e ao restolho ternurento dos outros. Queria beber-te em goladas de sílabas graves e tónicas, em vez do gin desacompanhado e morno que passeio entre mãos; queria matar esta saudade mafiosa que tenho de ti, em vez de matar o tempo que sobra com séries televisivas de quando se usava colete, carapinha e botas de tacão, e concursos antigos com prémios em escudos entregues a desoras. Sei que estás perto e que em dois minutos, talvez três, quiçá cinco, temo-nos os olhos a ferver e ambos os sorrisos rendidos, a desfazerem-se-nos nas bocas como massapão. Quem sabe se encontrem, no ar saturado da espera, as pontas dos dedos ou as palmas das mãos. Eu, sozinha e perdida em mim e tu, rondando-me o bairro, ensombrando-me a varanda e os vasos baratos de roseiras despidas, o teu cheiro a pairar no focinho do cão. Vem até cá: conversamos um bocadinho o amor que deixámos por fazer, relembramos os parágrafos que nos deslassaram os abraços ferozes e soletramos os beijos que não demos. Partilhemos a vontade ociosa de sermos melhores do que aquilo em que nos tornámos.



(the seven year itch)

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

A essência do Amor está na simultaneidade: não na dos orgasmos ou na da hora das refeições, mas na simultaneidade do riso indecente. Por um destes dias, numa tentativa de diálogo com um ser patético, fui acometida de um riso maldoso e incorrecto, quase cruel. Na verdade, não foi um riso: foi mais a involução dele, uma coisa que morreu para dentro, porque faltavas lá tu. Lembras-te?, quando gozávamos as fraquezas súbitas dos outros sentíamo-nos mais fortes, melhores, a pairarmos sobre os não abençoados com a telepatia eugénica do Amor, que despreza e reduz a pó tudo o que lhe ameace a perfeição. Faltavas lá tu, e eu, a olhar aquele desfiar de um rosário triste, os lábios cerrados à força e o riso a querer soltar-se dos fundilhos da garganta. Mas cedo a performance absurda daquele estranho me caiu em saco roto, o riso engolido como um remédio amargo, uma colherada de rícino a escorrer-me pelas veias num silêncio mortificado. Que falta me faz, a partilha fortuita da maldade, que nos punha nos píncaros de nós e nos fazia ser, por momentos, tão mais do que os outros.



(bonnie and clyde)

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Não escrevo para não me ler. Temo que as palavras se me escapem por entre os dedos, fujam a sete pés ou afluam à superfície; que se esgueirem por entre as brechas da minha desatenção e resolvam dizer-me. Por isso, por estes dias, tranco-as a sete chaves e alimento-as a pão e água nas minhas masmorras escuras. Quero-as fracas, quebradiças e resignadas à sua sorte, para que não se amotinem nos ressaltos das minhas entranhas nem deslassem as amarras que tanto trabalho me deram a compor e onde me contenho a esforço. Não escrevo para não me ler. Calo-me as letras: evito as perífrases nas quais tendo a estender-me, contorno os oximoros em cujos contrários habitualmente me revejo e faço de conta que não estou em casa. Enxoto adjectivos, sujeitos e complementos, como pedintes que espreitasse à socapa pelo óculo da porta. Desactivei-me temporariamente. Receio que as palavras, matreiras, me fintem, me levem ao engano e me encantem, sereias, estendendo-me a mão, o ramo de oliveira, o cachimbo da paz, a sua outra face. Não quero que se me insinuem, nem que se dispam e rodopiem no varão da minha imaginação doente. Tenho medo do que possa encontrar de mim, nelas. Tenho medo de te encontrar em mim, nelas. Não escrevo para não me ler.



(the hours)

Terça-feira, Outubro 17, 2006

Lembras-me de pouco. Não que isso me importe ou faça grande diferença, nada vivemos de tão extraordinário assim; pelo menos, nada que me tenha ficado gravado na pele como as chagas de cristo ou coisa que o valha. Não me fazes falta nem te tenho precisão, como se uma despensa vazia. A vida continua-me, periódica e regular, sem assistolias de maior nem registo de paragens cardíacas. Se me morresses amanhã, nem por isso afocinharia o desgosto em máscaras de oxigénio ou recorreria a suportes de vida artificial. Também não se trata de tropeçar na tua sombra encolhida quando a noite se desvela pelos saguões e as paredes das casas se espreguiçam de cansaço. Repara: não é como se alguma vez te tivesse tragado inteiro. Por isso não sei (não entendo) porque persisto em coleccionar-te como cromos da heidi e em colar-te, palavra por palavra, nesta estranha caderneta, gasta do afã do uso.



(spanglish)

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Se o sinal passar agora a verde ou o carro em sentido contrário for branco; se não chover até amanhã, o telemóvel tocar no próximo minuto, eu chegar a casa antes de ser noite ou se depois da esquina estiver alguém em pé à espera; se este cão atravessar a estrada ou o homem gordo me sorrir de volta, se o miúdo der a mão à mãe ao cruzar a passadeira, a farmácia estiver aberta e eu for atendida logo; se a nuvem em forma de oito não se desfizer em zeros ou se ainda houver o jornal de ontem na papelaria da esquina; se atrás do pombo ali pousado vier um outro, a seguir-lhe o amoroso trilho, ou se o locutor repetir a palavra hoje entre os dois noticiários; se aquela mota me ultrapassar antes de eu curvar para a esquerda ou se a matrícula da frente for ímpar, é porque voltas para mim.



(serendipity)

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Anda, vem-me, sê cabra cabrês, salta-me em cima e faz-me em três; trepa, joão, o meu pé-de-feijão; chega-te à janela, queres casar comigo? e eu mergulho contigo no caldeirão. Lambo-te as botas, gato emproado, amo-te para onde quer que me leves: eu, bela curiosa, formosa e segura, no castelo do monstro, no chão da casa feita de massapão, no emaranho do bosque, ou pelos céus de Londres a caminho do nunca (e não digas que não queres, que se te cresce o nariz). Escondo-me o cio por detrás do capuz e finjo ignorar-te, lobo esfaimado, ao cruzar a floresta, ao cruzar-me contigo. Deita-me no chão e façamo-lo, ao som de uma orquestra andrajosa de animais escorraçados, e que os carvalhos nos vigiem o prazer com os seus murmúrios de vento, comentando posições e juras de amor, num cochicho vegetal de inveja nocturna. Crava-me aos solavancos numa abóbora com rodas puxada a ratos, depois da meia-noite; reduz-te em mim, cabe-me entre as pernas e eu faço-te a cama e o jantar, e trinco a maçã, pico-me na roca e durmo cem anos, para que me beijes a boca sem eu poder dizer não. Invertamos os papéis e as proporções, eu, polegarzinha, que guardas no bolso, levas para casa e brincas no banho. E, por minutos, num reino longínquo de fantasia, sejamos reais e felizes para sempre.



(shrek)

Domingo, Outubro 01, 2006

Desculpa-me, vá lá, releva. Desculpa os detectives à porta, os agentes da judiciária, as chamadas a meio da noite, os murros na janela do quarto, a choradeira na escada, os prantos convulsivos, os esgares e o arrancar de cabelos, as idas à bruxa com a tua roupa interior, as mezinhas e o chá amargo. Esquece o professor mambo, astrólogo de renome, o absurdo da tua sina na palma da minha mão, os búzios deitados na mesa pé-de-galo, as folhas coladas no fundo da chávena, as cartas viradas, a imagem da morte a olhar para ti. Faz de conta que não, o escândalo no teu local de trabalho, a censura do chefe e o risinho dos colegas, as ameaças vãs, as esperas que te fiz pelas esquinas da cidade, o encontrão, os arranhões, o desvairo insano dos meus ataques felinos. Perdoa-me, vá lá, desculpa, o vasculho nas algibeiras, o escrutínio nervoso dos teus talões de compra, extractos bancários, recibos das portagens, contas de restaurante, dois pratos de carne duas sobremesas; e o farejo animal dos punhos das camisas, dos colarinhos manchados, do nó das gravatas e das dobras do fato. Releva-me, vá lá, perdoa, estes excessos tão espúrios e de consequências tão mínimas. Sim, porque eu sei (desculpa, mas sei) que passas por mim e me olhas através, como se a minha loucura contivesse em si o paradoxo da medusa e fosse, como ela, por demais venenosa, embora transparente.


(the constant gardener)

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

É oficial: esqueceste-me. Saiu hoje publicado em diário da república, veio na primeira série, mesmo ao lado de uma revogação. Finalmente promulgada, a indiferença que me tens, em papel e suporte electrónico, para mais com força de lei, daquelas gerais e obrigatórias, em vigor no continente e ilhas. Está na boca dos pregoeiros, no alinhamento dos telejornais e nas listas dos homens da rádio. Reuniram-se comissões, pediram-se pareceres vários, aprovou-se na especialidade. Esqueceste-me, é oficial. Mas correm por aqui uns boatos, que quando te cansas do que tens a mais, ainda te queima os lábios a ponta escassa de um beijo, como uma beata esquecida. Pois a mim, não me convencem, as lembranças oficiosas, as memórias por ouvir dizer, o ruído da voz do povo. Exijo um desmentido formal, em conferência de imprensa, onde afirmes aos microfones o propósito de me relembrares nos meandros da tua boca, e de me quereres ao teu redor lá pelo final de uma destas tardes de Outono.



(memento)

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Foste-te embora e não me ensinaste a viver sem ti. Não me deixaste manual de instruções, nem nenhum tutorial em português do brasil. Nada que me dissesse para onde me virar nem o que fazer a seguir, agora que apenas uns laivos fugazes da tua sombra fátua me enfeitam os pés de grifo da mobília de época. Um folheto explicativo, ao menos; uma tradução manhosa do original em chinês, com o género trocado e palavras inventadas, corruptelas ou derivadas. Nem um recado, sequer, na porta do frigorífico, faz assim ou faz assado, ou um post it na secretária, no ecrã do computador, que sumariamente me explicasse os modos de encher os espaços vazios com esta sumaúma triste. Não me deste perspectivas de regresso nem qualquer tipo de garantia, experimente e em quinze venha cá carimbar; não me mostraste as precauções a tomar ou a profilaxia a fazer nem, muito menos, os perigos que corro com a sobredosagem da tua ausência na minha corrente sanguínea. Foste-te embora e eu. Às voltas com as dificuldades de montagem da tua falta nos meus ocos recantos, sem saber como me encaixar no vácuo que provocaste. Eu, solta e desconjuntada, mil peças de pinho sueco espalhadas pelo chão da sala.



(mar adentro)

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Regresso cega não surda porque esta música. Um rato sem vontade e esta flauta tu Hamelin e eu sem saber que fazer, eu sem vontade nenhuma a regressar. Eu a chegar cega mas não surda porque a música e agora não sei se durmo se sonho, se sonho que durmo porque a música. Esta tua flauta implacável que pelas golas me arrasta até aqui, não sei se sonho se continuo dormindo mas eu sem vontade nenhuma a regressar pelas golas que me arrastas. Cega, estúpida mas não surda porque a música. Um mínimo rato sem vontade, cego, estúpido mas não surdo porque a música… Tu, Hamelin?

(blue)

Terça-feira, Setembro 19, 2006

À casa que foi nossa, não mais voltei. Minto. Passei-lhe em frente um destes dias, apenas para a vislumbrar num rompante de desdém calcinado, a tabuleta de vende-se a trespassar-me o orgulho ferido de morte. Minto. Parei e entrei. Doeu-me a secura curvada da fiada de roseiras bacará que plantei em tempos, quando também o futuro me parecia a direito e alinhado a prumo. Entretanto, a grama envenenou o relvado, agora roto do afã das toupeiras e dos coelhos. Remendei-o com o olhar e hesitei-me no caminho de saibro que conduz à entrada. Minto. Quase corri. Empurrei a porta, estranhamente entreaberta, e ali estavas tu no topo das escadas, a iscares-me para a cama com o sorriso instigador; e a espreitares-me da cozinha, de avental à chef, com duas fatias de piza congelada nas mãos, os segredos da confecção do sushi por desvendar na barriga do gato rafeiro; e no sofá da sala, a embalares-te o cansaço num western manhoso e a repetires em surdina as falas amargas do herói solitário. Voltei as costas aos teus eus que me iam surgindo num bailado de memórias assombradas e saí. A última vez que te vi era domingo e cantavas e cortavas a relva num slalom tresloucado por entre os aspersores, como se dançasses à chuva e bradasses aos céus o estarmos felizes. Deixei-te para trás e nem chorei, sequer. Minto.



(21 grams)

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Chegam-me na volta do correio, as cartas que te escrevo, devolvido ao remetente, destinatário desconhecido. Às vezes, passo em baixo da tua janela e invento que aquela sombra a cobrir o nicho de estuque branco (que vislumbro quando abandonas as gelosias desengonçadas ao meu olhar magro, de tanta fome que te tenho) é a de um suspiro teu por mim que se tivesse perdido pelo corredor, por entre os biscuits, os bricabraques e os souvenirs almofadados. Geralmente, escondo-me na ombreira de pedra tosca da tua entrada, a roer as unhas, o coração naquele desalento descompassado de soldado bêbado. Espero durante horas, enquanto me imagino num deslizar sulfuroso pelas tubagens de gás propano, a entrar-te nas narinas como um veneno e a adormecer-te num sono fundo em que só entrasse eu. Já cheguei a tocar-te à campainha, mas desatei a fugir rua acima como um miúdo a caminho de casa que driblasse o tédio depois das aulas. Enquanto tropeçava nas poças, ia imaginando ao correr das pedras o que aconteceria se tivesse ficado e tu me tivesses aberto a porta, e como eu fingiria um desfalecimento súbito nos teus braços desprevenidos, uma baixa de tensão, um copo de água por favor.



(malena)

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Vens um homem novo. Despoluído, liofilizado, desintoxicado de nós, diferente. Mas nota: eu, que ainda por aqui ando, tudo farei para te baralhar as prioridades, para te roer até aos ossos os ânimos renovados e te reavivar as minhas impressões digitais (que um dia, inadvertidamente, deixaste que tatuasse na tua pele). Um homem novo: limpaste-te a chache, correste-te os melhores anti-vírus, activaste-te a firewall. Vens devidamente formatado e em branco, pronto para hercúleos trabalhos e para as batalhas habituais nos open spaces, por entre as redes redis, o escaldado das bicas cheias e o frio das legionellas: a cidade à tua espera. Sacodes os restos de terra e de areia que se entranharam nos poros, respiras fundo e fazes-te à vida, meio calado e dormente, talvez para que não te ouça, não saiba que chegaste. Eu? Já to disse: por aqui ando, em modo trapézio, pendurada no cimo dos prédios, feita mulher-aranha a abalançar-se no fio de prumo e da navalha, a um passo de aterrar no teu colo sem que me tenhas dado licença e danada para te surpreender nessa retoma dos dias úteis com um solene beijo de língua no teu âmago desinfectado (enquanto finjo um abraço apenas ternurento no teu redor).



(gilda)

Sábado, Setembro 02, 2006

És-me necessário, saliente, impávido, arrematado, incerto, inútil, possante. Não existe em nós uma coincidência feliz que seja, apenas esta precisão gemelar de costas cosidas com costas, dois caminhos que não se diferenciam nem bifurcam, mas que não conseguem ser um só. Que nem sequer são paralelos, porque se tropeçam, se impedem e se guerreiam nas mais pequenas minudências. Que alívio quando te vais, que tormento quando nunca mais chegas; que silêncio quando passas por mim, como se os teus gestos me enxotassem o sorriso varejeiro; que torrente de palavras sentidas jorra quando não estás, numa verborreia tão desesperada que até as paredes, condoídas, me respondem de volta. Naquelas noites enormes que transbordam de minutos a mais, quero muito ouvir-te a chave à porta, mas depressa me esgueiro, fazendo-me casta e adormecida, para que nem te lembres de me tocar a pele em fogo. Não há gramática que explique a contradição nos termos de supostamente te amar, tenho quase a certeza, mas de me apetecer ter-te quieto, no fundilho dos meus bolsos misturado com o comando da garagem, no compartimento interior da mala de mão encostado ao baton, a tua vontade empalhada como um troféu de sala, para meu eterno descanso. Não sei se é doença, mal-estar, aflição, virus, ou apenas condição; sei que é um jogo que tenho de ganhar sempre, embora perdendo-te uma e outra vez pelo meio.



(dangerous liaisons)

Domingo, Agosto 27, 2006

Já era tempo. O Amor não é como nos filmes, não se alimenta de ausências nem sobrevive do pingue pongue de toques inventados por imaginações carentes de adêene desconhecido. O Amor não é um grande plano de olhos fechados e de bocas entreabertas, com um magnífico pôr-do-sol de permeio e um piano piroso de fundo. Já era tempo, sabes. O Amor é uma janela que se fecha devagar para que não te constipes, é guardares-me a última colher de mousse e partilharmos a escova de dentes e o tédio das segundas à noite; é o riso cúmplice no velório de um primo distante e o depilar-me com a gilete com que te barbeias. Não, seguramente, esta estúpida nostalgia de violinos que se dispersa pelas minhas veias saudosas como veneno de cobra, a cada vez que me lembro de seguir um roteiro de palavras que não me pertencem porque já me esqueceram. Já era tempo de não tentar seguir-te o trilho, de perder a esperança de te encontrar as pegadas, às voltas, de volta, na minha direcção. Já era tempo de abrir os olhos, de virar-te a cara e cerrar-te os lábios (e que a noite caísse por fim entre nós). Seguir em frente. Sim. Já era tempo de seguir em frente.



(east of eden)

Domingo, Agosto 20, 2006

Gosto da imoralidade inquieta com que investes entre as minhas pernas e depois emerges dos teus trabalhos de língua como uma enguia cansada, para logo a seguir me prenderes com os pés as bochechas, tendo eu de te engolir inteiro antes que da minha cara faças banco desdobrável. Não te reges por quaisquer princípios quando me abres na tua trave como ginasta olímpica e rodas sobre mim, fazendo-me eixo fixo do teu gozo obsceno e arrogando-te a leveza de um ponteiro dos segundos. Não me deixas, sequer, espaço dentro da boca para poder passar o riso que sempre me invade quando nos vejo assim trocados, invertendo todos os códigos da importância dos carinhos: eu, a amar perdidamente um dedo do teu pé e tu, a namorares o meu tornozelo magro, que chupas como a última ostra. Mas do que eu mais gosto é quando um de nós se vira por fim no escuro, ambos ainda confusos, em busca de pontos de referência, do hálito cansado do outro. E do prazer de te esperar, cá em baixo, no fim da viagem, depois das curvas, das derrapagens, dos cruzamentos às cegas e inversões de marcha. O sexo é a melhor metáfora de nós: o sítio onde exageramos a vida e a esquecemos, enterrando a cabeça um no outro como avestruzes cobardes.



(basic instinct)

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Chegaste-me pelas costas e o teu sorriso miúdo a acertar em cheio as minhas omoplatas desprevenidas. Tempos depois, o sol num determinado ângulo, a ensombrar o pára arranca da brisa marinha. e pela bonomia estival irrompe a lembrança dos teus olhos gulosos, arredondando as minhas medidas e sufragando os meus gestos. Por entre línguas da sogra e gelados olá, reconstituo a tua boca de lamentos diabéticos com a precisão de um restauro de capela: recordo-a abandonada aos meus segredos de mulher fácil, oferecida como uma amostra grátis, e lá se me vão as certezas dianteiras e os traços contínuos, na leva da quadragésima sétima onda. Um ligeiro açoite da memória, e o teu cheiro a sobrepor-se à citronela na varanda e a intrometer-se na roda de amigos. Por entre as gargalhadas e as traças que esvoaçam no cheio da noite, faltas-me qualquer coisa, como se uma cadeira vazia em frente a um prato cheio, numa mesa posta. Finjo que tenho muito para te mostrar mas, na verdade, sou um livro em branco à espera que me preenchas com a caligrafia paciente de um monge copista, e assim talvez que da nossa história ainda surja uma iluminura (como as que dantes contavam dos desvarios feitos por Amor e da tolice de lhes chamarem milagres).



(breaking the waves)

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Não sei em que momento o teu tronco perfeito, alinhado por deuses gentis, passou de bênção sorridente a cruz às costas. Nem imagino o que te terei feito ao certo, para que me obrigues a carregar-te pela moínha dos anos como uma penitência azeda. Nós dois, de mãos dadas num paraíso de folheto, assimétricos como bainhas cosidas à mão, cedendo cada vez mais ao conforto morno da redundância e do silêncio. E os contornos molhados desta ilha em que resolvemos resolver-nos, acentuam ainda mais os rasgões da solidão sibilina na nossa carne triste. Não há oceano índico que nos enxagúe as mágoas, nem sol costureiro que nos vire os forros da alma magoada pelo avesso e no-la sacuda para o chão, a ver se sai o lixo e as sobras que não prestam. Em frente, um nativo de rosto gasto como as conversas em vão, toca música velha de namorados e sorri, ao teu gesto cuidadoso de casaco sobre os meus ombros arrepiados. Sabemos ambos (aliás, sabemos todos, até a senhora da agência) que o roteiro de um inclui o outro a diário, como visita guiada de turista enfadado. Mas eu duvido (sinceramente, duvido) que alguma vez volte a oferecer-te o meu corpo com o abandono dos crentes.



(once upon a time in america)

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Discutir os prós e os contras num frente-a-frente de argumentos colados. Pôr a escrita em dia, fazer o balanço da situação, eu em cima e tu por baixo. Retomares o fio à meada que tenho cá dentro e minotaurizares-te pelos meus trilhos, guiado apenas pelo cheiro. Esclarecermos dúvidas, analisando-as e despindo-as, se possível nus em pêlo. Acertar os ponteiros, dar-te corda e fazer as minhas horas coincidir com os teus minutos. Sobrepostos. Tocarmo-nos em capicua, nos dois sentidos, para o que der e vier. Rever a matéria dada, insistindo nos pontos fracos, que são os mal sabidos, os ainda não estudados e aqueles cujo gosto entretanto esquecemos. Escrutinar o prazer, não vá o diabo tecê-las. Definir estratégias e reoganizar a defesa, escudares-te dentro de mim em formação tartaruga. Pedir-te tréguas e ajoelhar-me à tua frente em súplicas fingidas, lambendo-te com ironia sobranceira. Medir forças e esticar a corda. Pores-me os pontos nos iiis em sessões conjuntas de esclarecimento e eu, a exclamar-te primeiro e a interrogar-te depois, a abrir-te as pernas em posições gramaticalmente erradas. Pedir-te meças, prestares-me contas. E limar as arestas. Dos lábios.



(sea of love)

Terça-feira, Julho 25, 2006

A pensão à beira-mar, um pequeno palacete de sonho de pescador, com direito a pináculo e tudo, forrada a madeira de um quase branco carcomido por anos de maresia, erguia-se com uma inocência desabrida, como se nela não andássemos a esconder o cheiro acre da sofreguidão e da culpa. O mar arrulhava-nos por entre os lençóis e as pernas batiam-se num duelo de cãibras e de sono, enquanto as minhas mãos gemiam de vontade pelos teus cabelos ainda mornos. Cotovelos que resfolegavam, amorosamente. O Inverno trazia o iodo pela manhã (algas pretas como línguas), que entrava pelas nossas narinas, abertas pelos cheiros adocicados do sexo e do sabão azul no linho gasto das almofadas. Eu acordava antes de ti, pousava os pés engelhados de prazer no soalho morto e, com um par de olheiras espraiado pela cara que denunciava a urgência a prazo da paixão clandestina, corria porta fora ao encontro da verdade do oceano, que todos os dias me esperava com a honestidade das marés. Antes de sair, engolia um copo de água e arrebanhava uma maçã, sobrada da noite anterior. Comíamo-las às dúzias, os dois virados ao contrário na enorme cama vitoriana, enquanto os dedos dos nossos pés seguiam o trilho delicado dos embutidos de cerejeira no rebordo da cabeceira, empurravam infantilmente as esferas de nogueira em cada um dos topos a ver se caíam, e se amavam como cães na estrada. Detinha-me por fim na areia molhada, a maçã meio comida (o coração aquecido de medo). E era então que o quebrar quezilento das ondas contra a persistência do molhe me admoestava os sentidos (domesticados pela vadiagem da tua boca) e me devolvia a pergunta de sempre, o que é que estás aqui a fazer?



(tess)

Sexta-feira, Julho 21, 2006

Brinco contigo e com o desejo que nos temos, porque somos, fundamentalmente, amigos e é assim que os amigos fazem: contam-se segredos, partilham impossíveis e tocam-se pela rama. Brinco connosco e com esta pesca ao arrasto, em que nos atiramos redes esburacadas e nos escapamos como golfinhos com sorte, semana após semana, porque te acho graça a essa fuga em frente, desmazelada e perigosa. Brinco comigo, porque me vejo excessiva e ridícula, a querer-te de modo tão perdulário quanto inútil, refém de um desejo-tractor inutilizado e avariado num palheiro de quinta. Brinco, porque sei que me desperdiço as horas e me vou gastando com nada, mas, que queres, acho-me graça, à perseverança amorosa e à disponibilidade sorridente, que me acrescentam sempre algo de bom. Gozo com o sexo bestial que nos invento em coreografias madrugadoras, porque jurei que pela minha pele nunca mais perpassaria a angústia de não te poder ter e eu cumpro sempre as minhas juras (menos a que às vezes te faço, que é a de deixar de te querer). Brinco, porque às vezes me sinto outra vez miúda de sardas e de dentes de coelho, à beirinha do último degrau do prédio e do primeiro amor, a provocar-me vertigens, curiosa dos mistérios da queda brusca. Brinco contigo e com o desejo que nos temos porque somos, fundamentalmente, amigos (e é assim que os amigos fazem).



(the fabulous baker boys)

Quinta-feira, Julho 20, 2006

Que se pode amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo e que o coração (esse caixote onde depositamos o lixo não reciclado do Amor à falta de sítio melhor) é uma mansão cheia de quartos embolorados, à espera de limpezas renovadas de Primavera e de gelosias abertas. Mas não. O coração é um espaço pequenino e claustrofóbico, um metro quadrado de elevador, se tanto. Quando cheio, os que lá estão empurram-se, enquanto se cheiram com desagrado e se olham desconfiados. Dois no coração e já há excesso de carga, a porta não fecha e não se vai a lado nenhum, nem para baixo nem para cima. Amo-te. Mas também a ele. E não: não existe isso de um coração dividido, como um quarto camarata, com beliches de ambos os lados, ou uma suite real onde todos caibam. Não existe um que fique com o lado que leva o oxigénio, nem outro com o lado que o traz. De nada nos vale, apelarmos às fronteiras certas da anatomia: amar a dobrar é apenas um desencontro triste com o que na altura se ama menos e uma alegria fortuita e pouco serena com o que então se ama mais. Não há como vos amar aos dois: não quero os teus braços, nele, nem o sorriso dele em ti. Quando te toco, fico aquém porque não me entrego inteira; quando vacilo sobre ele, preciso-te com o desespero dos náufragos exauridos. E, no meio, o meu corpo indeciso que pende à vez, (in)fiel de balança, a braços com uma vontade por cumprir, como a que nasce das carícias incompletas. Este corpo que parece não se decide, tempestuoso, enjaulado, como um suicida que não consiga escolher em que poço mergulhar, de que ponte se atirar. Amar os dois mas, no fundo, não amar nenhum, ninguém, nem sequer a mim própria (muito menos a mim própria).



(sommersby)

Quarta-feira, Julho 19, 2006

O amar e o amor de quando em vez desencontrados, normalmente desencontrados. Dois mundos que se não tocam. Por cada amor há alguém que ama e alguém amado, à vez. O amar e o amor. Puxar uma corda sem que alguém resista no outro extremo. Amar é perder a vez de ser amada. Mas quando sou e se porventura sou então descanso e aproveito. O amar e o amor, dois mundos que se não tocam. Quem me quer amante e eu que me quero sempre amada (não queremos todos?). Saber-te amante e ao mesmo tempo amar-te com todo o amor que consiga. Amares-me também até doer. Amar-te e por isso desejar que vás primeiro para que não sintas a minha falta, ou antes desejar ser eu a ir primeiro porque eu me sei incapaz de aqui ficar sem ti, de viver sem ti. Dois mundos que se não tocam. O amor e amar, amar e não apenas ser amável, dois mundos.

(moulin rouge)

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Dizer-te que seria contigo, que recomeçava tudo outra vez, alfa, beta, gamma, delta. Mesmo sem te saber o gosto, que te amaria de forma errante. Só assim podia, épsilon se me escondesse sempre onde me deixo, se me tapasse onde me apetece, mesmo por detrás de um alfabeto, digamma. Dseta dizer-te que me és indiferente é dizer-te que me és para lá das letras, eta inexistente. Mas por trás, por detrás desse alfabeto theta congeminar-te, erigir-te. Dizia-te que seria contigo mas na verdade não o sei. Iota eras tu ou em qualquer outro sítio mas minha kappa, em todo o lugar lambda para me ensaiar, mi, ni, ser eu à distância dos olhares, às escondidas de nós, xi. Omicrón e mandar às urtigas as convenções. Pi e abandonar as nossas peles. San e sairmos por aí ooppa. Renovados de nós rho. Sigma, tau, ipsilon, fi, estranha liberdade esta a de não sermos nós, khi, psi, ómega e sampi, mas única forma de um não se fazer sim.

(delta of venus)

Sábado, Julho 15, 2006

Querias que escrevesse o que senti ao rever-te, que deixasse cair como ainda te quero e me arrepanho e derramo no teu olhar lacustre, mas não, desculpa. Esperas que eu te vá escoando através de palavras mansas,porque nelas te bastas e nos desbastas, mas não, lamento. Nem penses que te contarei como me contorci os tornozelos sóbrios na vontade ébria de me roçar ao de leve no canto direito da tua boca e desengana-te, se vens à procura do que não te pude dizer, porque tu não deixas (nunca deixas) e eu não quero (às vezes, quero). Também não te direi que só quando te vi percebi como tinha de facto saudades, e que as saudades que andei a dizer-te que tinha eram mentira, pois delas não fazia a mínima ideia, nem sequer sabia que as evocava como mero remate de breves despedidas por escrito. Gostarias que te descrevesse como esta noite me agarrei à almofada, náufraga por fim em terra firme, que a pus entrepernas como fazem as crianças com medo do escuro e que, depois, a atirei para os pés, espreguiçando-te para fora da cama, escoiceando para o chão os lençóis suados que quereria encharcados do teu esforço anaeróbico sobre o riso do meu umbigo. Querias que te abrisse os meus desejos cerrados como às vezes te abro com raiva as minhas pernas (reumáticas, atrofiadas, gangrenadas e cobertas de varizes em forma de afluentes parados, como as que surgem na velhice da espera).




(amores perros)

Terça-feira, Julho 11, 2006

Ontem passaste por mim e eu na paragem do autocarro, à espera de quê, naquela mansidão costumeira, inútil. Abraçava-la com um fervor meigo, como quem se congratula, e teimavas em cobrir-lhe a bochecha direita sempre com o mesmo beijo, gasto do despudor de tanto uso. Foi pior do que não me teres visto, porque me topaste o embaraço pelo canto de um olho distraído, mas o meu interesse na geometria da calçada não te mereceu qualquer dobra de atenção. Limitaste-te a rodear-lhe o pescoço com a força do teu antebraço e, com o ouvido dela à entrada da tua boca, ter-lhe-ás segredado o desprezo que me tens. Ela riu-se, sem sequer se dar ao trabalho de me medir a presença vacilante, para quê. Naqueles segundos, em que memórias e aragens velhas se embrulharam nas esquinas de betão, nos letreiros, o céu plúmbeo pesou-me tanto como a alegria cúmplice da vossa passada síncrona. Mas um pequeno tornado pareceu formar-se do interior da sarjeta que nos vigiava de baixo para cima, e a ventania súbita que vos arrepiou os nós dos dedos devolveu-te o meu cheiro a medo e a perfume antigo. Morreu-te o sorriso nos lábios, como uma porta que se fechasse, e a lassidão tomou-te conta dos braços, que te caíram ao longo do corpo como quem se rende ou deslaça por fim a mortalha. E a nuca dela ficou exposta (via-se o arrepio da sua pele sem ti), a rua toda a cochichar-lhe a nudez e foi bem-feita. E agora não sei que faça, com os murmúrios de súplica que te adivinho no sorriso de porta fechada e no antebraço caído, e nas mensagens de voz que me entopem o gravador e o decurso corriqueiro dos dias.




(bus stop)

Domingo, Julho 09, 2006

Preciso de me desenvencilhar do cinismo da escrita, que enfeita a verdade e a dissimula, impondo-nos sentidos contrários. Tantas palavras polvilhadas sem parcimónia como especiarias em excesso, têm vindo a disfarçar o sabor do que quero de facto dizer-te. Desde que nós, homens, nos largámos as caudas de girino pelos chãos sulfurosos e nos abalançámos a braços e pernas e alma, que tendemos a confundir as urgências da carne com a paixão e esta, com a vontade de envelhecer junto. Andamos ao engano desde o início dos tempos, a tentar fintar a Natureza e a querer convencê-la de que o prazer com que em boa hora resolveu dotar-nos os pontos cardeais, não é mero engodo para que embarquemos mecanicamente na perpetuação da espécie, mas algo de mais profundo e inexorável que nos enobrece a condição. Estou certa de que alguma confusão destas terei feito para me convencer de que te amava enquanto ardia por dentro à sexta-feira à noite. Talvez porque me coubeste, porque me preencheste o milímetro quadrado no canto ao fundo do ventrículo esquerdo que doía como um sopro e isso foi o bastante, porque é de um buraco negro, que me sugava a matéria de que sou feita, de que te falo. Hoje, quando tenho a certeza do que apenas quereria de ti (uma hora, uma tarde, e só porque não suporto não saber como poderia ter sido), quero dizer-te que te amei, sim, mas que acabou. Não te amo mais porque não te posso ter e porque que foram demais, as palavras gastas na camuflagem de guerra. Teriam bastado cerca de três: Amor. Sexo. Fim. Não necessariamente ao mesmo tempo nem, obrigatoriamente, por esta ordem. Ficamos, então, assim e eu prometo não mais confundir o meu desejo animal com a tua solidão. E que me releves o atrevimento, afinal, todos sabemos: o Amor é a brincadeira preferida dos adultos.



(l´amant)

Quinta-feira, Julho 06, 2006

Percebo que, quando derrapes subitamente na curva do meu queixo, me dês as costas e te afastes (receoso, desconfiado ou, apenas, com vontade de o fazeres). Também percebo que precises de mo dizer por palavras portas travessas, como se tivesses vergonha desse encolher de ombros e preferisses soletrá-lo. Mas não me peças que te empurre enquanto me puxo, pois sabes que tendo para o vórtice, para me deixar encurralar nas tuas espirais descendentes e que nada percebo da força centrípeta do Amor. Continuo a não saber quem és, nem de que oportunidades perdidas são feitos os teus dias; apenas sei que a tua insónia me encurrala nalgumas noites mais despertas e que no fundo pouco nos sobra, para lá da conversa cigana e das vigílias sincopadas. Olho-nos as voltas trocadas e pressinto-nos a melancolia pré-histórica do celacanto: um esqueleto de beleza rendilhada, quase comovente em dependendo da luz, mas que nem a datação por carbono me pode dizer quando e porque apareceu ou acabou. Parece-me que não voltarás a rasgar o ar que respiro, acho. Agora, só me falta despir este xaile de palavras esburacadas com que me cobriste os ombros aflitos e sacudir de vez o teu cheiro da minha epiderme (que nos dias ímpares e nos meses com érre resolve sempre a parva eriçar-se de esperança).



(pride and prejudice)

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Sou uma queixinhas de merda, uma mariquinhas pé de salsa, uma pedinchona chata, sempre no limiar do queixume, a fazer beicinho... mas, a espaços. Tenho receio (e não é receio mas vá) de aqui estar, de aqui vir, de aqui escrever. Tenho receio (e não é receio mas vá) que me julgues tal qual sou, que me vejas como que despida e à janela, como eu te pareço ser por dentro. Tenho receio (e não é receio mas vá) que me entendas como tua quando não sou, nem minha quanto mais. Sou uma queixinhas de merda, uma mariquinhas pé de salsa, uma pedinchona chata, sempre no limiar do queixume, a fazer beicinho... mas, a espaços. Tenho receio (não é receio mas vá) que leias o que não escrevo e pelo contrário que não leias o que há muito repito. Tenho receio que me descubras e não é receio mas vá, é antes um pudor, um pudor de ser assim quem sou, assim, completamente vazia de mim e ao mesmo tempo sempre cheia. Sou uma queixinhas de merda, uma mariquinhas pé de salsa, uma pedinchona chata, sempre no limiar do queixume, a fazer beicinho... mas, a espaços. Tenho receio de me confessar perdida, não a ti mas sempre, perdida e ao mesmo tempo que me perguntes - E porquê aqui? - E eu dizer-te porque aqui, talvez contigo, não tenha receio (e não é receio mas vá) de dizer isto mesmo. E porque sou uma queixinhas de merda, uma mariquinhas pé de salsa, uma pedinchona chata, sempre no limiar do queixume, a fazer beicinho... mas, a espaços.

(aniki-bóbó)

Sexta-feira, Junho 30, 2006

Ao quarto escuro, brinquemos ao quarto escuro. Eu escondo-me no armário, por entre as lingeries de renda e as camisolas de lã, e misturo-me o suor nervoso com os cheiros a lavandas e a chanéis. Tu, procuras-me. Controlas a tremura dos dedos, desligas firme o interruptor e fechas a porta devagar, até o último fio de luz vindo do corredor se esbater no meu sobressalto contido. Primeiro, finges que me suspeitas debaixo da cama ou por trás das cortinas e que não sabes que te espero, de pernas e tesão encolhidos, na expectativa do toque adulto, adúltero, egocêntrico. Depois, cheira a roupa em que me escondo, ordenada por cores que não vês, como se farejasses o trilho fermentado do desejo, e tacteia no ar o calor que de mim foge, como um cego hesitante, receoso de tropeçar no desnível súbito do passeio ou de chocar contra o semáforo calado. Eu rirei para dentro enquanto penso como seria, a tua mão para sempre no meu joelho. Deixa-me sentir-te a respiração a desbastar-me os cabelos, mas sussurra o meu nome para o canto contrário, como se me achasses lá e confundisses os contornos da pilha torta das toalhas de banho com a sombra volátil do meu corpo encolhido. Por fim, agarra-me com pressa os braços e abafa-me o grito com a boca, impondo-me a tua língua com a urgência de uma lei marcial. Fica dentro do armário e dentro de mim, naquele silêncio próprio do recolher obrigatório, até a agitação nas nossas veiasruas acalmar e os exércitos, que nos marcharam a pele no escuro, regressarem aos respectivos quartéis (até nova ordem).


(havana)

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Apesar de tudo, longe, e nunca estiveste tão perto. Madressilvas soalheiras e dias que se socorrem de outros dias, sonhos molhados pelas franjas da madrugada fora, o cão que me lambuza o nariz e eu espirro, as unhas roídas de espanto e um refrão pimba que me borbulha na língua e me ajuda a transpor as estafetas da tarde. Longe, e nunca estiveste tão perto, apesar de tudo. Sonhos na verdade encharcados e um riso alargado no escuro, daqueles que rasgam a fímbria da manhã, dedos que brincam nos recantos do corpo e que acostam, distraídos, nas margens da pele, o relato da bola, a consulta no médico, a mercearia da esquina que abre aos domingos e aquela canção que me apazigua os sentidos, seguida de uma outra, que os alvoroça. Longe e, apesar de tudo, nunca estiveste tão perto. O que me escreves e dizes, trago à boca do estômago, o que me não fazes, trago à boca da noite, de uma noite qualquer (talvez já amanhã). Prazos a cumprir, atrasos com multa, unidades de conta e conversas meigas guardadas com cuidado como relíquias de santo, um dente, um verbo. Há ainda resquícios de um suspiro de tédio e de um bocejo de fome que se me atravessam as malhas do cansaço. Longe, e nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.



(west side story)

Segunda-feira, Junho 26, 2006

Olha, queres um bocadinho do meu tempo? Toma, empresto-to a fundo perdido, como se dá uma moeda de cêntimos a alguém que precise telefonar ou uma boleia, a quem tenha de chegar cedo ao destino. Aceita o tempo que te dou e preza-o, porque é com ele que vais poder um dia olhar-me com a calma do luar a pique na preia-mar de Agosto, como se a noite nunca tivesse acabado e o táxi não me tivesse deixado em casa cedo demais. Não me faz falta, acredita, conheces-me perdulária e relapsa nos deveres em geral: se não to desse, provavelmente, desperdiçá-lo-ia, deitá-lo-ia fora (sabes que perco tempo, sabes bem o tempo que perco, designadamente nisto, especialmente contigo). Ignora as respostas para ontem, olha-me por um bocadinho a mão e aceita-o sem hesitares, que isto é promoção do dia e se encontrares melhor devolvo-te a diferença. Gasta-o com parcimónia, mas gasta-o bem, sei lá, usa-o comigo para me amorteceres a queda, a inevitável queda. Sabes que de bom grado te emprestaria os últimos trocos para que me comprasses um anel fingido, uma rosa dos monhés e me pedisses em casamento. Só pelo pretexto de te cobrar juros usurários em forma de beijos de língua ensaiados na escadaria de mármore sob chuviscos de arroz e espreitar as nossas salivas reflectidas no cromado piroso da limusina alugada.



(barefoot in the park)

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Sabes, ainda aqui estou, nesta esquina onde um dia prometeste que me surpreenderias. Mantenho-me de pé, indiferente aos gracejos de pedra das soleiras das portas, aos perigos acrescidos do buraco do ozono e ao adornar dos algerozes, que vão deixando cair os restos da invernia. Para passar o tempo, vou espreitando quem passa. Reparo, por exemplo, nestes cães, que levantam a perna e aliviam a solidão dos donos no tronco carcomido da única árvore que resta, uma amoreira de copa mirrada que se esgalga por entre as paredes inclinadas daqueles dois prédios ali, os mais antigos da rua. Cá continuo, nesta esquina de arestas limadas de tanto que nelas me rocei de desejo, à espera que me chegues inopinado e te fixes nas veias salientes do meu pulso como se nelas decifrasses um código de barras, que entrelaces os teus dedos nos meus a brincar, fazendo com eles uma jangada de pauzinhos, daquelas difíceis como um rendilhado de bilros, e que distraias esta minha verticalidade teimosa com os teus ares de nobreza fingida, lambuzando-te nos meus joelhos como se presidisses a um banquete medieval e te preparasses para o jejum de uma guerra prolongada. Ainda aqui estou, nesta esquina onde sabes que te espero (onde sabes que te estou a mentir).



(nuovo cinema paradiso)


Quarta-feira, Junho 21, 2006

Quando penso que te resolvi de vez, que és caso arrumado, trigo limpo farinha amparo, quando tenho quase a certeza de que me desamparaste a loja (agora fechada para balanço, à espera de trespasse, encerrada para obras), surges-me do escuro com aquela violência própria que carregam em si as coisas impossíveis. Chegaste-me à beirinha da madrugada, armado em holograma, embora com peso e consistência suficientes para que te sonhasse com cheiro, te sentisse os pelos da barba por fazer a pastarem-me a curva do queixo e te saboreasse o hálito, que me entrou pelas frinchas dos lábios renitentes e aterrou na minha língua inquieta. Acompanhava-te o sorriso miúdo um desejo hidráulico, perfurador e persistente, que usámos em proveito próprio, amando-nos de todas as maneiras e feitios, ao longo de horas que couberam em minutos, como se as tivéssemos embalado a vácuo. O timming foi perfeito (como sempre acontece em todos os sonhos que são bons), pois tudo começou e acabou no exacto segundo em que era suposto. Lá fora, entretanto, o dia rompeu a placenta da noite e seguiu igual, e ninguém mais deu por este meu baldear inesperado pelas franjas desprevenidas do Amor, por esta ligeira alteração de rota, só eu (e agora tu).



(in the mood for love)

Terça-feira, Junho 20, 2006

Nove vezes nove oitenta e um e sonho contigo desculpa. Não é nada de mais oitenta e um mas estou a sonhar contigo desculpa. Olha é um desses sonhos quentinhos e se calhar estou a sujar-te desculpa mas deixa-te estar, isso. Estou a dormir juro. Não adormeci logo, nove vezes nove oitenta e um sete macacos e tu és um. Provavelmente foi assim perdia-me entre as contas do dia, que são cada vez mais contas e cada vez menos certas e deixei-me ficar contigo quando fugia, não quando fugia, mas agora quando tu numa parcela de uma conta de somar, de sumir, me apareces a diminuir e eu com pena agarro-te a mim. Foste tu que aqui entraste sim sim, numa parcela de uma conta juro. Não? Não mesmo? Então desculpa, baralhei a conta mas deixa-te estar, isso. Estou a dormir juro. Três vezes noves vinte e sete e eu agora divido-me contigo, eu contigo a multiplicar os dias em que não faço contas, a subtrair este cansaço que me põe à prova, dos nove, vezes nove, num oito. Não adormeci logo três vezes nove vinte e sete e olha olha tirei a folha ao teu canivete. Estou a dormir juro. De quatro, estou de quatro a sonhar contigo desculpa. A dormir juro. Um sonho quente em que tu és nove vezes nove oitenta e um ou és antes pareces-me ser até vinte e sete e agora sessenta e nove desculpa a dormir juro mas deixa-te estar. Nove vezes nove oitenta e um sonho contigo desculpa estou a dormir juro.


(Le fabuleux destin d Amélie Poulain)

Segunda-feira, Junho 19, 2006

Não foi o primeiro nem mesmo o segundo. Não foi o milionésimo sequer, mas foi o beijo mais importante, mais memorável da minha vida. Foi o beijo perfeito. O beijo para o qual trazia dezasseis, dezassete anos de preparação, de ensaios, de imaginação. Não foi com o meu namorado da altura, mas antes com um outro. A magia de um outro, de um qualquer, de um estranho. Alguém que nunca tinha visto, de quem não sabia nada. Alguém que nunca mais voltei a ver. Um fim de tarde que seria daqueles sem história se as nossas bocas não calhassem uma na outra e nós os dois com elas a preencher uma esplanada de jardim deserta. Aproximámo-nos e foi isso. Como começou? Da mesma forma que acabou: um olhar, um chegar perto, deslizámos (não me recordo de ter andado) uma coisa estranha, quase telepática. Olhámo-nos e foi como se nele meus olhos sempre tivessem espreitado. Como se eu me desejasse nele, desde sempre. Nos dias seguintes vagueei, ora pelo jardim ora por perto de onde julgaria ser sua casa, num desvio imenso do caminho que habitualmente fazia no regresso do liceu. O que procuraria? mais beijos perfeitos? Não. Estava certa de os não voltar a ter. Procurar, apenas procurar. Procurava por procurar e procura-se muito melhor depois de encontrar.

(Kiss or Kill)
Tens outra (claro que tens outra). Será mais bonita do que eu? Mais alta, mais magra, mais triste (mais tu)? Também te impacientas e te exasperas, enquanto lhe forças o fecho emperrado da saia travada? Igualmente se te atrapalham os dedos, ao desapertares-lhe o soutien? E ela, morde os lábios como eu quando, torturada, a olhas com demora e de longe, sem sequer lhe tocares? E retrai-se as pernas arrepiadas de surpresa, contorcendo-se de cócegas e de falsos pudores, a cada mão tua que a entra? Tapas-lhe a boca quando, dependurados ambos nos benditos altares do prazer, ela grita, impedindo-a de acordar os vizinhos? Ao descaíres por fim sobre as suas ancas suadas, regurgitas-lhe o meu nome, como um pedaço de vida por cumprir que tivesses encravado na garganta, ou susténs dentro de ti o engasgo de cada sílaba enviesada e esperas simplesmente que eu te passe?



(blood simple)

Domingo, Junho 18, 2006

Às vezes, desbarato-me na lembrança que guardo de nós e faço de conta de que ainda nos queremos e de como era insuportavelmente bom quando não nos podíamos ter, porque me sentia viva. Imagino que o tom coloquial que hoje em dia nos serve, mais não é do que um escudo magnético poderoso com que nos defendemos da vontade de nos dizermos a partir de agora não me apetece mais viver sem ti. Por momentos semibreves, faz-me todo o sentido que ainda e que talvez para sempre. Então, presumo que as saudades que gostaria de sentir são verdadeiras e que me arrepanham de facto o peito em repouso, desprevenido. Aproveito e invento a falta que gostaria que me fizesses, e para isso invoco aquela que um dia senti, quando à mercê de providências nada divinas, como a teimosia descarada do desejo animal. Lembro-me de pensar que urgia libertar os meus poros abertos da tua presença húmida, mas o que consegui foi, apenas, afastar o ressaibo de não puderes ombrear comigo: nem nas banalidades dos dias nem nos excessos das noites. Agora já não me custas, sais-me barato, praticamente pechincha e estás sempre aqui (pesarás a outra qualquer). E eu, com o riso a pender-me ao canto da boca, porque, afinal, o Amor pode ser assim: uma omnipresença saborosa que me permite lamber-te a nuca abandonada, enquanto espero para pagar na fila do supermercado e tu te encontras a milhas.



(doktor zhivago)

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Vou-me embora,disseste. Pegaste na mala atulhada de roupa engelhada, agarraste nas chaves e fingiste-te por momentos desorientado com o paradeiro do telemóvel, a dares-me tempo para que te pedisse que ficasses. Abriste devagar a porta da rua e fechaste-a atrás de ti meigamente e a custo, como que para não acordares a tentação de me abraçares e te deixares ficar. Só então me abalancei ao corredor, onde quedei de pé num silêncio lívido, como um espectro desnorteado que já não tivesse mais por onde assombrar. Quando o estalido da fechadura antecipou a reticência dos teus passos na escada, deixei-me cair de joelhos sobre o queixume do soalho velho, que rangeu e chorou comigo como uma carpideira paga. Foi aí que desataste a correr como se te perseguisse um exército de malditos: de conservadores do registo civil acenando-te com estranhas cláusulas antenupciais, de sogras de papada empoada a quererem-te para choffeur e assistente, de filharada ranhosa enclavinhada pelas tuas pernas acima, de administradores de condomínio e terapeutas conjugais, de porteiras intrometidas, bom dia senhor doutor, de gerentes de conta, a prestaçãozinha está atrasada, de patrões rancorosos a susterem-te promoções há muito devidas. Livrar-te-ias de todos, bastava-te chegares à garagem, ao carro e pores-te a milhas, mato adentro. Por momentos, fugiste de tudo e de todos e, no remanso daquela noite de oráculo que nos anunciava o Verão mais triste, foste alma primordial em voo pelos recantos da floresta que então te acolheu o alívio. Não conseguiste, no entanto, enxotar-me da tua lembrança, ali parada no corredor, finalmente vencida, finalmente fantasma.



(paris, texas)

Quarta-feira, Junho 14, 2006

Os dias estão amenos e fúteis e pedem analogias fáceis e previsíveis, das que se soltam à toa e se esquecem, como as flores dos jasmins amarelos que se vão perdendo pelo asfalto. Apetece jogar conversa fora e, a meio caminho entre um batido de morango e um cigarro demorado, dizer por acaso que um amor desencontrado é como um mau jogo de futebol, uma espécie de ballet desengonçado de solteiros contra casados, num domingo de chuva. Com a cabeça cheia de estratégias vencedoras que revemos à exaustão, nem por isso deixamos de nos abalançar a maus passes, a fintas falhadas, a simulações desleais, a rebolanços teatrais e a foras de jogo. Dentro dos amores que são tristes porque não se encontram, uns são mais indisciplinados do que outros e arriscam-se à cuspidela no adversário e ao manguito ao fiscal de linha. Esses, os que perdem a classe, merecem penalidades elevadas, assobios de bancada e garrafas pelo ar. No jogo dos amores desencontrados, no entanto, nunca há substituições a meio: mesmo que de canelas do coração esfaceladas e de joelhos da alma rebentados, somos nós e o outro, a esticar o confronto ao limite do prolongamento, não havendo morte súbita que nos valha. Senhor árbitro, importa-se de apitar, que estou cansada e não me apetece brincar mais? Quero sair. Não? E um cigarrinho na bancada, posso?



(the hustler)

Terça-feira, Junho 13, 2006

Dos outros, nada me interessa. Dos que me rodeiam e se me insinuam, puxando daqui, empurrando de acolá, acotovelando-me gentilmente a atenção, nem dou conta. Não importa se me oferecem flores, jantares caros, palavras difíceis ou sorrisos únicos, nem se me cantam, ao ouvido esquerdo, a canção do bandido, ou me sussurram, ao direito, clichés repisados, descobertas científicas e verdades absolutas. Relevo-lhes a poesia medíocre e a prosa sentida, trespasso-lhes as transparências e vou à minha vida, que és tu. Não me tento por desvios ínvios ou atalhos fáceis, não cedo a distracções de feira nem a truques para inglês ver e ignoro olimpicamente o barulho das luzes, nesta concentração absoluta no propósito de te amar. Os demais não te obstaculizam, simplesmente, não existem, de facto: detenho-me na tua omnipresença e isso por agora me basta. O Amor não me cega, antes, priva-me de qualquer visão periférica.



(brokeback mountain)

Sexta-feira, Junho 09, 2006

Nada disto é Amor, bem sei. Esse está aqui em casa, entre quatro paredes. Está na camisa dobrada com o cheiro fresco do sabão de massília, no brilho do prato de sopa acabado de sair da máquina, no sonasol lava-tudo escondido no escuro da despensa, na novela das nove partilhada a contra gosto, na mãos dadas que vão ao embalo da cusquice morna das montras de domingo, nos esgares de orgulho ao melhor flic flac da turma, no azeite quente na barriga a ver se alivia, é receita da avó, na migalha ao canto da boca afastada com o polegar do outro, no sereno deambular pelo vazio do corredor à noitinha, no riso e no sexo alimados entre os lençóis, no copo de leite a mielas às cinco da manhã e no cobertor que nos tapa com jeito as pernas frias, adormecidas no sofá da sala. Desaparecêramos do mapa um do outro, e em nada nos desviaríamos do nosso eixo existencial, da espiral de afectos que nos governa os passos. Por isso, descola a tua boca do meu ouvido, retira a tua língua da minha trompa de eustáquio, não me lambas assim o suor da pele nem me mordas ao de leve a cartilagem da orelha. Some-te, como um mau actor, na penumbra dos holofotes avariados, e não me erices o corpo com os sussurros atentos do teu desejo incumprido, que esse tocar à distância não passa de invólucro de nada, de embalagem de correio com porte pago, insuflada a bolhas de ar mas vazia por dentro, sem conteúdo nem indicação de remetente. Vazia, entendes? Quando ambos sabemos que o Amor é Cheio e se faz de muitas minúsculas presenças.



(the bridges of madison county)

Quinta-feira, Junho 08, 2006

Já seria tempo de crescer, de me ver ao espelho com o tempo a passar, mas que queres tu… bem sabes que me fui deixando ficar neste nunca, neste desleixo de ponteiros, no esfarrapado de desculpas que já não colam. Deambulo perdida pelos ecos das salas vazias dos nossos solares, pelos labirintos dos nossos jardins agora matas cerradas, altíssimos matagais. Perdida no capim, entre lianas, savanas, perdida, por isso não apareci… não cola não é?! Mas passa aqui a língua só para ver. Engolida por um cargueiro desses de pavilhão aos lagartos, vendida a mercadores ou doada a piratas, as unhas pretas e as barbas desleixadas como eu, perdida entre contentores, tanto tempo a braço, a remar para voltar, dar à costa para aqui chegar, por isso perdida, por isso não apareci... não cola não é?! Mas passa aqui a língua só para ver. Já seria tempo de crescer, de me ver ao espelho com o tempo a passar, mas que queres tu… esta doença, este mal tão terminal que me encosta a vida ao destino, que me afugenta a alma, que me entorna perdida, tão imensamente dorida entre pensos e alas de hospitais não tens pena? entre tratamentos e comprimidos, por isso me esqueço, desmemorio, por isso perdida, por isso não telefono… não cola não é?! Mas passa aqui a língua só para ver. Passa por aqui a língua para eu ver. Devagar. Já seria tempo de crescer.


(kiss of the spider-woman)

Todos os dias te ponho com dono, as malas à porta, te vejo pelas costas. Todos os dias me voltas, trocando-me as voltas, a pedires batatinhas, jeitinhos e abébias, a fazeres beicinho, de monco caído, a chorares-me os pedaços que ainda achas que te cabem (do jantar, do colchão, do meu corpo gelado). Por entre os vapores de álcool que emanam dos teus olhos de cão vadio, aproveitas-te da minha fragilidade estremunhada e prometes-me outra vida, recomeçar do zero, desta vez é que é, nunca mais, nunca mais. Vais falando e pedindo, implorando e jurando, mas os primeiros acordes da cidade distraem-me dessa sempiterna ladaínha. Enquanto os gatos se equilibram nos beirais e regressam a casa e os cactos cuscos espreitam pelos vidros baços das águas furtadas, vais falando e eu perdoando-te, num desfile de bocejos resignados. A madrugada que se escancara sobre os telhados tortos e tu a adormeceres-me nos braços, dormentes do teu peso na minha vida. Mentalmente, pego-te na roupa vomitada, na lábia aprendiza de caixeiro-viajante, no sorriso infantil com que sonhas com outras e nos roncos em que destilas a aguardente barata, e atiro tudo janela fora, num enrodilhado desprezível que se desfaz na calçada, com um estrondo implosivo. Parece que acertei num gato, azar. O dele.



(a ópera do malandro)

Quarta-feira, Junho 07, 2006

Sonhei contigo no banco dos réus: estás de pé, mentes-me quanto aos antecedentes criminais e indicas-me falsa morada. Despes-me a toga (a beca?) com os olhos e soltas-ma dos ombros com a dentada do teu riso escarninho. Sustenho-me os sentidos, enquanto te interrogo sobre os factos que te trouxeram aqui e que nos perderam. Devia pedir escusa por conflito de interesses, pois dano-me por te condenar, sem apelo nem agravo, no limite máximo da pena, pelos rebordos da injustiça. Não a substituirei por multa nem deixarei que a pagues com trabalho comunitário, nem sarjetas nem jardins, a não ser que me entendas junta de freguesia. Sou juiz em causa própria, advogada, acusadora, cúmplice e testemunha; sou a funcionária que gritou o teu nome à chamada. Pedes clemência, que te redimes, mas eu, com a devida vénia a todos os presentes, acabo contigo. Agiste livre, voluntária e conscientemente, com dolo mais que directo e apontado aos meus reconfins. No olhar de viés para a porta aberta, é pública a audiência, adivinho-te a intenção de fuga e sinalizo a autoridade, barriguda e abigodada, distraída com os resultados da jornada anterior, mas é que nem penses. Quero-te a pão e água, papillon de estimação na limpeza das latrinas, a estirares a tua insónia pelo chão da solitária (onde relembrarás em excesso as nossas noites criminosas). E cumprirás pena até ao fim dos teus dias, partindo pedra, bordando arraiolos e montando carris, pois vais igualmente condenado nas custas do processo, acrescidas do muito que me tens custado a mim.



(the shawshank redemption)

Terça-feira, Junho 06, 2006

Não me telefonas e eu não há meio. A tristeza é um corpo estranho que trago em mim porque tu não, como uma bala perdida que se me alojasse na omoplata e me incomodasse nas noites húmidas ou cientistas extra-terrestres que me tivessem implantado um chip à sorrelfa no cérebro, a comandar-me à distância a existência vegetativa. Não me telefonas e o dia sempre cinzento, de uma névoa elástica que não se rompe e vai resistindo à insistência perfurante do sol de Junho. E eu, como um domingo sem companhia ou um parque de diversões fechado para obras, porque nada me dizes. Ao telemóvel, tiro-lhe o som, perfil silêncio, se não me ligares não o saberei, presumo que hesitaste e deixaste mensagem, tão certo como o uivar dos cães ao sino da igreja para a missa da manhã. Nada me dizes e eu. Que pespeguei com a maior bandeira de portugal do mundo na varanda das sardinheiras, que vesti a mini-saia curta e me abalancei a um penteado menos rente à cara, que afinei a voz para que te soem alto os meus queixumes trinados e estes pregões indecentes de varina no cio. Eu, de letreiro na testa e de alvo encarnado desenhado no umbigo, a ver se me acertas em cheio, mas tu não ligas, é tarde e o cheiro do Tejo vazio invade-me a casa e circunda o colarinho da camisa que esqueceste enrodilhada, aos pés da minha cama, por uma destas noites. O teu silêncio de apneia é como mergulhar no escuro fundo de um oceano onde dormissem cabozes cegos, baloiçassem lulas transparentes e vegetassem corais desmaiados.



(pillow talk)
Engraçado como à minha casa não vou, antes a tua. É de noite como aliás comigo é quase sempre de noite. Passo rente pela minha porta sem sequer lhe deitar olhar. Sei que ali está, sigo em frente. Bem sei, não avisei, mas que queres, eu própria ainda há pouco, agora mesmo... Vou para tua casa onde não existe mesa posta, cama feita. Vou para tua casa onde ninguém me espera. Dessa tua casa poderei sair para comprar cigarros apesar de não fumar. Pois é, que maçada, eu não fumo. Decidi: Quando chegar a tua casa volto a fumar. Pedes-me em casamento e eu não me lembro mas acho que te disse que aceitava. Dançamos. A boda são três dias. Vinhos, acordeões, clarins, pandeiretas, cavalos, latas, ciganos descalços. O fotógrafo, os padrinhos. - Juntem-se todos para cabermos! O padre sorridente a gamar-nos as alianças enquanto nós nos beijamos. A chave do quarto a baloiçar-me na mão e o padre outra vez, agora a morder a aliança, a afiançar o ouro a meio da pergunta - É por meia hora ou é para a noite toda?

(underground)

Segunda-feira, Junho 05, 2006

O sexo, despiciendo, belíssimo, descartável, que fazemos por estes dias a fio (presos por um fio), empecilha-nos. A cada projecto de saída tua, enrodilhamo-nos os corpos e baralham-se-nos as coordenadas das certezas absolutas. Por mais que nos tracemos azimutes nas costas do outro, não há meio de a urgência dorida deste prazer redescoberto nos indicar um rumo sofrível. Não mais deves soçobrar a tua perna direita sobre a minha anca, enquanto presumivelmente sonhas com o abarcanço de outras ancas; e eu não devo continuar a encaixar-me em ti nem a dar-te ao encosto a minha nuca (suada do destilar dos meus pesadelos). Preciso de espraiar o espírito no à-vontade de uma cama vazia e pretendo ocupar os lençóis todos, fazer-me a eles como uma sem-terra. Vou arrebanhar todos os centímetros que foram teus, açambarcar-te as almofadas e repôr, com fúria marxista, a justiça socio-doméstica no interior destas quatro paredes. Por isso, não me sorrias nem me peças desculpa, sentida e pungentemente, a cada virar de costas, porque lá vou eu que te abro os braços e te mergulho em vôo e a pique, uma e outra vez. E para quê, diz-me? A superestrutura deste desejo súbito não reflecte, nem por um bocadinho, a verdade da nossa infraestrutura abalroada pelos anos.



(the story of us)

Domingo, Junho 04, 2006

Essa fragilidade, que te adivinho no sorriso de massa quebrada, cabe-me na palma da mão e detém a medida exacta dos cantos arredondados do meu moleskine preto (porque rosa não havia). Quase te posso amarfanhar a carne mansa por forma a fazer-te caber no meu bolso, roto no forro bem no fundo, como se fosses uma folha amachucada na qual eu tivesse garatujado uma frase idiota, uma conta errada ou um mau poema. Pareces-me acossado por uma tristeza longitudinal, daquelas de fio-de-prumo, que te sobe e desce como um elevador sem assistência, desgovernado entre andares. Não te posso dar colo nem que te percas no meu embalo, porque me basta um piparote de vento suão para que a razão que me resta me caia aos pés, desfeita na sua leveza como farinha peneirada. Não te esqueças, no entanto, que os jacarandás floriram já por Lisboa fora, ali(la)sando-nos o estriado rugoso onde se intersectam a espaços os nossos caminhos rectos.



(boogie nights)

Sexta-feira, Junho 02, 2006

A partir d´hoje, e até ver, aceito outros atrevimentos escritos, sob a forma de comentários. Porque o mundo está cheio de atrevidos tímidos que sussurram os seus amores inventados pelas esquinas tortas dos dias.



(quills)

Quinta-feira, Junho 01, 2006

Vamos ficando por nós. Deixamo-nos assar lentamente ao fumeiro da indiferença, pendurados com o juízo para baixo e a razão de pernas de pernas para o ar, pingando gordurosos desalentos. Como cobras em tempo de muda, curtimo-nos peles e dores e largamo-las pelo chão (açaimado a folhas apodrecidas), onde vamos perdendo o que um dia fomos. Neste espaço, que já não nos pertence e do qual se apoderou um ser estranho e dual (alheio à unicidade convexa que em tempos nos confundia as cinturas), feito de duas partes que se desvariam num guerreio de singeleza abrupta, adoçado a tréguas de sexo e de língua. Vamos ficando para trás: em batalhas insones, às turras contra as paredes da casa, aos tropeções nos tapetes coçados bordados a mágoas de fio de ouro. É uma criatura peluda, com três olhos, de garras afiadas e de instinto cruel, esta que agora circula por aqui empestando o ar com o seu hálito de flores murchas e que volta e meia resolve suster-se, como se num fio de arame onde tivéssemos resolvido equilibrar os nossos vazios simétricos. Move-se em velocidade de cruzeiro, o monstro, exibindo airoso duas caras-metade, transformadas agora em duas caras-pela-metade: uma para cada lado, como as cabeças de uma hidra ou um par de gémeas siamesas coladas pela espinha dorsal, unidas a contragosto mas reféns de vontades distintas e, por isso, dispostas a rasgarem de alto a baixo a raiz comum de onde provêm, o tronco que as alimenta, o eixo que as sustém.


(kill bill)

Sexta-feira, Maio 26, 2006

Se me perguntas, digo que sim, que podes falar à vontade, que nada me constrange nem me faz mudar de cor. Estou habituada a seguir em frente pelos terrenos por ti minados e em manter esta aparência fresca de quem acabou de sair do cabeleireiro depois de um mergulho na praia. Mesmo quando me rebentas sob os pés, estilhaçada continuo. À suspeita de uma mina mal-enterrada ou ao vislumbre de uma granada de mão, nem me tento desviar, não me abrigo nem me cubro a cabeça com os braços: avanço resoluta e piso o teu chão com mais força ainda, como se te esmagasse a felicidade sem mim que teimas em embandeirar em arco. Podes contar-me as novidades, falar-me dos teus projectos, amigos acima de tudo, confidentes de cúmplices sorrisos, apoios morais, palmadinhas nas costas, estamos cá para isso. Podes repetir que o teu Amor é outro e que me esqueces sistematicamente depois das duas da manhã. A tudo, digo que acho bem e que até concordo. Não me cabe a mim explicar-te por á mais bê que estás redondamente enganado, que persistes em escarafunchar a felicidade nos buraquinhos errados e que o vazio que tens aí dentro não se finta assim, do pé para a mão, no dia em que decides escolher outras solidões por companhia e te agarras a elas como uma lapa na aflição da maré vazia. Embora não deixe de ser verdade que todos os Amores (mesmo aqueles que inventamos antes de o serem de facto) são âncoras que nos prendem à razão quando desatamos a derivar com a força desmedida das marés e com os desmandos das nortadas de Verão (que teimam em nos arrepelar os sentidos, da popa à proa).



(the perfect storm)

Terça-feira, Maio 23, 2006


Com um pé ainda nos sonhos, mas outro já vigilante, arrisco um duche ao banho de imersão; seco-me à pressa e visto menos roupa do que aquela que aconselhariam os humores bipolares da Primavera; falta-me um casaco de malha, um bolero, talvez, que me aconchegasse os braços, nús das tuas mãos (e os meu pêlos adormecidos, sem por que se eriçarem). Saio de casa, dou uma volta à chave, ignoro a prudência das duas da praxe. Na pastelaria da esquina, engulo meia sandes de queijo e enxoto o torpor matinal com uma bica muito curta. Dos olhares desinspirados dos transeuntes, que desenham esquadros no pavimento com passadas renitentes, retenho para aí uns cinquenta por cento. Chego ao escritório. Sobre a secretária, respira um relatório comatoso, composto de duas páginas ao invés das quatro que me haviam sido pedidas, enquanto as vistas da minha janela, dotadas de inesperada lonjura, repuxam com insistência as meias mangas da minha atenção. No entretanto, finjo um interesse colorido que vai bem com tudo o resto. À noite, enroscada num dos lados do sofá, degluto dois quartos de lasanha semi-descongelada, vejo o filme até ao segundo intervalo e acabo esmagada no doce almofariz do cansaço e da inevitabilidade da perda. Arrasto uns farrapos de consciência até às entradas do sono, que me chega pontilhado por imagens de ti - de uma das tuas orelhas, do teu olho direito, de parte do teu cabelo e da tua mão esquerda, que gesticula no ar para que eu a apanhe: do teu corpo, enfim, que acarinho à distância mas nem mesmo assim por inteiro. Falas-me em três beijos, contei pelo menos seis. E tem sido assim desde que te foste: a minha vida pela metade.



(chocolat)

Sexta-feira, Maio 19, 2006

Mais um dia perdido, em que não me rompo a placenta deste querer nascituro que me berra aos ouvidos, insatisfeito de fome. Mais um dia em que me embalo e aconchego no quentinho das lembranças e das vontades por cumprir, que nascem do rasto mentiroso das primeiras. Não sei se te dê a mão e te pegue ou te deixe na roda do convento para que outras te amparem, ou então te esqueça para sempre no canto mais remoto do infantário, enroscado no teu umbigo a murmurares-me colo. Não sei se te puxe, se te empurre, se te amarre uma venda e te rodopie obrigando-te à cabra cega, ou se te dê o peito e te alimente como uma loba que se rói de prazer e saiamos por aí a fundar cidades, daquelas importantes, rodeadas de portos marítimos bons para o comércio e para as guerras. Dava-me um jeito danado, esquecer-me da superlatividade dos teus beijos. Acredita que deitaria muitas menos palavras fora.



(dracula)

Quinta-feira, Maio 18, 2006

Às vezes, duvido-me e ponho em causa a parcimónia com que te vou consumindo e o cuidado excessivo com que te vou debicando, dando-me ganas de te engolir inteiro, de um trago e de uma só vez, numa manifestação alarve de impaciência e enfado. Nesses entãos, não me basto na rotina de esticar o pescoço para dentro de ti nesta pose cautelosa e educada de quem põe o dedo no ar e pede licença para entrar, e que pretende ser não mais do que uma manifestação polida do meu desinteresse em saber os segredos que escondes no rebordo da tua secretária, misturados com post its antigos e pastilhas mastigadas. Tenho dias gatunos em que me bastaria com pouco menos do que abrir-te à sorrelfa e penetrar-te furtivamente e a horas mortas, sem que desses conta e quando não estivesses em ti, para te vasculhar os papéis com a sofreguidão de um mendigo que procurasse comida num contentor, como se do que então encontrasse dependesse a minha sobrevivência nas horas seguintes, o meu aguentar-me em pé até à chegada de um novo dia (mais um, sustido a convenções, frases meias e amor demais por fazer).



(last tango in paris)

Quarta-feira, Maio 17, 2006

Deixo-me ir com o que escreves. Cavalgo umas frases que soltas ao acaso, que me caem nos olhos vindas das tuas mãos e antes delas não se sabe bem de onde, talvez de passados estrangeiros de ti. Apanho esses teus bocados à deriva como se fossem meus, como se eu neles ainda existisse, mas quando olho para trás e lhes leio o sentido vejo-lhes de facto, ainda e só bocados, meia dúzia de tábuas, um arremedo de uma jangada impossível. Um barco impossível, de convés ao avesso, de mastros tortos e calabretes mal arreados que com o passar do tempo se torna cada vez mais náufrago. Sinto-te debruçares-te mais uma vez sobre o poço do papel para que, lá no fundo e reflectido na água, te vejas com o céu recortado sobre a cabeça. Para o que sobra de ti possa escorrer, para o que aí trazes dentro te escorra pelas paredes desse poço. Sei que te afastas de ti próprio para não interferires, para não te influenciares no que me dizes, para não caíres. Sim, sinto-me triste como o vento numa pedra quando não está ninguém a ver. Constato que foi isso mesmo que disseste baixinho, a ti próprio, convencido de que estarias sozinho, de que ninguém te ouviria e apenas a água escura te acabaria por devolver. Aparentemente é exactamente isso que tu és, se calhas a ser traduzido directamente e não mediado por ti. Uma pedra e eu sobre ela vento. Cais ao poço. És-me uma pedra no fundo do meu poço. Eu não queria amar-te uma pedra.
(closer)
Aguardo-te, embora nem sempre te espere. Mesmo quando pretendo que nada me sejas, aguardo-te inerte, junto a mesas partidas e a lâmpadas antigas, com traças pousadas no nariz e aranhas que desfiam as suas teias por entre as minhas falanges abertas. Aguardo que te rebentes como um dique e que inundes tudo à tua passagem, ensopando terras e arrastando telhados, na torrente inevitável que será desaguares-te em mim. Serei então o declive, a descida a pique num ângulo impossível, o resvalo mais perigoso e a zona estupidamente baixa para onde encaminharás as tuas águas passadas. Aqui, onde é sempre inverno e cheira a aventuras de piratas e ao lodo das marés, ser-me-ás presente. Aguardo que tenhas frio outra vez e que entre nós se sobreponha a tonelada de roupa que então não soubemos arrancar e que tentámos aligeirar com o rendilhado da adjectivação excessiva. Mas também aguardo o contrário: que esta promessa de estio me permita roçar vagamente o ombro no teu cotovelo distraído. Aguardo-te no ar que vou farejando como um perdigueiro, no ouvido de batedor experiente que tem dias colo ao chão e neste pau de vedor que seguro entre mãos e que teima em apontar para ti. Sabes que te aguardo (embora nem sempre te espere) e que um dia virás e cairás, por fim, exausto, nos meus braços de lama e que nos amaremos por entre os destroços da enxurrada, até que alguém nos resgate.



(le mépris)
De quando as nossas olheiras reflectiam o escuro das noites em que nos afogávamos no Amor, debatendo-nos como gatos escaldados à tona; de quando os cantos da minha boca, revirados para cima, refractavam a luz que então nos inundava os dias, como aqueles rectângulos de Sol que se esgueiram pelas portadas entreabertas e banham os soalhos das casas felizes. Esse quando, que há muito esgueirou os seus contornos ondulados para lá da linha do horizonte e me pôs a fitar o nada, de mãos em pala sobre os olhos, à espera de ver surgir lá longe um remoinho de poeira, levantado pelo tropel de uma paixão que quereríamos de novo embalada numa fúria trovadora. Inimigos de nós mesmos em tantas batalhas perdidas, confesso-me quase cega (pelas frestas das pálpebras cansadas, nada nos enxergo de jeito); amblíope estou de certeza, embora ainda te espreite as veias (salientes do esforço de viveres) pelo canto do meu olho esquerdo, que rebola desemparelhado numa urgência recognitiva. Nem que me ampares, nem que me ajudes a atravessar-nos nos locais assinalados: uma bengala e um cão, é só o que te peço.



(saraband)

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Acordo afoita, a apetecer atrever-me ao de que fujo a sete pés; quero apanhar-me à tua porta, a pedinchar ao acaso um relance teu que seja e talvez encontrar-te, num repente distraído, pelas esquinas de Lisboa; vou, ainda hoje, descortinar a aparência do teu rosto na estática ruidosa do televisor e, quem sabe, aperceber-te subitamente na geometria descuidada da dobra do guardanapo. Por enquanto, espreguiço-me e esbanjo indolência, e imagino que se te me declaras e me exaures, aqui na cama e contra a parede, e que eu não quero nem saber que a oeste nada de novo, que seja sempre só mais do mesmo e que de pouco ou nada serve, apontar-me parabólica para o satélite que és tu, numa captação pirata de fios e de cabos colados a cuspo, que redunda sempre em emissões clandestinas (de fraco sinal, por sinal). Sais por que lado, para que te espere? Estás nas chegadas? Trazes o Amor na bagagem de mão ou voltaste a esquecê-lo, num balcão qualquer do free shop, nas costas da cadeira do passageiro da frente? Vou esperar-te e, desta vez, levo-me comigo, para que me tomes logo ali, sob os bigodes atarracados de espanto dos agentes da guarda fiscal, no balcão frio da alfândega, por entre o confisco das sony japonesas e dos charutos cubanos. Tens-me na exacta medida das tuas mãos, madura para que me colhas, em ponto de rebuçado e mesmo, mesmo à tua beirinha (repara: até os cantos das minhas manhãs te pertencem). Colou-se-me à cara um sorriso tolo, orvalhado, que me alivia. Telefonas-me?



(et dieu crea la femme)

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Se te não entregares, se me não abrires as tuas golden shares, se me não deres o teu domínio completo, garanto que te tomo todo o papel que conseguir arrebanhar. Bem te vejo volátil sempre a subir, a empurrares os índices. Bem sei o valor dos teus activos, há muito que acompanho a tua cotação e te adivinho o PER. Day trader inconsciente compro-te em alta para te vender em baixa. Encaixo as perdas colossais e na abertura do mercado lá estou eu a comprar-te mais uma vez, a abrir-te todas as posições, a torrar uma fortuna num espalhafato de ordens e comissões. Mas também espero os teus sinais de bullish para me manter deliciosamente long contigo. Também te sustento a força, enquanto te finco as unhas de olhos postos nas cotações quando te dá para o bear. Só depois me fecho, quase sempre sem estrondo nem alarde, a deitar contas à vida, a lamber as perdas, a renunciar aos teus dividendos. Mas agora sei que vai ser diferente. Fria e calma esmiúço e analiso-te tecnicamente. Verifico num rigor estocástico as médias móveis divergente e convergente. Releio o Principles of Security Analysis e convoco traders afamados, submeto-te aos mais elaborados sistemas e mergulho a fundo nos teus fundamentais. És a minha Monte Carlo blue chip e já te conheço de cor os suportes, os arrufos e os pontos de inversão, os amuos e as trends, as euforias, todas as brisas e mesmo as insignificantes oscilações. Sei que vai ser agora! As candlesticks, as bandas de Bollinger, o oscilador RSI e o meu insight dizem-me que é agora, que é chegado o momento. Levanto estão os stops, assanho-te todos os meus brockers e dou-lhes ordem para te caçar, não me importa a que preço. Eu própria vou à praça cobrir todas as ofertas! É bom que saibas que te lancei uma OPA e não há CMVM que te valha. Serás todo meu. Restar-te-á apenas decidir se me queres dócil ou se antes me vais querer hostil.

(bugsy)

Quinta-feira, Maio 11, 2006

Fazes-me bem, bute brincar (corto com os dentes a minha gorila, toma metade). Vamos em conluio cometer crimes, de sangue, de honra, e quem sabe atentar contra meia dúzia de liberdades individuais. Dás-me vontade de trepar às àrvores, jogar ao pião, decepar bonecas, bater nos mais fracos (carolos nos mais novos). Quero acotovelar-te propostas indecentes e desvendar-te segredos, daqueles relevantes para a segurança nacional. Vamos brincar, eu faço de índio de uma tribo canibal e tu de cowgirl, frágilindefesa num saiote florido. Quero-te perto o suficiente para que me vejas piscar-te o olho e eu te ouça gargalhar em resposta. Esfolemo-nos os joelhos antes que a noite caia, nos chamem para o jantar e nos mergulhem as mãos e os sorrisos de um no outro em barrelas de sabão.



(something wild)
Perguntas-me pelo momento preciso, por aquele nanosegundo em que o Amor descambou e começámos a verter mágoas. Não sei. Talvez quando nos distraímos e resvalámos para o primeiro suspiro de tédio ou quando o ruído do camião do lixo se sobrepôs à respiração do outro, que até então monitarizávamos atentamente. Queres saber do momento em que o nosso futuro deslaçou, como claras em castelo batidas em excesso no um dois três do magnífico repasto conjugal, e eu não sei. Repito: não sei nem me interessa, o momento. Basto-me com o desalento.



(it´s a wonderfull life)

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Tem-te não caias, não me dês trela, sabes que mordo e que engulo o isco como tainha a retorcer-se no lodo, que sou boa boca, que estico a conversa e me estendo ao comprido. Não me dês nada, que te peço depois mais. Depois é demais. Diz que ligaste mas foi por engano, que me temeste à mercê de febres e da solidão, que nem te lembras do abandono do teu corpo na longitude cansada do meu e que jamais trocarias a liberdade das tuas noites pelo resgate dos meus dias. Desculpa-te com o trabalho, tu nem cinema nem telejornais, que nada sabes das desgraças do mundo, nada de mim nem do aumento do défice. Tem-te não caias, compõe-me esse rosto, faz-te esquecido do meu meio das costas (onde se me acaba o cabelo) e do tom dos meus pulsos e dos meus tornozelos: esforça a memória, franze a vista e ensaia uma expressão de recolecção de lembranças. Amarra-te os dedos em pulgas, arranja uma tendinite ou umas cãibras a granel, que não podes escrever, que estás proibido dos médicos de empatares assim as palavras na ponta retorcida dos teus anzóis. Aguenta, resiste, que amanhã é outro dia e tu vês que não caíste, foi apenas uma tontura. Redobra-te os cuidados quando te debruças sobre os meus varandins e resolves espreitar-me para dentro, porque eu mordo e mordo e mordo (com um maxilar preciso de crocodilo com fome), o engodo com que insistes em entreter-me as horas.



(the outlaw)

Terça-feira, Maio 09, 2006

Fico aqui à tua espera e temo que não venhas. Fico à tua espera, mesmo sabendo que não vens. Sei que não vens, mas mesmo assim fico. Ainda te lembrarás de mim? Fico. Não me perguntem nada, não me macem, deixem-me ficar apenas. Fico ao frio desta noite gélida das duas da tarde de um dia de Maio. Fico à mercê das vagas revoltas que me lambem o cabelo e me ensopam os ossos, pendurada numa luzinha tremeluzente numa esquina ensolarada desta cadeira. Fico à janela deste cigarro, único farol de mim. Desde que saíste eu nunca mais fui a mesma. Quando cheguei e não estavas não me encontrei. Procurei-me e procurei-me mas em vão. Não sei de mim, onde me terei guardado, onde me terei metido. Não sei de mim. Se calhar levaste-me. Procura recordar-te, vê se te lembras. É importante para mim. Faço-me falta. Pensa bem. Tenta recordar-te. Comigo terás levado também aquela minha saia curta berrante que agora não sei usar. E aquela gargalhada aberta, que tão bem me fazia. Procura bem nos bolsos do casaco. No bolso de trás das calças onde eu me metia quando passeávamos pela rua agarrados. Procura-me entre o teu cabelo, vê lá se não é a mim que ainda cheira o teu cabelo. Procura-me bem no teu peito, pelas vezes que nele adormeci em tantas noites de televisão. Procura-me no teu olhar. Não é outra senão eu quem ainda vês, sentada de costas para ti nessa esplanada, onde por acaso te apanhas se distraído do jornal. Procura-me nas tuas narinas. Diz-me lá se não é a mim que te cheira a camisa que vestes pela manhã. Não voltas eu sei, mas ao menos devolve-me, ainda me tens?

(repulsion)

Domingo, Maio 07, 2006

A falta de ti maça-me, desconforta-me, aparece-me inesperada a meio da refeição, quando me sorris da aletria na canja com que formo o teu nome, às vezes o teu apelido, empurrando as massas com a colher para o rebordo do meu prato; cutuca-me o ombro, reclamando-me a atenção dispersa, como uma vizinha intrometida que teimasse em me contar os podres da viúva do andar de baixo; salta-me ao caminho dos meus rituais diários, desavergonhada, exibindo e esfregando-me na cara os quilómetros que nos distam, num relance obsceno de gabardina aberta por um louco. Cansa-me, a falta de ti, lembra-me aulas de geografia em módulos de noventa minutos, uma melga a zunir no escuro, uma espécie de comichão bem lá no fundo das costas, onde as minhas mãos não chegam. É assim como uma amante despeitada que invadisse o remanso caseiro da legítima, ligando-lhe com insistência sem nunca pronunciar palavra. Entedia-me a tal ponto, a ideia de que nunca estiveste, que anseio por saber o que haverá para além dela, como se pouco mais tivesses sido do que um longo e interminável intervalo para publicidade.



(the godfather III)

Quinta-feira, Maio 04, 2006

Não tens tempo para mim. Existem relógios, cronómetros até que te medem o tempo, esse tempo que não tens para mim. Pergunto, porque não existe um qualquer aparelho que antes nos meça o amor, que nos tome o seu peso, que nos indique suas coordenadas, as suas polegadas, as suas jardas. Não tens tempo para mim. Pergunto por uma máquina, por um mecanismo, mas não do tempo antes da distância do amor. Um turbilhão com reserva de marcha, não para o tempo mas para amar. Uma complicação de amor e não de tempo, desse que não tens para mim. Um mecanismo que nos dê o pico em que se estreia e o yotta em que se fenece. A quantos graus ferve, de quantos são seus quilates, seus volts. Não tens tempo para mim. O seu lúmen, de quantos Joules a descarga dele em nós. Porque para o tempo, que até nem existe, dispões de relógios caríssimos onde o cativas só pelo prazer (?) de o veres escapar, para que dele te sobre essa doce (?) impressão de o teres tido, de o deteres ainda. Mas nunca para amar, para amar não tens máquina, não tens tempo. O tempo que te aponta sempre o presente, quando toda a gente sabe que nenhum ponteiro consegue mostrar o presente. Quando o presente é «um cabelo a cortar em quatro», quando toda a gente sabe que o presente ainda se não pensou futuro e já nisso é passado, quanto mais o tempo. Os relógios são para o tempo e para o presente que não existe, não são para mim, não são para amar nem para o amor, que esse, como toda a gente sabe é eterno.

(catin a hot tin roof)



Verdade ou consequência, o jogo para hoje. E eu quero saber tudo: quantas noites em claro, quantas outras esqueceste, que fantasias tiveste, apenas por pensares em mim, mesmo que tenhas pensado pouco. Não vale mentir, caso em que terás tarefas cronometradas e difíceis de cumprir, praticamente impossíveis, como ocupares-te de todos os recantos do meu corpo com a inevitabilidade apertada da hora de ponta e depois deixares-me ir. Dizes-me que a verdade é preferível, não é por mais nada, mas apenas porque, depois, não conseguirias deixar-me ir, e eu sorrio porque sei que mentes e apetece-me dar-te uma ordem ainda mais irrealista, sei lá, por exemplo, atira-te ao rio. Finjo que acredito e continuo a tentar saber-te: o que te apetece dizer nos instantes em que nos despedimos, se ainda me cobiças os lábios pelo canto do olho e se já esqueceste o meu cheiro. Quero saber do que não me chegaste a escrever e se alguma vez te vieste sozinho imaginando-me nua à tua frente a fazer-me o mesmo. Porque eu já (é a minha vez de responder, faz de conta que perguntaste): às vezes, quando o cio aperta como a fome ao fim do dia, vejo-te a olhares-me para as mãos, que se atarefam por mim adentro. Afinal, a nossa história de sempre, esta de nos sincronizarmos o gozo sem sequer nos tocarmos e de tu seres o amigo imaginário cuja constância ao meu lado (à minha frente) teimo em inventar.



(secretary)

Quarta-feira, Maio 03, 2006

As pessoas vão nos atravessando como balas: muitas, sentimo-las zunir junto aos ouvidos em prenúncios de queimadura e pouco mais; algumas, raras, penetram-nos nos ossos e abancam, quietas até ver, no reboliço das nossas entranhas. Somos todos feridos de guerra com estilhaços de outros alojados no corpo, a dispararmo-nos alarmes de aeroporto e de loja, a sentirmos por antecipação a invernia, quando a humidade pegajosa da ausência nos recorda as placas de titânio que nos seguram as articulações, para que o andar não se nos falte e não fraquejemos em demasia. Pós-traumáticos sem terapia, qualquer explosão abafada de um escape na avenida à tarde, é para nós um obus, atracado à morte certa. Nunca enterramos de vez os que nos estão mortos-para-o-coração, e muito menos fazemos deles um luto minimamente decente: carregamo-los às costas, como mochilas de campanha atulhadas de armas e enlatados, como kits de sobrevivência dotados do indispensável para emboscadas futuras. É claro que, uma vez à mercê da escuridão do mato, com o cheiro do Amor por perto (esse inimigo silencioso que se esgueira e nos tocaia) aligeira-se-nos a carga e tendemos a esquecer tudo o que até então nos havia ocupado por dentro. Com sorte, passa de raspão.



(for whom the bell tolls)
Encontrei-te e num repente senti-me mudar. Segundos antes eu era outra e juraria que não seria isto. Fazia-te resolvido, devidamente encaixotado, um traste esquecido em desvão esconso na minha arrecadação. Mas não, afinal estás aqui e o teu sorriso alastra-se sem sinais de pó. O teu cabelo e o teu olhar impõem-se inteiros e sem traça, sem teia nem aranha. Eu que gastei quilos de borracha para te apagar e tu, feito Houdini a reapareceres-me triunfal num elevador improvável. Eu que te enterrei mais do que morto, com as fotografias e as cartas que começavam invariavelmente com um foi melhor assim e tu à traição, sem te anunciares, a ressuscitares-me incómodo no meu santo domingo de centro comercial. Para quê? Para que eu depois destes anos todos te volte a provar uma vez mais, balbuciando disparates e ameaçando tropeções, que sempre tinhas razão: Não eras para mim. Isso eu já sabia, agora volta para o teu caixote e dá-me o meu domingo de volta, por favor.

(wild at heart)

Terça-feira, Maio 02, 2006

Não sei como se mede a saudade. Ao quilo? à grosa? ao decalitro? Quantas jardas? milhas de distância? Quantos centímetros cúbicos de suspiros disparados no espaço sideral serão precisos, para que a chamemos pelo nome? Poderemos arredondar aqueles minutos de alheamento em que os olhos nem se nos pestanejam para - o quê?- uns dias bem medidos, no seu todo? alguns meses? Em alturas de tempestade, aponto-me para ti como uma bússola e, sem mesmo o saberes, conduzes-me o desnorte a bom porto, com a gentileza de quem pegasse um cego pelo cotovelo e o ajudasse a atravessar a rua. Como me tenho em conta baixa, não me suponho dotada de excessos magnéticos que te atraiam de forma igual, não obstante, algo me espicaça e confunde: o porquê de continuar a ser a primeira das tuas manhãs e a última das tuas noites. Será um meio de me manteres à distância, no espaço que medeia entre (e que é todo o resto do teu dia), como empurrões no peito? Ou apenas a forma de contabilizares uma saudade que afinal também é tua, prendendo-a a ferros entre esses dois momentos precisos, tão definidos no espaço e no tempo? Como se a conduzisses para um redil, fechado a rotinas em vez de cercas, na tentativa de a domares. Gosto de brincar com a ideia de que assim seja: visto-a, dispo-a, embelezo-a, pinto-a e torço-a, como uma miúda pequena, ao mesmo tempo zangada e divertida por coisas lá dela, com uma barbie à mercê dos dedos.



(lolita)

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Não teres tempo para o meu atrevimento sempre foi teu apanágio e a minha salvação. O que sinto por ti é como ter contraído malária: o bicho está cá dentro e volta e meia manifesta-se, apesar dos cuidados profiláticos que faço questão de ter, antes de cada viagem. Aliás, a profilaxia induz, ela própria, sintomas ligeiros da doença que é suposto prevenir e é por essa razão que as cautelas e os caldos de galinha, que engulo a horas certas, não me evitam suores frios, febres súbitas e tremuras, face à hipótese remota da tua presença no meu metro quadrado.



(the postman always rings twice)
E, por vezes, abandalhar-me: amarrar o cabelo sujo num rabo de cavalo oleoso e repuxar com violência as raízes escuras; desfazer a pele de brincos, anéis e relógio de pulso, e esgravatar-me as unhas até se lhes descarnar o verniz, às lascas; esborratar-me as pálpebras com desleixo, livrando-me mal e porcamente de riméles e ailaineres, deixar-me os lábios secos e gretados, a implorarem por um baton, um gloss que seja; vestir-me camisolas largas, de homem, cuecas brancas e altas sem pormenores de renda, meias de lycra com malhas fendidas de cima a baixo; enfardar-me num bolo de pastelaria, talvez dois, atrever-me a flatulências várias e desbragar-me num riso obsceno de dentes estragados e gengivites incuráveis; mandar o ginásio à fava, criar barrigas, duplos queixos e cansaços, não ter maneiras à mesa, comer com as mãos e de boca aberta, cotovelos ferrados no prato; evitar desodorizante e levantar-me os braços como quem bate asas, esquecer-me do creme no corpo a seguir ao banho e não imaginar por uma vez que as mãos com que me unto as pernas, são as tuas; sair porta fora a cantar como uma louca desafinada, descalça, com pastilhas e beatas coladas à sola dos pés, a aceitar tostões de transeuntes piedosos, comportando-me como quem tudo perdeu e nada teme. No entretanto, no entanto, deixa-me ir ao cabeleireiro, que hoje é dia de madeixas e há vaga na manicure.



(le notte di cabiria)

Quarta-feira, Abril 26, 2006

Com a mão direita e uma calma postiça, afastas a madeixa de cabelo que me ensombra a cana do nariz; enfias-me a outra mão por entre a alça do soutiã e estica-la como uma fisga de ir aos pardais, dedilhas-me até ao umbigo, num nocturno de Chopin; percorres-me os nós dos dedos com a ponta da língua, como um chef que provasse uma redução e aferisse da medida exacta de um ingrediente novo; engalfinhas-te ao redor da minha cintura e enredas-me no interior das tuas pernas, enquanto me sussurras que fazes e aconteces e que isto e que aquilo; gargalhas alto, de modo quase inconveniente, quando não me encontras roupa interior, aproveitando para te encaixares em mim como um lego; fazes-me cócegas, fazes-me rir, fazes-me amor e rebolamo-nos como miúdos em dia feriado. Somos os únicos ali e acabamos cansados, línguas de fora como cães a arfar, barrigas para cima a cuscarmo-nos as estrelas do nada surgidas e o que será que está para além de. Plenos, satisfeitos e indiferentes ao que não sabemos. Chamas o empregado, são dois cafés e a conta, hoje pago eu.



(the end of the affair)

Terça-feira, Abril 25, 2006

Em tempos, quando me tomava de uma ternura dormente e inexplicável que para ti me empurrava a boca, falei-te em vontades e na precisão do silêncio delas. Vontades de beijos, melhor, de beijinhos, daqueles doces como os de mercearia antiga, vendidos à dúzia, uns rosa outros brancos, que engolíamos sem dar tempo a que se derretessem contra o céu da boca, como os nossos beijos de verdade. Falei-te, então também, de abraços mudos aos molhos e à grosa, de gemidos baixinho e de outras quietudes essenciais. Agora, são outras as vontades e feitas de outras meiguices, embora ainda e sempre de horas perdidas a olhos nos olhos. A doçura efémera dos beijos deu lugar ao turbilhão das palavras que ambos quereríamos em dia mas que, felizmente, nunca o estarão, para que haja sempre mais. Palavras, por estranho que pareça, ainda um bocadinho escondidas do mundo e a espaços murmuradas, para (ontem como hoje) não despertar das coisas boas os seus contrários.



(the piano)

Sexta-feira, Abril 21, 2006

O desejo não morre sozinho: matamo-lo. A golpes de sabre e de baioneta, a rajadas de gê três, a copázios de veneno para ratos, seiscentos e cinco forte. Agarramo-lo pelo pescoço e estrafegamo-lo; enforcamo-lo num nó corredio e regozijamo-nos, enquanto balança e paira sobre nós, roxotumefacto. Decapitamo-lo, a cabeça aos pés do inimigo em jeito de triunfo, e estacamo-lo em cheio no coração, empalando-lhe os ais. Cortamo-lo pela raíz e desmembramo-lo, para logo a seguir o enterrarmos e o deixarmos a apodrecer na cova do apaziguamento. Mesmo assim, ele ressuscita a espaços, para nos atazanar o juízo, moer a pacatez dos dias e nos aterrorizar os sentidos, com um passo mecânico de zombie e a humanidade ausente do seu olho esquerdo vazio. O desejo: o verdadeiro protagonista dos filmes gore que são todas as histórias que se crêem de Amor, feitas de corações aos pulos e sustos na cadeira por entre baldes (de água fria) de pipocas. Vejo-o ao longe, os braços esticados na minha direcção, as unhas engalfinhadas e sujas da terra dos mortos, perseguindo-me e babando-se, sedento de carne viva. A minha.



(red dust)

Quinta-feira, Abril 20, 2006

De quando na paixão morre o desejo e se queda a amizade. Ou não? Será que só no Amor subsiste ao fim a amizade, o querer bem? Em acabando a paixão - esse entusiasmo que foi ao engano - o que resta? Apenas uma lembrança de vendavais passados, que nos chega quando vemos as telhas que se partiram e os ramos arrancados às árvores, espalhados pelo chão? Ficaremos num limbo, onde nos equilibramos precariamente até ela ressurgir ou vir outra? Ou a sensação do fim é um encosto suave onde respiramos fundo e nos limitamos a querer gentilmente o outro sem os escolhos do desejo a infernizarem-nos os centros nervosos? E a amizade por quem trepou por nós adentro, pode ser a mesma que votamos a um amigo de infância que trepou connosco às árvores e se casou com a nossa melhor amiga? E o desejo, que julgáramos ido de vez, pode voltar só com um sopro, uma palavra escrita à toa, um sentido que se adivinha promessa? E aquela indiferença matinal, que de tarde se mostra acordada (já atenta) e à noite nos percorre o corpo sob a forma de uma saudade gelada com aromas de cânfora? E o Amor, ampara tudo isto no seu regaço largo, como um bom pater familias, diligente da sua prole, ou é apenas uma ficção que nos mantém unidos estes sentimentos tão díspares, tão inesperados e tão fúteis, na verdade colados uns aos outros com cuspo, à mercê das condições meteorológicas, da mudança da lua e da ementa do dia?

(the unbearable lightness of being)

Quarta-feira, Abril 19, 2006

Quando enfiamos o braço num saco cheio de tralha à procura de alguma coisa, fechamos inconscientemente os olhos: a perda de um dos sentidos aguça os restantes e ao abdicarmos da visão favorecemo-nos o tacto. Talvez por isso, quando nos apaixonamos e ficamos cegos e surdos à lógica e a tudo o que até então aprendemos, se nos aguça o entendimento na ponta dos dedos, que extravasa sob a forma de um desejo furão a pedir medidas de pele, desenroladas a mãos de retroseiro. A partir daí, comanda-nos o instinto, que se substitui à razão; estranhamente, porém, nem costuma fazer um mau trabalho, o dito, porque instinto não é só comer e dormir e foder a desoras, é também sobrevivência; e esta implica por vezes quietude, retracção e recato: as mãos fechadas em punho e escondidas atrás das costas, a língua dormente e colada ao céu da boca, o corpo imóvel à espera que passe, num quase rigor mortis. Para que tudo continue como antes, para que doa o menos possível. Aquando da passagem do Amor, há que ser-se ligeiramente pós-darwiniano: a preservação é absolutamente essencial à sobrevivência da espécie, que não se basta na selecção natural.



(eyes wide shut)

Terça-feira, Abril 18, 2006

Chegas ao escritório com os bolsos vazios da insónia que acabou de te assaltar com todo o seu armamento pesado, tão pesado que nem sequer aproveitaste a vigília para escreveres, de moído que sentes o corpo, ainda a ressacar da outra insónia, a prima desta, a de há duas noites, quando te acompanhaste madrugada fora a whisky de doze anos, sem gelo. Entras no gabinete frio e hesitas entre o café, um cigarro e ligares o PC. Lembras-te, então, de que há muito deixaste de fumar e que o café pode esperar, starting windows, afinal, precisas de saber de uma outra insónia, que presumes igual à tua. Nem fechaste a porta e entra-te um colega, surgiu um problema, logo de manhã?, puta que o pariu. Fala alto, com uma estamina inusitada, debruçando-se por sobre a secretária e as tuas olheiras, que te fogem para o ecrã. Ruminas um assentimento distraído e rodas ligeiramente o tronco de modo a interpores-te entre aquela verborreia matinal e o teclado e poderes assim inserir a tua password sem que ele a veja. Demasiado concentrado na exposição do problema que acha teres a obrigação de solucionar, ele continua a esmiuçar-te ao ouvido a crise súbita e as recomendações da chefia, e confidencia-te quem lhe constou será promovido ainda esta semana. Agrafas um ar atento no rosto e entras sem ele dar conta no programa que te notifica dos emails e ainda naquele outro, que te diz dos posts novos nos teus blogues favoritos. Afocinhas disfarçadamente nos escolhos do correio recebido e não lido, à procura de um em particular que, como de costume, não está lá. Consegues ainda ver que também nada de novo foi escrito durante a noite que presumes ter sido em claro, como a tua. Rezas para que toque o telefone, o teu, o do colega, para que ocorra um cataclismo súbito, um pretexto qualquer para ficares só e digerires uma vez mais o vazio miudinho que a saudade deposita, a cada manhã, no teu corpo cansado.



(you´ve got mail)

Segunda-feira, Abril 17, 2006

Prenuncio-te nesta ventania instável que arrasta a Primavera pelos cabelos. No rebordo exterior da minha janela correm as nuvens que te desenham o perfil, por enquanto ainda volátil. Saio para a rua e adivinho-te na alegria manhosa com que me sorrio aos paralelos da calçada e no modo como me espreito no vidro da montra pelo canto do olho, fazendo-me passadas largas e lânguidas, como se fosse muito alta, linda e fatal, e desfilasse para o condutor pitosga que perscruta o cruzamento, o gordo fanhoso do quiosque, o drogado que monta guarda ao parque de estacionamento ou o puto acelera da pizza expresso. Na esquina seguinte, um pequeno tornado revolve o chão e desfaz-me a pose, mas nem isso me abespinha, que se me colem às narinas os talões do multibanco, os bilhetes de metro e os panfletos da publicidade, perca peso agora. Parece que se deu um tremor de terra por estes dias. Sentiste?



(dressed to kill)

Domingo, Abril 16, 2006

Quero sempre tudo já, agora, para ontem; queria ter-te tido naquela noite invernosa, ter-te amado à pressa e que me tivesses feito um filho, logo nado e criado, e depois ter-te posto com dono e arrumado de vez o assunto, lavado dali as minhas mãos; ter-te esquecido, como de facto esqueci, à velocidade da luz, warp speed, meia bola e força, um divórcio de vontades ratificado em notário no dia seguinte à boda, boa noite e um queijo, vai e não voltes. Não sei ser o meio onde está a virtude, peco por excesso e ainda mais por defeito, empanturro-me tanto quanto jejuo e, se não acelero, embasbaco. Rebento-me diques e extravaso após meses de seca extrema e encontro na desmesura o meu habitat natural; enquanto não me resolvo, desconheço-me, salto em comprimento e aterro de chofre nos pontos finais, os mínimos olímpicos sempre garantidos. Por isso já cá não estavas, quando sobre ti comecei a escrever: és mero exercício de estilo, deixa-te de coisas (deixa-me ir).



(thelma & louise)

Sábado, Abril 15, 2006

A primeira vez só poderia ter sido onde foi, na areia fria da praia, à sombra de um barco de pescadores que dormia de borco sob o luar quente de Julho, um encosto velho e cansado com a tinta a descascar na quilha e um cheiro agudo a peixe seco que, no lirismo infantil do momento, confundimos com maresia. A humidade da sílica a abrasar-me as costas que, ora se arqueavam, ora se distendiam, como cordas de uma guitarra onde tocavas a tua música, feita de dós sustenidos por sobre o meu arfar sincopado. A mesma paixão histriónica vivida a ritmos diferentes, os nossos dois corpos a capella: tu, a começares e a acabares primeiro e eu, sozinha, empenhando-me nos vocalizos finais. Cedo nos afinaríamos as vozes da pele numa consonância perfeita, mas foi aí que comecei a perceber que o Amor é, por vezes, vivido em canon: ora um se adianta, ora o outro se atrasa, e que, como a música de câmara com os seus disparismos sonoros, também ele pode viver e alimentar-se daquela estranha sincronia que nasce dos desencontros que se sucedem.



(walk the line)

Quinta-feira, Abril 13, 2006

Subitamente, um som antigo, lindo e mal sintonizado, a meio de uma viagem longa, chega-me distorcido às amígdalas, numa náusea de prazer dorido que é quase auto-comprazimento. E eu, até então dentro da mais estrita legalidade, a conduzir no absoluto cumprimento do código da minha estrada, do lado de cá do traço contínuo que me separa de ti, resvalo em contramão e derrapo no asfalto oleoso da tua presença. De água na boca, ouvidos em stand-by e surda para os barulhos do mundo, apresso-me ao destino e, sem mesmo desfazer as malas, vasculho emules em busca do ficheiro original, não corrompido pelo suborno dos anos ou pelos caprichos das ondas hertzianas. Saco-o rapidamente, de vários anfitriões em simultâneo, afinal, muitos mais há por aí que, como eu, se confessam através do copy-paste descarado dos amores dos outros. No fundo, no fundo, o Amor é igual para todos, só que alguns limitam-se a saber contá-lo melhor (If only I could find out the way to sail you).



(all about eve)

Quarta-feira, Abril 12, 2006

Trago-te em bolandas, arrasto-te comigo para o trabalho, despejas-me o meio pacote de açúcar na bica, sopras-me a juliana a escaldar que sorvo em pé, ao almoço, na pastelaria da esquina, acendes-me os cigarros que me fatiam a rotina em doses finas, suportáveis; adivinhas-me o pendor fútil e arrebanhas da banca exposta uma leitura de cordel, e lá vamos os dois, por entre risadas gémeas, a ler das traições dos outros; atrelo-te ao meu passo de corrida, como um rafeiro que se amarra à carroça dos ciganos e se arrasta, esbaforido, pelo macadame fora. Entras comigo no banho e encaixas-te em silêncio no centro exacto das minhas virilhas mornas, enquanto a água me escalda as veias e eu adormeço de ignorância e cansaço, com a rosa dos mundos caída ao lado, um sonho com poesia dentro onde nem te vislumbro os contornos, pois já me invadiste que chegasse o dia, com o fac-símile da tua sombra prestável.



(sabrina)

Segunda-feira, Abril 10, 2006

A primeira vez, que na verdade é a milésima, de tanto que já nos fodemos, a cabeça feita em água, feita colchão de água, redondo de motel rasca, a estourar de tanta sinapse acrobática. Depois, um dia por fim, o corpo que treme e se dobra ao desejo acumulado: um caniçal, vergado à ventania oceânica que sopra de mil direcções, incapaz de se fixar num ponto cardeal que seja da nossa pele enxameada. A incontinência suada dos gestos, por momentos sustidos nas expectativas, presas por um fio e desfeitas agora na poeira do medo. Os dedos nervosos, que falham colchetes, mamilos, fechos, ganchos de cabelo, clítoris, nós de gravata, escroto, botões, pontos a a g, onde está?, onde estás?, e a ideia insustentável de um segundo perdido, um segundo a menos em que não te amarfanho a pele súbita e nua. Arranca-me a blusa e rasga-me a merda do soutien que eu já me adiantei, ganho-te aos pontos, lambo-te sôfrega e sabes-me a sal. És profilático e propedêutico, que sou hipotensa e hoje falhou-me o rito da bica curta, a do meio da manhã, na pressa de aqui chegar, na urgência de te escalar. Quase desmaio, preciso de sal, preciso de ti. Amanhã, amanhã há mais.



(the graduate)
Abri-me as gavetas com uma gazua retorcida (que as chaves, não sei onde as terei posto), retirei-as dos encaixes, virei-as para baixo e despejei-as a esmo, até se lhes desprenderem as migalhas de vida coladas aos cantos. Analisei-me paixões, desamores, doses industriais de insónias, de suspiros e de felicidades raimosas, espalhados pelo chão à mercê dos meus calcanhares vingativos. Acabei a contorná-los com cuidado e então apanhei-os, espanejei-os e revi-lhes as formas, retorcidas e gastas; tomei-lhes a textura e, a alguns, achei-os achei-os risíveis, ásperos, até. Em se me esgotando paciência de tanto escarafuncho, devolvi-os ao lugar, dispu-los por cores e rubores, e encaixei com cuidado as arestas umas nas outras, assim maximizando o aproveitamento inútil dos meus espaços vazios. Concluí que, quando nos desarrumamos por dentro, não há catalogação onomástica que nos salve da insanidade temporária de não sabermos quem somos. Felizmente, ao futuro, esse poliedro de ângulos imprevisíveis, nem lhe mexi, deixei-o onde estava: no canto mais recôndito da gaveta mais alta, por abrir, silente na quietude da espera, como só ele. Um dia, chegarei a quem sou.



(belle de jour)

Sábado, Abril 08, 2006

Isto é um jogo, é é um bocadinho arrancado da vida, que é um jogo muito maior. A mim, que me fico pela bisca e pela batalha naval, falham-se-me por isso as analogias. A memória curta não me faz adversária decente e a distracção congénita que me governa os gestos dissolve-me a acutilância e o atino, necessários à função. Perco até a feijões, excepto quando a sorte me golpeia e eu nem sequer me mexi, e não me é difícil imaginar que, neste preciso momento em que me lês, eu descarte várias boas jogadas, daquelas de mão cheia. Mas a vontade de espalhar pelo tampo da mesa as cartas escondidas, à bruta e à estúpida, tenta-me quase tanto quanto a batota. Imagino-te um bluff excelente e eu, uma principiante dispersa, nestes esquemas do desprezo calculado. Se nada te digo, é porque nada tenho para te dizer: não pago para ver, não me lembro que cartas já saíram e não sei quanto valem as que tenho na mão (não me fui ensinada das regras). Por hábito, ignoro o número dos meus oponentes e subestimo-os na sua determinação mais que certa. Tanto rodeio, apenas, para te dizer que te sei aí desse lado, a rondares-me a inépcia perdedora.



(rear window)

Sexta-feira, Abril 07, 2006

Que tudo passa. Os desmandos arbitrários de quem nos paga, o tornozelo torcido na falha da calçada, as derrotas do Benfica, o ranho verde dos putos, o céu cerrado de tristezas e de outras tantas promessas, a subida inesperada das taxas de juro, a pontada súbita de dó pelo sem-abrigo que nos ressona o álcool aos pés, a saudade do que não nos falta, o saldo negativo no banco, o desconsolo molhado da chuva e dos projectos por cumprir. Tudo passa, menos tu: uma espécie de fantasma, uma amálgama de plasma trocista que, em vez de me destapar os lençóis e me puxar os pés ao fundo da cama, me destapa e repuxa os sentidos, picando-me o ponto com aquela assiduidade contrariada de um funcionário por conta de outrém.



(always)
Ontem, devorei-me as unhas todas e lá se me foi o verniz novo: um vermelho-sangue que a sílvia manicure me impingiu na segunda, com aquele entusiasmo infantil com que se promovem as coisas pequenas. Recaídas várias, ambos os joelhos da alma esfolados e o corpo a persistir nos vícios automáticos de infância que o acodem quando vacila. As minhas mãos, de bonitas-cuidadas, passaram a destroços amputados de um dia difícil. Às pontas dos meus dedos, achatadas do massacre, escondo-as agora na rua, embolsando-as, como me escondo aqui, embolsando as palavras que vou misturando com os trocos das transacções passadas. Ontem, nem o sabor químico do polish red me demoveu de roer o teu sorriso até ao sabugo.



(atame)

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Que nada me digas. Aconchega-te. Lambe-me como um cão a pele esquecida. Vadio. Argola-me os tornozelos e os pulsos ao teu desejo-tractor. Arrasta-me. Abre-me as pernas sem qualquer espécie de dó, afasta-me os lamentos de par em par. Vai uivando baixinho. Que te orientes no meu corpo-norte, mesmo que de coração-bússula-partido. Que me releves esta distracção-infracção-leve. Enfia-te mais, compensa-te das noites que tive distraídas, por entre as minhas pernas, as minhas costelas. Chupa-me os polegares, pintados com desleixo, os cantos da boca, adornados com os restos do batôn rosa-vulgar. Vacila a tua maçã-de-adão sobre as minhas virilhas, tamborila-me, com os nós dos teus dedos, a cicatriz que me curva a barriga. E alisa-me, com pinta de lifting (de tanto os sorveres e chupares), os meus pés. De galinha. Neste crescer dos dias, adivinha-se o estio, adivinha-se-me o cio.



(body heat)
Começo a esquecer-me da cor dos teus olhos (vaga ideia de que contêm o mar). Preciso romancear-te, dar-te ares de coisa importante, promover-te a chefe de secção desta minha repartição cardiovascular, mais benesses e ajudas de custo. Manter-te nos píncaros da minha imaginação corredia, encarpar-me e mergulhar de costas nas nossas águas passadas, esticar o faz-de-conta aos limites da impaciência. O olvido maça-me, soa-me a tempo perdido. É um facto: o tédio sentimental começa com o fim da ansiedade do fim.




(sunset boulevard)

Terça-feira, Abril 04, 2006

Há dias assim, em que careço de areias e de conchas, da irregularidade do horizonte quando o Sol se lhe desce, do desmaio roxo-anil do céu mal se lembra de aconchegar a lua. Há dias assim, quando o sonho de uma noite de Verão se sobrepõe à intermitência dos suspiros carbónicos e as gaivotas levam no bico o gargalhar dos miúdos, felizes. Porque, como disse algures alguém, as palavras vão com o vento, vão com a nortada de Agosto, que cobre de névoa o recorte da berlenga e este meu querer baixinho, à deriva, como boia de esferovite quase desfeita, metro mal medido de cordame descarnado ou garrafa vazia de óleo fula, forrada a crude seco. À mercê dos intervalos do dia e das pausas para café.



(midsummernight´s dream)

Segunda-feira, Abril 03, 2006

Procurar-me-ás, ainda, no entulho do correio que recebes? Ou já te deixaste disso e agora limitas-te ao recolher obrigatório daquele ansiar pequenino (quase invisível) que, de quando em vez, faz um pop up indesejado por sobre os centros nervosos da tua epiderme resignada para, logo depois, se espraiar esquecimento fora? Para, no segundo a seguir (sim, logo a seguir), se distrair na nervura daquela pedra de calçada (daquela folha), no pigarreio entediado do funcionário que te carimba as precisões burocráticas, na chamada urgente a saber onde estás e a que horas chegas, naquela ideia para um texto que de repente te acorre quando atravessas a rua e não tens caneta nem onde a escrever, ai que já foi, era sobre o quê?, no planear metódico de um fim-de-semana ao sol, os dois sentados no sofá a lerem brochuras, no cruzar breve com uma antiga namorada, então, tudo bem?, tudo óptimo. Qualquer coisa serve, por estes dias, para que te espraias e distraias de mim? Não respondas, faz-me o favor.



(the lady from shangai)
Saudades. É tão simples e certinho, como dois e dois serem quatro: tenho saudades. Dos rumores da tua presença, talvez amanhã talvez na sexta, do quiçá da tua chegada, da iminência da tua voz a meio da manhã e da mesa para dois, quadrada, demasiado grande (para quê, tanto espaço?); tu, do lado de lá, longe de mais e eu, debruçada sobre o prato, oferecida, a morder-me os lábios e a lamber-me os dedos, os cotovelos mal-educados em cima da toalha para que pudesse esticar-me o queixo um bocadinho mais na tua direcção, para que me visses tão nítida que nunca me duvidasses por um segundo sequer. Esqueci-me que, mesmo assim, mesmo com a certeza do meu rosto a fundir-se no teu hálito, serias tu a calares as palavras e a esqueceres-me primeiro.



(match point)

Domingo, Abril 02, 2006

Que sou convencida, imbecil, idiota, excessiva, incómoda, de faca na liga. Não sou nada: estou só a resgatar-me ao vício, a chutar metadonapalavras na veia. A ressacar. Ocupada no cultivo de uma horta de textos tempranos, algures numa remar de província, longe (se não de tudo, pelo menos de tanto). A ver se nesta ginástica mental de cava semeia, me canso e esvazio e desintoxico de ti. Se me livro o globo ocular de tanto passar, em repeat e rewind, as still frames do teu riso vulgar concentrado nos meus gestos.



(leaving las vegas)

Sexta-feira, Março 31, 2006

Saber que não existes, alivia-me, alija-me o fardo de não te ter tido. Nunca exististe porque eu te criei, moldei-te à minha precisão da altura, meu pigmaliãozinho de araque. Aquele que cruza os dias indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, que passeia o cão que não tem e se abriga e desalenta na sua própria insónia, que espera impaciente que discorra mais um domingo enquanto se asperge em delírios escritos de palavrosa grandeza, esse, não existe. Ou melhor, só esse é que existe - nada mais tens para venda, não comportas quaisquer extras nem me tentas com promoções ou incríveis descontos, leve dois paga um. No meu mercado de tubérculos-suspiros e de leguminosas-enxertadas-de vida, és coisa sem valor venal, que não justifica sequer o dispêndio administrativo da hasta pública; se atender ao direito de propriedade de qualquer uma das minhas veias, dir-te-ei res nullius. A constatação é-me razoavelmente feliz: por agora, só existe a microscopia do que de ti sobra; nada resta da nobreza que te inventei.



(closer)

Quinta-feira, Março 30, 2006

Subíamos a arriba descalços, a lua já a boiar no céu, a tactearmos com a planta dos pés os resvalos do caminho, a picarmo-nos nas arestas dos seixos em fóssil, deixados a descoberto pela invernia. O cansaço do dia a invadir-nos e ainda a subida ia a meio. Eu, colada atrás de ti, como sempre, a minha cabeça por entre os teus glúteos, que me iam mostrando onde pisar. Sempre me indicaste o caminho a seguir, ainda hoje o fazes: mesmo quando sou eu que te dou ordens e berro e esbracejo que nem um polícia sinaleiro ou um arrumador na ressaca, daqueles que insistem sofregamente para que estaciones no lugar vago que é a sua concessão de vida. De repente, uns mirrados segundos em que me esqueci de que os teus glúteos se engalanavam de força bem na frente do meu nariz, empinado contra o vento, curioso, a tactear um ar diferente (porquê? não sei, talvez pela distracção infíma de não me teres agarrado o cotovelo, no momento em que olhei para baixo e vacilei no escuro).



(vertigo)
Divirto-me a trepar e a descer a hierarquia dos meus amores, como se me empoleirasse numa daquelas escadas de pintor com dois lados, no meio de uma sala atafulhada de bricabraques coloridos, a minha vida cheia. Apercebo-me de que todos sem excepção foram amores, sempre atrevidos, alguns desmesurados e excessivos, como os saltos das botas que gosto de usar ou as palavras com que gosto de me entreter. Noto, beliscando-me a pele da memória, que nenhum me foi especialmente doloroso, mas também nenhum me foi indiferente: ainda hoje, gosto de todos, amavelmente, só não gosto de ti. Reparo que não te enquadras na fotografia de grupo, não és uma daquelas caras sorridentes que me brindam de copo no ar e no entretanto balanço-me no escadote, escalando-os e deixando-os para trás, aos meus amores. Tu, vejo-o agora, estás num dos cantos da sala vazia, os jornais espalhados pelo soalho a protegerem-no dos pingos de tinta como nos protegemos das lágrimas. Olhas-me do vértice onde te páras e um raio oblíquo de sol parte-te ao meio o sorriso complacente, deixá-la medir-se os amores que foram os outros, é deixá-la... está entretida, isto passa-lhe. Às tantas levantas-te, aproximas-te de mim de trincha em riste e, com um encolher de ombros, desatas a pintar-nos em todos os sentidos e a várias demãos: os outros, os degraus, a estrutura de alumínio, os outros (salpicas-me o pé esquerdo, vale que a tinta é de água). Só tu, para, num ápice (enquanto o Diabo esfrega um olho, aquele onde lhe caiu um pingo de tinta grosso), fazeres desaparecer todos o resto.



(gone with the wind)

Quarta-feira, Março 29, 2006

Estranho, como a fotografia não desbotou nem um bocadinho, assim não imitando a vida. Lá estamos os dois, muito novos, de olheiras tão cavadas e fundas que nem a maquilhadora de serviço conseguira disfarçar, os sorrisos meio abertos, uma das pernas de cada um ligeiramente à frente e de lado para realçar o efeito fotográfico e assim permitir o encosto desvelado dos nossos parietais, a pose estática, numa mudez quase assustada e que os outros quereriam agradecida e expectante. O meu vestido rodado e a jaqueta curta tipo Chanel, numa seda selvagem muito leve, como leves não eram as nossas olheiras cavadas e fundas, debruadas a noites de amor e de contas à vida em claro, as pérolas da avó ao pescoço. Tu, demasiado à solta dentro de um fato demasiado largo, que parecia alugado mas não era, que era quase fantasia de Carnaval, de tal forma te caía, inopinado. Os dois, mascarados que estávamos: eu, de princesa, uma audrey hepburn de bairro, bonitinha e apresentável, mas sem a classe nem a ossatura perfeita, e tu, de palhaço rico; ambos num malabarismo circense às voltas com as bolas coloridas do presente e do futuro, ai que ainda nos caem no chão, vê lá se não perdes o equilíbrio, agarra-me, por favor. Eu, a acabar a noite descalça e enfiada à pressa no meu fato de saída, coisa de bom corte, grife italiana, a querer que me chegasses e mo desenfiasses e toda a gente se fosse embora para me aqueceres, entre as tuas pernas, os pés frios, gelados, do chão de pedra do palacete emprestado. Onde começámos um dia a fingir que já éramos crescidos.



(breakfast at tiffany´s)
Atravesso a rua e fixo o olhar na zebra da passadeira, enquanto lembro o teu repúdio mole, pouco convicto; vou , deparo-me e permito-me a raiva em repeat mode, boquiaberta, uma e outra vez. Ma